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História política e cultural inspira professora a lançar livro

recorte de jornal

-Para deputado: o pirata da perna de pau!

– Mamãe, mamãe!

– A cidade tá cheia de vereador.

– E o que você fez?

– Toquei Detefon nos brutos!

 

O diálogo insólito acima, na verdade, é uma anedota que foi escrita na cédula de um eleitor, que virou comentário de um jornalista, em 24 de março de 1948, do extinto Diário de Natal. Encontrado pela professora de História, Jailma Maria de Lima, acabou por inspirá-la para titular o livro: “Toquei Detefon nos Brutos – o Rio Grande do Norte em Campanha Política (1945-1955)”, que será lançado na Cooperativa Cultural Universitária, no Centro de Convivência da UFRN, na próxima sexta-feira, 1º de dezembro, a partir das 11h.

Segundo ela, a anedota abre o segundo capítulo  do livro que faz um passeio pela história política do Estado na década a partir dos anos 1945 até 1955. “Eu tentei compreender o porquê da referência feita ao Detefon e descobri que, naquele momento, esse produto era uma grande novidade da indústria química e a sua propaganda era intensa tantos nos jornais, quanto nas emissoras de rádio. Não temos como saber qual a real intenção daquele cidadão (que escreveu a anedota na cédula de eleitor), mas encontramos referências ao uso do termo também no jornal A Ordem que, ao reclamar da propaganda dos comunistas, espalhada pelos muros da cidade, afirmava que o povo já a intitulara de ‘remédio para todos os males’ e de Detefon, pois ‘afugentava os eleitores democráticos”, diz ela, lembrando o detalhe, como boa professora de História, que aquele jornal fazia uma intensa propaganda anticomunista desde a década de 1930.

Fato é que o produto Detefon acaba por ganhar referência, naquele contexto, com evidente teor crítico, como uma possibilidade de exterminar políticos. Não sabemos se em forma de protesto, descrença com a recente democracia, mas o fato relevante é que naquele contexto, o eleitor já tinha sido convocado a votar três vezes, em poucos mais de dois anos”, explica a historiadora.

“Toquei Detefon nos Brutos” é uma versão reduzida e com algumas modificações de sua tese de Doutorado, defendida na Universidade Federal Fluminense junto ao Programa de Pós-graduação em História. E editado pela Editora da Universidade Federal de Campina Grande (EDUFCG). Custará R$ 50. De acordo com apresentação o livro, o principal objetivo da obra foi acompanhar as dinâmicas das campanhas eleitorais no RN, considerando que os partidos, candidatos e eleitores foram seus atores fundamentais.

Jailma Maria Lima explica que o interesse por história política vem de sua adolescência e da sua mãe. “Até hoje, aos 76 anos de idade,  ela acompanha, comenta e faz as suas escolhas políticas. Cresci ouvindo ela falar sobre o motivo que a fizera mudar de Lagoa de Pedras, cidade onde nasci, para Natal. Em 1974, ela votou em determinado candidato e ao tentar pegar água no açude foi interpelada por outro por causa do seu voto. Ao ser questionada, mandou que o político ficasse com a água que ela, a eleitora, ficaria com o voto. Resolveu se mudar para Natal e assim o fez. Ela sempre contou essa história com muito orgulho e isso foi me despertando para a política. Ao me tornar historiadora, foi por aí que os meus estudos e pesquisas foram se encaminhando”, conta.

O recorte entre 1945 e 1955, de acordo com a escritora, se deu porque ela considera extremamente importante o período histórico entre 1945 a 1964. “Por ser a nossa primeira experiência democrática, com algumas características que valem ser observadas: a criação de partidos políticos nacionais; a realização de eleições concorridas e disputadas; a ampliação do número de votantes; a atuação da Justiça Eleitoral e o desenvolvimento de estratégias de convencimento e atratibilidade para o exercício do voto”, diz e continua esclarecendo suas motivações quando, em se tratando especificamente do Rio Grande do Norte, que passara por um momento de evidência política nacional, desde a Insurreição Comunista de 1935 e mantém esse status com a atuação de algumas lideranças políticas nesse novo contexto, como o vice-presidente da República, João Café Filho, que veio a se tonar presidente entre 1954 e 1955.

Jailma é professora de História do Brasil República e de História do Rio Grande do Norte, no curso de História do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES-UFRN), em Caicó. E observa que seus alunos da graduação que estão, em média, na faixa etária dos vinte, vinte dois anos apresentam, em sua maioria, interesse por história política, sobretudo a História do Brasil. “Eles sentem necessidade de compreender e vão formando as suas próprias opiniões. Eu acredito também que, quando eles optam pelo curso de História, já foram despertados/fisgados pela história no ensino fundamental ou médio. Eu acredito que o próprio contexto de crise política que vivemos tem despertado a atenção de uma parcela da juventude para a história política brasileira”.

E falando em crise política imagine, caro leitor, se a moda pega nos tempos atuais? O que seria necessário de Detefon para exterminar políticos no Brasil?

 

Toquei Detefon nos Brutos

 

Lançamento do livro –

“Toquei Detefon nos Brutos – o Rio Grande do Norte em Campanha Políticas (1945-1955)

Local: Cooperativa Cultural Universitária

Dia: próxima sexta-feira, 1º de dezembro

Hora: 11h.

Preço: R$ 50.

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Sheyla Azevedo

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