Homenagem à memória de Wilson Martins

8 de fevereiro de 2010 às 15:41 - Comentar

Por Miguel Sanches Neto
Jornal do Brasil

RIO – Em uma de suas teses sobre a técnica da crítica, Walter Benjamin diz: “A posteridade esquece ou celebra. Só o crítico julga no rosto do autor”. Desde 1942, quando iniciou suas atividades no jornal O Dia, de Curitiba, até outubro de 2009, na Gazeta do Povo e no caderno Ideias, do Jornal do Brasil, Wilson Martins (1921-2010) veio julgando a literatura brasileira. E muitos autores lhe viraram o rosto por causa disso.

Morrendo solitariamente (apenas no conforto da família), e sendo velado por um pequeno grupo de amigos, Wilson Martins manteve a coerência de uma trajetória. Não escrevia por amizade aos autores, mas por amizade aos livros. E é isso que faz de seu legado crítico não apenas o maior conjunto de análise de obras brasileiras como o mais rico por sua isenção, por sua coragem de avaliar obras no calor da hora.

Seu ensaio maior, História da inteligência brasileira, em sete volumes, acompanha ano a ano a produção editorial brasileira (toda ela, não apenas a literária), do início da vida cultural do país até os anos de 1960. Esta obra-mestra é complementada pelas críticas reunidas em Pontos de vista (15 volumes, de 1954 a 1999) e pelo O ano literário (2 volumes, a partir de 2000). Também escreveu outros títulos importantes, mas mesmo assim, disse-me ele, tempos atrás, guardar um projeto não realizado: escrever um livro-síntese chamado Os brasileiros. De certa forma, ele acabou escrevendo esta obra pela soma de todas as suas análises sobre o que somos como povo.

Sua produção está aí, fala e continuará falando por si só, numa demonstração de seriedade, de coragem e de amor pela cultura nacional. Ela não deixará que ninguém lhe tire o posto de maior crítico literário de toda a história do país, porque foi como crítico literário e como leitor profissional que ele construiu uma obra. Assim como um Rubem Braga deu à crônica uma centralidade literária, Wilson elevou a crítica militante, esta feita para acompanhar os lançamentos, a uma categoria intelectual que ela ainda não atingira no país.

Mais desconhecido era o homem que havia sob o crítico, tido como dono de posturas rigorosas, avesso às expansões emotivas. Wilson Martins era assim, mas também não era nada disso.

Nossas trajetórias se cruzaram por acaso, e a amizade dele me polinizou – não acho outra imagem. Houve um contato intelectual e humano tão intenso que floresceu em mim o crítico e o escritor. Na hora de escrever, imaginava o que o Wilson pensaria sobre aquilo. Muitas vezes, tinha certeza: ele ia detestar; mas mesmo assim eu escrevia, recebendo o silêncio (sinal de que odiara), umas palavras vagas (então não lhe era tão estranho assim) ou um comentário positivo. Fui desta forma delineando minha literatura em contraste com as opiniões do mestre. Não correspondi ao que ele entendia por grande literatura, mas criei zonas de contato com as suas concepções.

Sem esta convivência com a obra e com o homem, eu teria seguido caminhos literários totalmente diferentes. Mas se divergíamos sobre alguns pontos da literatura, e talvez por isso mesmo, conseguimos manter um diálogo muito intenso. Nunca me senti no papel de discípulo, embora tecnicamente o fosse, mas no de alguém que debatia com um outro “oficial do mesmo ofício” – expressão que Wilson frequentemente usava. Foi ele quem me deu a carteira profissional de crítico e escritor, reconhecendo-me nestas funções. E eu me sentia mais importante do que de fato era nos momentos em que conversávamos.

E fui criando uma admiração irrestrita ao homem. Se muitos outros escritores com quem convivi se revelavam em suas mesquinharias, Wilson crescia por sua generosidade intelectual.

Das qualidades de Wilson Martins, a que mais me espantava era sua capacidade para o trabalho. Levantar muito cedo, barbear-se, vestir-se como se fosse para sair e começar o seu dia de leituras. Lia até perto das 11 da noite, quando ia dormir. Se dormisse antes, era porque o livro não prestava – eis sua ideia de grande literatura: aquela que nos mantém despertos.

Eu admirava ainda o seu apetite. Nos almoços de que participei (na companhia principalmente de seus amigos mais próximos – Norton Macedo, Tato Taborda e Eduardo Virmond), espantava-me com a vitalidade de quem dava conta de pratos que nenhum médico recomendaria para alguém da idade dele. Este mesmo apetite ele tinha pelos livros, pela vida, pelas notícias. É o apetite que faz com que uma espécie se desenvolva.

O bom humor de Wilson Martins também surpreendia. Eu o imaginava, antes de conhecê-lo pessoalmente, um intelectual sisudo. Tinha convivido com os maiores escritores brasileiros do século, havia morado 30 anos nos Estados Unidos, lecionando literatura, e escrevera aqueles livros imensos… Só podia ser um chato. Mas ao lado do Wilson Martins reinava sempre a diversão refinada.

Contou-nos, entre tantas, que, depois de um jantar em Salvador, queria ver um terreiro de umbanda, por pura curiosidade sociológica, e que um grupo o levou ao local. Mas era preciso subir um barranco e isso se tornara impossível para ele – então, Jorge Amado, que estava presente, o carregou nas costas, morro acima: “Foi quando a crítica literária andou a cavalo na literatura brasileira”, concluiu ele, rindo. Passagens divertidas como esta encantavam todos os presentes.

Mas nada era mais marcante neste homem do que a integridade intelectual. Nunca deixou de escrever o que achava que devia ser escrito, mesmo que isso lhe custasse (e na maioria das vezes custou) ser perseguido por pessoas bem postas – perdeu empregos, recebeu ataques violentos, foi difamado. Mesmo assim, nos 15 anos de nossa convivência, nunca o vi reclamar de ninguém. E se esta pessoa que o prejudicara escrevesse um bom livro, receberia dele, com certeza, um artigo consagrador. Mas, se o livro fosse ruim, viria um de seus julgamentos definitivos.

Wilson Martins fez com que eu ousasse ser escritor. E por este erro ele não será perdoado.

Comentários fechados.

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar
    • Anne Guimarães: Marcos meu menino... Na vida só a alegria embeleza a alma. Beijocas por estes versos! :) - Ai Hay Hai