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Me poupe desse papo de beleza interior

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Iara Carvalho nasceu em 1980, na cidade de Currais Novos, Seridó Potiguar. É graduada em Letras e Mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia, na terra natal; Como poeta, venceu o 3º Concurso de Poesias Zila Mamede e ficou na 3ª colocação no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody, em Curitiba (PR), em 2010; ela tem dois livros publicados

Era mais um desabafo no Facebook, mas virou uma publicação no Substantivo Plural, por acreditarmos na força do depoimento da poeta Iara Carvalho sobre ser uma mulher fora do padrão de beleza massificado, vítima de gordofobia e preconceito disfarçado

Desde sempre, tive o corpo fora dos padrões impostos pela sociedade. Na infância, não posso dizer que sofri bullying, ainda que alvo de alguns apelidos maldosos.

A partir da adolescência e o começo da vida amorosa-sexual, percebi que eu tinha que me esforçar mais que as outras meninas pra conquistar os rapazes de quem gostava.

Tive a ‘sorte’ de gostar de estudar e usar dessa minha qualidade para ser uma pessoa dita ‘interessante’ (conheça a poesia de Iara).

Além disso, aprendi a me destacar pela minha personalidade brincalhona, sarcástica e, de certo modo, autêntica, mesmo com as ‘bobices’ de quem ainda estava moldando o seu modo de ser. E, dessa forma, conquistei quem eu quis, na maioria das vezes.

Eu percebia que não era minha beleza exterior meu maior atributo.

Por sorte, não me vi muito abalada na minha autoestima, mas aprendi a me adaptar utilizando-me de outras qualidades, já que vivemos nesta selva de pedra em que ser diferente é uma luta constante.

Nunca desisti, até porque sou romântica, adoro me apaixonar, amo o processo de conquista, o qual, tendo sido sempre desafiador, traz a mim uma carga deliciosa – mas à vezes exaustiva – de excitação e euforia.

Entretanto, o que percebo no discurso, principalmente dos homens com relação às mulheres fora dos padrões limitados e limitantes da sociedade, é que é digno falar de que admira e gosta da pessoa por sua ‘beleza interior’.

Uma coisa é você dizer a uma mulher magra que o motivo de sua atração pela mesma é a sua ‘beleza interior’. Faz com que a sua ‘beleza física natural’, que ninguém lhe pode arrancar, em teoria, seja um bônus diante do todo profundo, em teoria, da dita cuja.

Outra coisa é você deixar claro que uma mulher gorda se destaca por sua ‘beleza interior’, como se não houvesse atributos físicos capazes de o atraírem. Isso não passa de gordofobia velada, de preconceito disfarçado.

No geral, os homens têm certa dificuldade em sair por aí exibindo uma mulher considerada destituída da beleza convencional. E também não me venha com essa historinha de que ela é bonita de rosto.

Não me esquarteje que eu não te esquartejo também – e olhe que a dor em você seria bem mais embaixo.

Se tem uma coisa que aprendi no decorrer da minha vida é que sou linda. Me acham convencida né? Pois sou. Sabe por que? O mundo já é cruel demais com as mulheres pra que eu também me valha dessa prática, seja por causa da ditadura da beleza, pelo comportamento sexual, ou quaisquer outros parâmetros construídos pelo patriarcado.

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Portanto, se quer me elogiar, que não seja apenas pela minha inteligência, personalidade, caráter ou autoconfiança (que não são perfeitos, diga-se de passagem); mas também por eu ser essa mulher cujo corpo carrega histórias de beleza e luta, corpo que eu não trocaria por nenhum outro.

Sim, beleza interior eu tenho, obrigada. Mas eu sou é linda demais pra ser só uma alma luminosa: acrescente ‘gostosa’, ‘sexy’ e ‘muito bonita demais’ à sua admiração, e ande comigo de mãos dadas pela rua, com orgulho de ter uma mulher de verdade ao seu lado.

Abra sua cabeça e entregue seu coração, independente de normas e maniqueísmos.

O ser humano vale a pena de ser conhecido em sua totalidade – do considerado ‘superficial’ às profundidades de almas que, por se verem de forma plena, conseguem ser plenas para os outros.

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Iara Carvalho

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