A incrível história de Jacqueline Brasil

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pastorA igreja evangélica estava lotada, naquele domingo de mormaço e bênçãos, para ver o pastor mais querido.

Preces e gestos efusivos amortizavam o sofrimento individual, e prorrogavam o ponto alto da noite. Apenas uma pessoa, ou algumas poucas, sabia o que aconteceria minutos adiante. Essa estava no altar.

No auditório, uma mancha humana prestes a viver algo inesquecível. Sobretudo Jackson Silva de Oliveira.

O suor na testa, a camisa molhada do mestre da cerimônia viraram lembranças do plano em execução.

Houve um pedido de silêncio geral. O pastor chamou Jackson ao púlpito.

“Agora peço aos irmãos que nos deem às costas, que olhem para a saída”, orientou a voz soberana.

Um bilhete anônimo acusava o jovem de 15 anos de ser um degenerado por transar em salas e corredores da sede da congregação. O líder religioso revelou o conteúdo para os presentes.

“Minha mãe não parou de chorar um minuto”, diria o maldito, anos depois. Humilhado, Jackson ganhou o mundo.

“Eu era virgem e entendia que ali era o lugar onde se pregava o amor. Não sabia o que era paixão e tesão, como estavam dizendo. Na verdade, eu era muito temente a Deus”.

O pai, que já deslocara os dois braços do filho, quando este tinha apenas cinco anos e apresentava trejeitos afeminados, ampliou a penitência ao bani-lo de casa.

“Fui morar na rua”.

Para ser exato, no centro de João Pessoa, na Paraíba. Lá ele seria abordado por um homem mais velho, que logo assumiu sua criação.

“Ele foi um anjo para mim. Me deu casa, comida e educação”.

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A descoberta da homossexualidade veio em um convés

Nessa época, Jackson se envolveu com mulheres com o mesmo fervor exibido na igreja e entrou para a Marinha do Brasil.

“Muitos marinheiros iam a prostíbulos com frequência. Foi ali naquele meio que eu descobri minha homossexualidade”.

E o primeiro amor. Justo um colega daquela farra correspondeu à volúpia, no começo dos anos 1980.

Dez anos depois, um acidente de trabalho forçaria uma reserva prematura. As sequelas auditivas acabaram com o sonho de chegar a oficial. Aos 27 anos de idade, Jackson estava aposentado e livre para sofrer uma metamorfose ensaiada em sua mente.

“Eu me sentia homossexual, mas só quando fui morar no Rio é que me descobri travesti”.

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“Me sentia homossexual, mas só quando fui morar no Rio me descobri travesti. Quando me vi arrumada feito mulher, senti que era aquilo que queria para minha vida”.

A vitória em um concurso de beleza gay, em 1994, foi o estopim para a transformação.

“Quando me vi arrumada feito mulher, senti que era aquilo que queria para minha vida”.

Longe da opressão familiar (o pai dizia que preferia ter um filho bandido) e do conservadorismo nordestino, Jackson virou Jacqueline Brasil, persona popular entre militantes LGBTs em Natal, para onde voltou, em 2000, enfim, órfã de pai e mãe.

No currículo, uma faculdade de psicologia inconclusa e a patente de terceiro sargento reformada. Conversamos em sua casa, um apartamento de três quartos no terceiro andar de uma galeria comercial na Cidade Alta, dividido com uma sobrinha já adulta.

“Ela mora comigo desde que nasceu”.

Nascida em Campo Grande, município do Oeste Potiguar (até 1991, Augusto Severo), Jacqueline Brasil exige ser tratada na terceira pessoa do pronome pessoal do caso reto.

“É um direito que conquistamos, de sermos tratadas como gênero feminino”.

A presidente da Atrevida (Associação de Travestis Reencontrando a Vida) é também conselheira estadual de saúde e vice-presidente da ASMANFA (Associação Nacional dos Militares e Forcas Auxiliares vivendo com HIV e AIDS).

Ela defende causas como a efetividade do nome social nos órgãos públicos, a realização da revista policial feita por agentes mulheres, o direito de utilizar banheiro feminino em todos os lugares, capacitação para o mercado de trabalho.

”Uma travesti não tem como se esconder, como os gays e as lésbicas. Tá na cara a condição dela. Por isso, desde cedo elas sofrem preconceito, o que quase sempre faz com que elas abandonem os estudos para viver de prostituição ou subempregos”.

Militância

Segundo dados levantados pela própria Atrevida, cerca de 70% das travestis e transexuais potiguares são analfabetas. Jacqueline Brasil diz nunca ter feito programa e ser respeitada por vizinhos.

“Nunca usei short curto, nem fui de fazer farra na minha casa. Sempre tive relacionamentos sérios”.

Simples afazeres viram tormentos para uma travesti. Compras no supermercado, usar banheiro ou hospital público, tudo requer concessões dolorosas.

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Cerca de 70% das travestis e transexuais potiguares são analfabetas

“Não temos uma vida plena. Vivemos de subterfúgios. Não queremos o terceiro banheiro. Isso cria um novo gueto. Queremos poder usar o banheiro feminino, pois é como nos sentimos. A mulher é muito mais aberta para os travestis. Ao contrário dos homens. Entrar no banheiro masculino é até perigoso. Sempre alguém assedia de forma grosseira, sem respeito algum. Nos hospitais, a mesma coisa. Temos que ser atendidas por mulheres”.

À base de antidepressivos, Jacqueline Brasil se recuperava de um Acidente Vascular Cerebral ocorrido dois anos antes, durante o tratamento de um câncer no estômago que deformou o olho direito, parte da boca e deixou uma série de limitações.

“Nunca me envolvi com drogas, mas gosto de tomar minha cerveja e fumar um cigarrinho. Só que hoje faço isso com moderação”.

Pensamentos suicidas alimentam perguntas sem respostas.

“Me tranco no quarto e pergunto o que eu fiz para merecer isso”.

O medo da violência é um dos pilares do trabalho à frente da Atrevida. Casos de agressão e morte que envolve travestis são corriqueiros.

“É um crime de ódio que debatemos em encontros de travestis e transexuais que organizamos”.

A eloquência de Jacqueline impõe respeito. Completa sua figura trágica e nos dá a dimensão aproximada do sofrimento da minoria mais amaldiçoada.

“É fácil alguém na rua jogar fezes, urina, pedras ou xingar uma travesti. Por isso, quando tem casos de travestis criminosos, sinto como se tivesse perdido 12 anos de trabalho. Não compactuamos com isso, só aumenta o estigma, o preconceito contra a gente. As pessoas precisam nos respeitar. Podem até não gostar, mas têm que me aceitar como ser humano”.

Outra bandeira agitada por Jacqueline Brasil é a campanha pelo Disque 100, número da Secretaria de Direitos Humanos Presidência da República. Uma rosa tatuada em sua mão esquerda relembra os tempos de Marinha. Tempos de viagens pela Argentina, Suíça, Senegal, Venezuela e África do Sul, experiências decisivas em sua formação intelectual.

jacqueline-brasil-5“Devo muito à Marinha, não só por viver com a aposentadoria que ela me paga, mas por sempre ter me tratado com respeito”.

O sotaque indecifrável, misto de carioca com sertanejo, revela andanças em busca de um porto seguro.

“Não é mole viver deprimida, com todo mundo olhando esquisito e lhe recriminando. As pessoas matam nosso sentimento com esse comportamento. Não adianta eu ser íntegra, honesta e respeitosa com todos. A condição de minoria nos joga na marginalidade. Avançamos nas leis, mas o olhar pouco mudou. Acredito que Deus tem um propósito em nossa vida. Deixo na mão dele para que me dê forças de aguentar tanto sofrimento. Antes de morrer, quero ver travestis serem respeitadas como cidadãs. Essa será minha luta até o fim”.

*Em maio de 2013, entrevistei a travesti Jacqueline Brasil, personagem trágica, digna de filme. Quase três anos depois, falemos dois, três minutos por telefone, para reajustar a reportagem. Queria saber possíveis novas ocupações, excluir citações de eventos ocorridos na semana do encontro, mas sem alterar a crueza e a veracidade do relato. Para esta publicação, também reescrevi alguns trechos, a fim de minimizar erros de concordância, digitações e demais confusões textuais. 

 

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Comentários

3 comments

  1. Tânia Costa 30 novembro, 2016 at 13:55

    Legal. Trazer à baila esses temas. Ajuda a dar dignidade e respeito às pessoas que por sua condição de gênero são alvo de preconceitos e outras coisas piores.

  2. Conrado Carlos 30 novembro, 2016 at 15:38

    Que bom, Tânia. A vida da Jacqueline já foi muito barra pesada, mas ela está aí na luta. Abraço!

  3. Valeska Silva 4 dezembro, 2016 at 17:44

    Fui apresentada à Jacqueline num evento em 2015. É uma pessoa encantadora e de muita luta.

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