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Invenção e renovo em Cambono

Há escritores que precisam desesperadamente de uma cidade onde situar as histórias que pretendem escrever. Assim, a cidade – o sítio das narrativas novelescas – antecede a própria feitura do texto. Mas, que escritor não sabe o que vai escrever, mesmo que ainda não haja dado um único passo nesse sentido? É óbvio que as duas ações podem correr em paralelo: construção simultânea da urdidura de um lado, e da geografia e demografia do outro; a outros, basta um olhar minudente sobre a sua própria cidade. Joyce, por exemplo, em sua relação com Dublin; Machado, com o Rio de Janeiro imperial. Em contraste, Tarcísio Gurgel precisou criar sua Macatuba para onde recolheu suas primeiras histórias, e que é e não é, alternadamente, sua Mossoró natal. É verdade que, depois, sua ficção se abriu para outros rincões, o que demonstra que a busca da cidade ideal pode não ser um fato definitivo na vida de um escritor.

Clauder Arcanjo, cearense/mossoroense, precisou criar sua Licânia para se fazer ficcionista. Licânia (Mossoró: Sarau das Letras, 2007) é o nome que escolheu para sua primeira reunião de contos, e seu título genérico já revela que, a seu ver, é um nome que paira acima de qualquer história singular. É como se a cidade fosse o ponto de partida de cada história, mero episódio da narrativa urdida no veio comum da cidade. Em Lápis nas veias (Mossoró: Sarau das Letras, 2009), o fato se repete. Não seria surpresa se o autor finalmente se decidisse a dedicar todo um romance à sua “Macondo”, um não lugar (pensamos em Marc Augé) situado aquém de Sobral e além de qualquer limite geográfico. Acrescentemos uma última observação: o próximo livro do autor, uma coletânea de contos, intitulada Separação, é ambientado também em Licânia. Seus personagens, porém, são de outra grei, como se fora outra Licânia, ou outra geração.

Foi assim que nasceu o romance folhetinesco Cambono (Mossoró: Sarau das Letras, 2016), publicado originalmente nas páginas da Gazeta do Oeste, cujos leitores viveram a experiência de acompanhar pari passu as desventuras e euforias de um autor em pleno transe criativo, processo sujeito, vezes várias, a crises de criatividade e a momentos de franco desespero ante a empreitada e o tempo exíguo para realizá-la. Ou ainda quando, por exemplo, personagens e leitores sucessivamente se levantam contra os rumos que o autor começa a imprimir ao livro, aparentemente em desacordo com aqueles, acossando-o com reprimendas virulentas e recebendo outras em troca, numa clara subversão de todas as normas que regem o gênero, em sua formação clássica.

A sucessão das semanas também permite entrever no texto mudanças de humor do autor que se materializam no abandono de atitudes de ironia e/ou autoironia, presentes nos capítulos pregressos, ameaçando o até então impensável: fazer a trama descambar nas veredas do messianismo clássico inspirado em modelos como o padre Cícero do Juazeiro e congêneres (Parte XLVII e seguintes). Em outras situações, se permite interpolar cartas e mesmo artigos de terceiros, alheios ao enredo (Parte XLIV), quando o autor se flagra “assobiando nonadas, assuntando vacâncias, pescando navegos”. Trata-se de um ardil: é o próprio personagem Adamastor Serbiatus Calvino, ou melhor, Cambono – ainda em sua fase laica – quem propõe ao autor a publicação do texto “O que é um poeta?”, do poeta paraibano Hildeberto Barbosa Filho. O recurso pode ser lido também como um intermezzo lirico que antecede a mudança de paradigma no folhetim.

Ou pode ocorrer de um personagem assumir a voz narrativa. Na Parte VI de Cambono, Dona Parmênides Wagner Augusto (os nomes próprios em Licânia remontam a homens e mulheres ilustres da História) narra, ela própria, o caso de Antônio Louro, aliás, seu Quinha, aquele que, em todo canto em que chegava, “tinturava com ares e galanteio de maestro da amizade e dos bons modos”.

Por todas essas razões, ao término da obra, os leitores respiraram tão aliviados quanto seu autor, e puderam constatar que existem, sim, autores que podem assumir para si a tarefa de escrever semanalmente um romance e conduzi-lo até seu porto seguro. Mas não infenso a crises, desvios e interpolações. O naufrágio deixou um despojo ímpar: o manuscrito na garrafa, que redimirá seu autor.

Desde o início da leitura de Cambono, o leitor vai se dando conta de que não está diante de um folhetim típico, como Eugène Sue, Camilo e Dickens o fizeram no século XIX, por exemplo; as liberdades que o autor toma com relação a uma determinada espécie de leitor – reclamão, de maus bofes, desenxabido, quase sempre em desacordo com o urdume traçado, são perfeitamente adequadas à mise-en-scène da narrativa, acrescendo-lhe um ritmo de teatro de revista que funciona como um enredo paralelo. Mesmo a revolta dos personagens (Parte L), seguida da revolta dos leitores, é tudo rebate falso…

Em Cambono, o tempo é um presente fugidio, o que permite que um determinado personagem assuma o protagonismo, em capítulo tal, para logo em seguida recuar para um papel subsidiário, quando não para o completo esquecimento. O que interessa é a trama, ou melhor, a própria Licânia, que os utiliza a seu bel-prazer, como se fora um titeriteiro manipulando seus fantoches. O narrador de Cambono se pauta por um princípio que lhe foi ditado pelo preclaro Crisaldo Nepomuceno, vulgo guru de Licânia: “Nunca conte história, quem conta história é historiador. Crie histórias e será um homem pleno de louvor”.

Evidentemente, não se pode ler ao pé da letra esse preceito. Há boas e más histórias ficcionais. Assim, cabe ao leitor aferir se a história criada em Cambono é digna de louvor, como defende Nepomuceno. De nossa parte, cremos, as surpresas com que deparará no caminho vão lhe proporcionar horas de genuíno entretenimento literário, quer pelo modo como trabalha a linguagem – ora por excesso, ora por ser por demais econômico, mas nunca convencional –, quer pelos desvãos que abre no espaço narrativo onde reinstala a invenção.

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