Faleceu um dos maiores escritores brasileiros, J. G. Noll

João da Mata
DestaqueLiteratura

Do barroquismo ao mínimo múltiplo comum.

Falar de João Gilberto Noll é falar de um dos maiores escritores vivos do Brasil. O escritor nascido no Rio Grande do Sul em 1946, já escreveu mais de uma dezena de livros. Do caudaloso romance de estreia “A Fúria do Corpo” ao minimalismo dos pequenos contos ou “instantes ficcionais” de “Mínimo Múltiplo Comum”, passando por grandes romances e livros de contos.

Escritor de grande inventividade narrativa e estilística faz de sua escrita uma celebração ao amor. Seu primeiro conto publicado saiu na antologia “Roda de Fogo”, em 1970. Em seu último livro “Acenos e Afagos”, o protagonista abandona a vida para buscar sua identidade e seguir suas paixões. Em “Berkeley em Bellagio” o protagonista é um filósofo sensualista que vive a solidão da paisagem triste ( Lago de Como na Itália) onde precisa ministrar uma “oficina criativa”, e como mais um outsider dos protagonistas de Noll: só pensa naquilo.

Nossas pequenas e grandes tragédias existenciais contadas de forma única. Não espere um Bildungsroman em Noll, mas a anti-formação. Um olhar para a vida e seus personagens muitas vezes não revelados, mudos e dilacerados. A cada livro nos surpreende. No belo romance “O quieto animal de esquina”, o protagonista é um pobre poeta, animal calado e paralisado, que faz opção pela mediocridade.

João Gilberto Noll esteve na II Flipipa–RN e fez uma leitura desconcertante de alguns trechos de dois de seus livros. Leitura visceral onde são ouvidos os vagidos de seus personagens. O Noll e seus personagens que ele encontra em andanças solitárias pelas ruas, hospitais e guetos. Vários personagens com parte de uma mesma pessoa – o escritor e sua aventura pelo inconsciente. Em alguns de seus livros existe algo híbrido entre a prosa e a poesia. Em cada romance um prodígio de síntese poética e existencial. Noll foi um grande leitor de Sartre e da Simone de Beauvoir de “Memórias de uma Moça Bem-Comportada”.

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Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Um escritor solitário que precisa do caos e trabalha no limite. Na mocidade pensou ser um cantor lírico e seus textos são entremeados de música e imagens. Um escritor imagético.

Em a “Fúria do Corpo” de João Gilberto Noll o amor tempestuoso de dois mendigos nas ruas de Copacabana. Ele é sem nome e sem passado faz programas e vive no meio de delinqüentes e traficantes. Ela é Afrodite e trabalha numa boate vendendo o corpo. Numa narrativa barroca e caudalosa o autor expõe com todo ardor e paixão o amor vivido nas ruas e monturos da cidade. O dinheiro só é suficiente para alguns meses de aluguel. O amor não é ostentação: “o amor é pobreza vivida de prodígios e a cada peça despojada o amor chega mais perto do seu fausto, e este esplendor não tem um fundo. Escavação interminável em direção a si mesmo, e este esplendor é pobre como homem sem pernas…” ( pp 266).

Noll se utiliza de todas as técnicas narrativas modernas para contar a sua história de falos enormes e corpos em fúrias. O tamanho do falo é proporcional ao da mão. O personagem ganha três mil para comer um ricaço ao som de uma cantata de Bach. Ouvimos muitos sons no romance de Noll, numa demonstração de sua paixão pela música e pelas artes.

Em alguns momentos quando mais se avoluma e enriquece a narrativa o autor se utiliza de um fluxo de consciência que remonta ao livro A canção dos Loureiros (“Lês Lauriers sont coupés”) de Édouard Dujardin, muito empregado por Joyce no Ulisses (1922). Enquanto Leopold Bloom vagueia um dia pelas ruas de Dublin, o personagem-narrador nolliano percorre as favelas e ruas do Rio de Janeiro durante uma vida de privações. Foge da enfermaria com um menino da Cidade de Deus que logo morre, tem um caso com a vizinha do conjugado da “Prado Junior” e ama um gay no elevador. O amor para ganhar o sustento é consentido, e enquanto o namorado está na ultima fila do cinema e o homem mete a mão na sua braguilha sua namorada si com o vendedor de cachaça de Ribeirão Preto.

 

Gilberto Noll trabalha muito a linguagem numa féerie carnal. A linguagem é um dos seus personagens que transitam no limite. Personagens com corpos muitas vezes mutilados e sem prumo: – Mas, com muita tesão, lembra Noll.

Tive a grande satisfação de mediar uma mesa na II FLIPIPA com a participação de Noll e da professora da UFRN, Ilza Mathias. Ao final de sua grande perfomance, pedi para que ele lesse um pequeno texto do seu romance de estréia “A Fúria do Corpo” ( pg 127 ). Um trecho que revela a grande riqueza estilística, poética e sonora do Noll:

… a ave vê o ovo, o dado é de Eduardo, a fábrica fabrica fados, o homem hesita, o sol sabe do sábado, a carta cata o coração, o rinoceronte rasga a relva, a lâmpada livre é linda, a ilha inaugura o indivíduo, a ilha ilude o indivíduo, o rei rói o rumo da raça, o a arde no ar, a pica puta padece no paraíso, a foda fulmina a família, a buceta bebe a baba do Beto, Afrodite é fiel a seu fogo, o fogo é fato fatal mas sem ele a fibra fica falida e não funciona na Fábula – ….

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João da Mata

Comentários

3 comments

  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 30 março, 2017 at 03:15

    João Gilberto Noll, um dos maires escritores brasileiro com seus livros e seus personagem (S) conduz o seu leitor a um mundo pulsante visceral,de sensações de misérias de amores e solidão, e nos leva a um mundo marginal e dilacerante que em muitos momentos é inegavelmente tão nosso. Parabéns João Da Mata por esta bela artigo.

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