Joãozinho e a bola

24 de maio de 2010 às 14:07 - 3 Comentários
Por João da Mata

Para Tânia e Jarbas

Sempre tive fascinação pela bola. A esfera e sua simetria perfeita. As bolas da minha infância não eram tão esféricas e todas improvisadas. De tudo fazia bola e chutava. Chutava a vida, também.

Muitas vezes joguei com um pedaço de madeira. Um caco de pedra, uma tampa de garrafa, tudo servia de bola. Era bom nesses jogos improvisados entre o café da manhã feito a lenha e o lanche que não sabia. O intervalo da aula era o melhor momento. Tempo de jogar na quadra improvisada.

A bola também podia ser de meia. Cheinha e quase redonda. Uma evolução. Com o cheiro que só as meias possuem.

Não gostava de dormir para não perder tempo. À noite lavar os pés com uma bacia d´água. Quantas peladas nas calçadas do Instituto Sagrada Família, ali no Alecrim. Um pé na bola e o olho em papai que se me visse jogando naquela hora era bolo na certa. Bolo de palmatória. Castigo.

Aos domingos o catecismo no Sagrada Família e a cabeça na pelada depois dos juramentos de nunca pecar os 10 mandamentos,

O final da aula no Pe Monte era uma beleza. Jogar na grama o futebol mirim. Aquilo era bom. Fazia muito gol de calcanhar. Defendia me deitando em frente è trave feita com os sapatos e sandálias.

Na Escola Técnica de Comércio, ali na Rua Câmara Cascudo, jogava numa quadra de verdade. O chão quente de meio dia tirava todo o coro da sola do pé pouco protegida pelos tênis conga.

Antes disso, pegava qualquer coisa para jogar. Uma quenga. Uma cabeça de boneca. Essa bola era boa. Já tinha o formato e plasticidade para os nossos chutes de atletas de ruas sem calçamentos e asfaltos.
Nunca lembro de ter jogado num time com camisa e calção de verdade. Era tudo de brincadeira.
Para bater um pênalti um montinho de areia feito um peito.

João foi o maior peladeiro de bolas que não eram redondas como redonda também não foi a sua vida que ele aprendeu a chutar. Jogar na praia era uma delícia. Areia durinha e molhada. Um gol e um banho.
Quando não tinha ninguém para jogar jogava sozinho com as ondas. Rebolava a bola e a onda trazia.
Um dia resolveu desafiar um colega das Quintas. Baixinho, pobre e filho de um homem que tinha uma ferida. Foi aquele banho. De cuia e tudo. Um massacre.
Já formado fui jogar feito um Zé Ninguém. Quadra de salão e a bola pesada. Joelho inchado e ligamentos desfeitos. Perdi a partida. Perdi os óculos escuros.
Vivi a vida que pode ser vivida.

3 Comentários

  1. Jarbas Martins
    24 de maio de 2010

    João, tás escrevendo o fino,cara. E teu humor… Um montinho de areia feito um peito. Gostei. Só faltou você nomear o nome da musa. Fafá de Belém ou Rita Pavoni ?

  2. Tânia
    24 de maio de 2010

    Valeu João!
    Leia os comentários no post de Claudia “O jantar” que tem convite para você e Jarbas Martins.

  3. Danclads Lins de Andrade
    22 de fevereiro de 2011

    A bola, como bem o disseste,podia ser uma cabeça de boneca (minha irmã que o diga…rs… cansei de decepar as bonecas dela para fazer a cabeça de bola), um bolo de meia, uma quenga…. Enfim… Peraltices infantis, doces memórias… Belíssimo texto Da Mata.

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante