Os motivos de estarmos doentes são revelados nos 15 ensaios de John Jeremiah Sullivan

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SPECIAL PRICE APPLIES. John Jeremiah Sullivan, American author and contributing editor for New York Times Magazine.

John Jeremiah Sullivan tem 43 anos e é colaborador do The New York Times; multipremiado ensaísta, ele tem apenas dois livros, um deles este Pulphead – O outro lado da América

John Jeremiah Sullivan tem sido apontado como um dos principais nomes da safra atual na prosa norte-americana de não ficção. Com frequência, o jogam em listas ao lado de David Foster Wallace e Tom Wolfe.

Em 2013, ele lançou um dos livros mais badalados do ano no Hemisfério Norte: Pulphead – O Outro Lado da América.

A expectativa sobre Jeremiah Sullivan se confirma desde o primeiro escrito – os quinze textos foram publicados em revistas, como a Harper’s, GQ e The Paris Review.

Da paixão pelo Guns ‘N’ Roses ao cotidiano de um vencedor do Big Brother americano, o que mais fazemos é rir e refletir com textos bem acabados, atenciosos com o ambiente e da conduta dos personagens.

Antes de adquiri-lo, li uma série de resenhas que o classifica como um “renovador da prosa norte-americana de não ficção”, o que me soou exagerado.

A introdução feita por James Wood, crítico da New Yorker, aumentou minha incerteza: tenho em mãos mais um produto anabolizado pela indústria ou uma obra-prima?

Wood, autor do ótimo Como funciona a ficção, diz assim:

“Ele aparenta possuir abundantes dons de um contista: tem enorme capacidade de observação, além de curiosidade infinita, não foge de fofocas e sua memória é boa como a de uma criança”.

Desço os olhos nas primeiras palavras do filho de uma rica família do Kentucky e vejo que os elogios são merecidos.

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Na cobertura do festival cristão Creation, espécie de Woodstock movido à hóstia e versículos, Sullivan abandonou preconceitos contra um grupo de caipiras que o acolheu durante o evento.

Ensaios, reportagens ou literatura?

Pergunte a um jornalista se ele é prefere ir ao Rock In Rio ou a um festival menor organizado em uma capital brasileira fora do Sudeste. A resposta dirá muito sobre o tipo de profissional que você tem diante de si.

Pois, se David Foster Wallace foi a uma feira estadual no centro agrário e conservador norte-americano, Jeremiah Sullivan escavou a área rural da Pensilvânia para cobrir um festival de rock cristão.

Em Sobre este Rock, ele vai ao Creation, espécie de Woodstock movido à hóstia e versículos, para abandonar preconceitos e destacar virtudes de um grupo de caipiras religiosos que o acolhe.

Sobre Sullivan ser wolfe-fosterwallaciano, o mesmo Wood, diz: “[…] é mais gentil que o primeiro e menos neurótico que o segundo”.

A ideia inicial era cobrir outro festival; ele chegou a entrar em salas de bate papo virtual e postou uma espécie de convocação aos interessados em rachar custos da viagem.

“Eu tinha acabado de surgir na rede mundial […] como quem não quer nada, convidando um bando de cristãos de doze anos para dar uma volta na minha van”. Ele foi xingado à exaustão.

Já em Pés de Fumaça, ele conta a quase morte do irmão ao levar um choque elétrico num microfone, durante uma brincadeira musical na garagem de casa.

A edição merecia arte gráfica mais elaborada, em vez do malhado tricolor ianque. Mas, na real, isso pouco importa, porque Pulphead deixa o leitor empolgado.

Big Brother – The Big Brother houseguests pose in the backyard. New season premieres Wednesday, June 26 (8:00-9:00PM, ET/PT) on the CBS Television Network. Photo: Cliff Lipson/CBS ©2013 CBS Broadcasting Inc. All Rights Reserved.

John Jeremiah Sullivan fala até de Big Brother

Uma máxima jornalística diz que inexiste pauta fuleira, mas, sim, texto ruim. E o qual seria um assunto besta, vulgar? Cobrir um reality show?

Em Concentrando-se no que é realmente real, um dos melhores ensaios do livro, Sullivan mostra como inteligência e talento podem transformar um besteirol da MTV americana em uma peça literária atrativa.

Ora filosófico, ora descritivo, ele parte de uma experiência pessoal em uma boate, onde acompanha um ex-participante do BBB bonitão, rodeado de menininhas indóceis. Ao mesmo tempo em que ataca esse tipo de programa, confessa ser fã.

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Pulphead foi lançado no Brasil em 2013 pela Companhia das Letras; 15 ensaios foram publicados em revistas, como Harper’s, GQ e Paris Review

Assim, evita o clichê de detonar o que já é detonado por resenhistas a fole – como falar mal de grupo político A ou B, no atual momento brasileiro.

Nos ensaios sobre Axl Rose a Michael Jackson, ele conta histórias geniais do show business; enquanto em Sr. Lytle: Um Ensaio, talvez seu trabalho mais premiado, nos emociona com a vida de um literato obscuro no leito de morte, antigo professor de escritores renomados, como Flannery O’Connor e Robert Penn Warren.

Entre crítica, reportagem jornalística e mera opinião, John Jeremiah Sullivan agrada com sobras.

Durante a Flip de 2013, em uma mesa com Geoff Dyer sobre não-ficcão (diante de 60 pessoas, em um espaço onde cabiam mil), Sullivan foi preciso quanto ao que esperar de seus escritos:

“[…] há uma troca de DNA entre a ficção e a não ficção. Nem sempre é fácil saber em qual gênero uma obra se encaixa. Uma peça de não ficção literária tem uma posição particular em relação à verdade, cabe ao leitor saber qual o jogo. Claro, costuma ser desapontador quando descobrimos que uma história que presumimos real era falsa”.

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