O jornalista Daniel Piza nasceu em São Paulo em 1970 e estudou Direito no Largo de São Francisco (USP), começou sua carreira de jornalista em O Estado de S. Paulo (1991-92), onde foi repórter do Caderno2 e editor-assistente do Cultura. Trabalhou em seguida na Folha de S. Paulo (1992-95), como redator, repórter e editor-assistente da Ilustrada, cobrindo especialmente as áreas de livros e artes plásticas. Foi editor e colunista do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil (1995-2000). Em maio de 2000, retornou ao Estado como editor-executivo e colunista cultural; desde 2004 assina também uma coluna sobre futebol.
Colabora com a revista Continente Multicultural, entre outras, e é comentarista do canal Globo News e da rádio Eldorado. Traduziu oito livros, de autores como Herman Melville e Henry James, e organizou seis outros, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira. Publicou quatorze livros: quatro ensaios, um volume de aforismos, quatro coletâneas, um romance juvenil, um infantil, dois perfis e a biografia de Machado de Assis. Escreveu também os roteiros dos documentários São Paulo – Retratos do Mundo e Um Paraíso Perdido – Amazônia de Euclides. É casado com a jornalista Renata Piza e tem três filhos, Letícia, Maria Clara e Bernardo. Ele vai estar no I Festival Literário de Pipa, que será realizado da 24 a 26 de setembro.
Como você concilia as atividades de jornalista e escritor?
Com dificuldade! Gostaria de ter mais tempo para escrever livros. A biografia de Machado de Assis escrevi ao longo de um ano e meio trabalhando todas as manhãs e depois tirei seis semanas de férias para o “sprint” final. Recentemente escrevi o livro sobre a viagem de Euclides da Cunha à Amazônia trabalhando no dia-a-dia da redação, em minha saleta a portas fechadas, cerca de 10 horas por dia… Infelizmente no Brasil é preciso ter um emprego “full-time” para bancar a vida e os filhos. O jornalismo é minha ocupação e vocação; só espero ter mais horas livres para continuar fazendo meus livros.
O que você acha do jornalismo cultural que se pratica hoje no Brasil?
Mediano. Há muita gente se esforçando, resistindo à banalização do gosto e da educação no Brasil contemporâneo. Faltam publicações aqui como revistas semanais e tablóides quinzenais que dêem mais espaço a resenhas, ensaios, perfis, jornalismo cultural autoral e crítico. Mesmo na internet encontramos iniciativas muito isoladas, sem condições financeiras, quase como se fosse um grupo de amigos que decidiu organizar algo. Nos cadernos e seções da chamada “grande imprensa” a crítica perdeu espaço não para a reportagem, mas para as matérias de agenda, para as apresentações de eventos que muitas vezes são menos informativas e mais mal escritas do que os “press-releases”.
Todo jornalista pode ser bom escritor e vice-versa?
Não. Há jornalistas que são bons apuradores e não escrevem bem ou não têm fôlego para textos mais longos nem imaginação para fazer ficção. Muitos têm tentado ir para a literatura, mas confundem com crônica; esquecem que a estrutura mais extensa exige outros treinamentos. Já o sujeito que escreve ficção ou ensaios acadêmicos sente muita dificuldade para se comunicar com a clareza e a sedução necessárias ao texto jornalístico. O ideal seria aproximar esses pólos. Na revista “The New Yorker” os jornalistas fixos são chamados de “staff writers”.
Como é sua experiência como tradutor?
Faz tempo que não traduzo, salvo coisas curtas por diversão ou necessidade. A experiência ensina muito. Traduzi ensaios de Henry James, uma novela de Herman Melville, vi os “andaimes” atrás da construção de um livro. Mas se paga muito, muito mal.
Escrever para criança é um barato diferente?
Claro. Em meu caso, fiz Mundois depois dos atentados de 11/9/2001, quando minha filha mais velha tinha 4 anos, e senti necessidade de mostrar a ela essa mania de dividir o mundo em dois, de reduzir tudo a categorias excludentes. Isso numa linguagem simples, como se estivesse conversando com ela. Recusei inventar uma historinha com personagem, etc. Optei por essa conversa justamente porque queria que ela olhasse para as coisas como são, em vez de lhe dar um escape, uma fantasia. Ou seja, não só me aventurei num gênero difícil, como ainda quis fazê-lo de forma diferente, como tento fazer em todos os gêneros. Sinceramente, não sei se consegui.
Você acha futebol uma coisa relevante?
Felizmente não! Ou então ele é relevante por não ser relevante. Sou do tipo de amante do esporte que não perde humor com derrota, que não vê o outro como inimigo a zombar ou humilhar. Mas sei que sou minoria. De qualquer modo, para entender o Brasil pode ser bom entender o futebol. Aprendi mais sobre a ciclotimia da cultura nacional acompanhando o modo como Ronaldo foi sempre criticado pelos brasileiros do que lendo dezenas de volumes. Hoje ele está tão bajulado que preciso mudar de assunto… Mas minha diversão é ver o jogo bem jogado, só isso.
O que você acha dessas feiras de livros que proliferam pelo Brasil?
Toda iniciativa que chame atenção da mídia e do público para os livros já é um ganho, porque vivemos num país onde as pessoas têm preguiça de ler, mesmo as que têm dinheiro e tempo. Mas é importante não encarar a feira apenas como uma grande livraria coletiva, e sim como espaço para trocar idéias.