“Kafkiano”/Kafkaniano
4 de abril de 2010 às 10:25 - 3 Comentários
Nunca é demais lembrar (meu amigo Nelson Patriota) o mestre Otto Maria Carpeaux – emigrado que ajudou a civilizar o Brasil – e aque, na juventude, até teve a sorte de ser apresentado, em Praga, a um pálido homem chamado Franz Kafka (o próprio, evidentemente): pois Carpeaux, que veio para o Brasil e aqui viu crescer a inesperada celebridade mundial daquele “pálido homem tímido e triste” etc, não se cansava de dizer que “kafkiano” estava errado.
O certo, para ele, seria kafkaniano.
Bem vistas as coisas neologísticas etc etc, o mestre Otto tem lá sua razão… Falta qualquer coisa ao fácil “kafkiano” na boca de todo mundo (faltando, inclusive, a LEITURA de Kafka, que o Nelson abordou em boa hora).
PS:
Quanto à apresentação ao grande escritor tcheco – que escrevia em alemão (e, por isso, é Karel Capek que está no lugar do maior escritor tcheco da primeira metade do século XX), quanto à apresentação do então jovem Carpeaux à Kafka, o nosso Otto Maria ouviu “Kauka, Franz Kauka” – ou algo parecido – sair da boca daquele desconhecido homem triste que estava numa pequena festa num apartamento de Praga, com pessoas em torno de O. M. Carpeaux (ainda moço, mas já festejado pelo menos naquele círculo), enquanto “Kauka”, ao fundo, era um perfeito desconhecido que depois se retirou sem que ninguém o notasse. Carpeaux esqueceu completamente da figura, nos violentos anos pré-Guerra que sobrevieram, antes da sua fuga para o Brasil. E foi cá entre nós que ele viu surgir, pouco a pouco, a fama mundial daquele “Kauka” que não era Kauka, mas sim Kafka, um dos cinco mais importantes autores do vigésimo século. Otto, então, começou a se lembrar da mole mão do homem que lhe havia sido introduzido, naquela já distante Praga, num esquecida festinha qualquer da vida. E recordou o acontecimento, em artigo para a extinta revista MANCHETE, como um típico caso “kafkiano” (ôpa, leia-se KAFKANIANO) da oportunidade – perdida – que ele teve de conversar e até se tornar amigo daquele “Kauka”…


3 Comentários
A pronúncia é kauka ou kafka
Transcrevi o texto conforme o húngaro Carpeaux o escreveu, ao rememorar haver sido apresentado a Kafka, numa pequena festa num apartamento de Praga, e a impressão — que nele ficou — de haver escutado “KaUka” e não o que se pronuncia (em português) como o som de “Ka(fh)ka”…
PS: Fiz uma pequena mistura das origens de Otto Maria Carpeaux e de outro ilustre emigrado para o Brasil: Paulo Rónai. Este é que era húngaro, desculpe. Carpeaux era austríaco (de Viena), o que, aliás, é bem diferente do “alemão” que, às vezes, lhe atribuem…