Ken Loach filma o desmonte do estado de bem estar social

Tácito Costa
Destaque

Na semana passada, divulguei uma lista de 13 bons filmes que assisti recentemente. Entre eles, “Eu, Daniel Blake”, do diretor inglês Ken Loach. Coloquei-o no topo da seleção. Ao lado de “O Apartamento”, do irianiano Asghar Farhadi.

Um filme pode nos impressionar de várias maneiras. Seja pelos aspectos formais, estéticos, pela história, o contexto histórico, interpretações e direção. Só muito raramente abarca todas – ou quase todas – essas possibilidades. Como “Cidadão Kane”, de Welles, ou “A Aventura”, de Antonioni, por exemplo.

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“Eu, Daniel Blake” se impõe e nos comove pela história. Por traduzir, de forma muito clara, o momento atual, de avanço do estado mínimo, neoliberal e descompromisso com o bem estar social e os trabalhadores.

Resumidamente. Conta a saga do carpinteiro Daniel Blake (Dave Johns). Viúvo, 59 anos, ele é impedido de trabalhar devido a um grave problema no coração. A partir daí começa sua luta para conseguir o benefício social.

Nas peregrinações à repartição em busca do auxílio financeiro para sobreviver conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças, que também precisa de ajuda. As duas histórias se cruzam e passam a caminhar juntas.

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Dois desvalidos enfrentando um estado que se desobrigou de amparar os pobres e voltou-se para proteger os ricos. Eis a nova ordem mundial que Loach nos apresenta no exato momento em que está acontecendo.

O filme lhe garantiu a segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016. Sua primeira Palma havia sido “Ventos da liberdade” (2006).

A teia burocrática, que tem a única finalidade de fazer a pessoa desistir dos seus direitos, as exigências absurdas de documentos para provar isso e aquilo, remetem de alguma forma ao universo de livros como “O Processo”, de Kafka.

O filme não poderia ser mais atual para os brasileiros, que assistem impotentes, em questão de meses, a derrocada dos poucos avanços sociais obtidos nos últimos anos.

Com ele, Loach, aos 80 anos, segue antenado e firme fazendo obras engajadas e humanistas.

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Tácito Costa

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