La cubana en la Habana

15 de dezembro de 2009 às 16:34 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

Ela parecia guardar o mundo nas ancas. Era enorme, uma mulher enorme, daquelas que metem medo nos homens – mãe enorme parindo ao contrário, com jeito de engolir. Mas dançava com a desenvoltura de uma sílfide, dançava com a liberdade de uma salamandra, escorregava balançando como uma ondina.

Eu a conheci num longínquo dezembro, mais precisamente em 31 de dezembro de 1998. Longínquo não é o tempo, vós o sabeis, mui longínqua é a nostalgia. Por isso, a cubana dançante de Havana é longínqua.

Ali, em Havana, onde as ruas encompridam os nossos olhos, de noite e de dia. E não só os olhos. Tudo se encomprida em Havana. Comprida é a praia, sobre a qual contemplei lua cheia mais-bonita-não-há, da janela alta do hotel luxuoso. Os hotéis para turistas e tudo para turistas é muito luxuoso em Havana. A revolução se encompridava já, fazia quarenta anos. Encompridei-me corpo e alma pelas ruas do centro da cidade, inclusive olhando os prédios ocupados pelo povo no tempo da revolução. O povo, cujas gerações se encompridam nos antigos edifícios do governo, feitos cortiço, sem manutenção, descascados, vexados pelo tempo. Lá em Havana, onde os policiais em cada esquina nos impediam de chegar mais perto dos moradores daqueles prédios. Nós, os turistas, a quem era destinado luxo e aparência.

Tínhamos muito pouco tempo. Não nos estreitamos com o povo, nós que líamos antigos livros de poesia cubana vendidos nas praças, fumávamos charutos andando nas ruas, tomávamos sorvete na Coppelia, daiquiri no Floridita e táxi em longínquos automóveis. Nós que não amávamos a revolução e achávamos bizarrice Che Guevara pregado numa cruz à moda de Cristo. Não, não nos estreitamos com os que nos pedíamos confeitos, batom e creme dental, coisas que carregávamos para eles mesmos. Não nos estreitamos com quem nos pedia roupas e brinquedos. Nem quando singramos o rio para visitar a Santeria e a Nossa Senhora Negra de Havana.

Mas não é preciso estreitar-se para arder de paixão. Digam o que disserem, diga eu o que disser, Havana apaixona perdidamente. Havana não é um sítio para se pensar. Não é um lugar de racionalidades. É um lugar para se sentir. Adentrar a feira e comprar uma cubana imensa, uma cubana feita de barro guardando o mundo nas ancas.

Uma dessas, mas de carne, eu a conheci dançando no ano novo de 1999. Ela tinha a força e a cor da terra. Dançava com todos os homens do lugar, no pátio em frente à igreja. Eles, se magros e pequenos, desapareciam engolidos pelas carnes voluptuosas. E todos eles, diante da grande-mãe, pareciam pequenos e magros. A grande-mãe, semeadora da vida, dançava, enquanto, um a um, eles iam cansando. Ali, em Havana, o ano novo prenunciava o bom futuro, num ritual de fertilidade.

Na longínqua Havana, houve a lua cheia e a grande-mãe, tudo mulher. Por isso, a gente se encomprida por lá, mulher é coisa de encompridar. Havana é uma imensa mulher, engolidora, como aquela aparição de ano novo.

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    NAN GOLDIN
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura