Lamber a alma
12 de março de 2010 às 15:39 - ComentarAndo cansado das espigas. Para ser homem, meu amigo, não basta afiar a língua. É preciso afiar a alma.
Passei a semana afiando a imagem de uma língua lambendo a alma. Uma alma qualquer.
Pensava que a imagem poderia dar poema. No fim da semana, a imagem não deu nada.
Taí um reforço da velha teoria: tudo sempre dá em Nada.
Daí o escultor Luiz Ribeiro entra na minha sala e diz: “Temos de buscar o Vazio positivo!”.
Fico então a pensar: Que diabo será isso?
Mas a imagem da língua lambendo uma alma não queria me abandonar. Então esqueço o Vazio positivo para recomeçar com a língua e a alma. Pensar besteira é uma tarefa difícil e complicada.
Numa reunião me elegeram para uma comissão. Fui então para a reunião desta comissão. No meio da reunião desta comissão criaram outra comissão, e logo fui indicado para esta comissão. Na primeira reunião desta comissão eu mesmo indiquei o meu nome para uma outra comissão. Quando isto aconteceu, achei que era a hora de parar. Alguém estava ficando maluco e devia ser eu.
Com a cabeça cheia de comissões encontro o professor e crítico Sérgio de Sá nos corredores da UnB. Falo para uma professora que vai passando, “Olha ali o Sérgio, bom nome para a nossa comissão”. O Sérgio ouve e, inteligentemente, diz logo: “Isto me dá comichão!”.
Achei que ele tinha toda a razão.
Estas comissões são por conta da greve da UnB, que ocorre agora devido a ameaça de corte de 26% dos nossos salários. É, meu amigo, anda difícil ser professor no Brasil hoje em dia.
Aviso logo a meus estimados leitores: Não inventem de ser professor ou de entrar em qualquer comissão neste país!
O Duda Bentes, que é professor antigo, diz sem medo que já pensa em vender cachorro quente. Melhor vender hamburgers a ser professor!…
Achei que ele poderia ter toda a razão.
Por conta da greve aconteceu a segunda imagem mais inusitada da semana. A primeira imagem era, como falei, a língua lambendo a alma.
A segunda imagem foi o meu primeiro dia de aula. Preparei a disciplina, estudei alguns livros, revi a metodologia. No primeiro dia de aula, apresentei a disciplina. No dia seguinte, a UnB entrava em greve.
Dei aula e voltei então para o estaleiro. Como aqueles barcos velhos lá do Nordeste.
Tive um encontro de duas horas com a turma do 7° Semestre. Eram cinquenta garotos e garotas. Estranhamente, estavam todos com os rostos mais cansados do que o meu… Talvez Brasília não ande com o astral em dia…
Foi um único encontro com aqueles meninos-velhos. Fiquei com eles na cabeça o resto da semana. Como era segunda-feira, dia internacional da angústia, era compreensível. A segunda-feira é daqueles dias que você prefere não trabalhar.
Nos ‘dias ruins’ parece que você costuma falar coisas que não devia. Bobagem isso que escrevi agora, né não? Se bobear, falamos merda todos os dias. O que é outra merda.
Como custa afiar a língua e afiar a alma.
Cá entre nós, confesso algo sobre a alma: Ainda prefiro estar lambê-la!
Talvez seja isto o Vazio positivo da arte, de que falava Luiz Ribeiro.


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