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Lembranças de guerra

Quatro horas da tarde. O clima de verão esfria, prenunciando o outono. O pequeno pelotão está formado e imóvel. A polícia interditou o trânsito e o pelotão espera por alguma ordem.

São todos velhos. À frente duas mulheres, que devem ter sido enfermeiras em alguma guerra remota, leva cada uma corbelha de rosas. Têm pouco equilíbrio corporal, apoiam-se numa perna ora na outra, incomodadas com a espera.

Percebe-se em seus rostos uma quase invisível contração de dor pela fadiga muscular. Atrás, à distância de um metro delas estão os homens. Um deles não move nem mesmo os olhos, e em geral estão todos concentrados em ressuscitar o rigor da disciplina militar. Não fosse a farda, nunca lembrariam os soldados que foram.

O comandante começa a tomar as providências. Pede que as duas mulheres aumentem a distância entre elas e o pelotão. O comandante, como os demais, tem os cabelos brancos. A ordem de marchar é dada sem a impostação autoritária, a voz não soa forte como antes. Dão meia-volta e se dirigem ao monumento aonde prestarão alguma homenagem. Uma guerra qualquer, das muitas e várias, é o pano de fundo dessa reverência, nota-se pelas medalhas oxidadas e as fitas desbotadas que enfeitam os peitos murchos. São antigos paraquedistas que saltaram em campos inimigos ouvindo língua estranha entre balas e explosões de minas. Hoje ressurgem com os uniformes militares, os estandartes, as medalhas e uma estória de heroísmo.

(Pena que não ostentem também cartazes grandes, e luminosos nesta tarde nublada, cartazes como estes sugeridos. A menina estirada no chão, sem braços e a cabeça à distância, como uma boneca de pano destripada por um algum gato brincalhão. O soldadinho abatido ainda a fumaça do cigarro a lhe sair pela boca, sem completar o trago. Os milhares de cães sem patas, morrendo imóveis e aos ganidos na terra quente. Os rapazes ainda adolescentes retornando descansados para casa em reluzentes caixões de zinco, maquiados com a bandeira de seu país. Vistas do alto, lá de um avião, as montanhas de caixões de zinco têm o brilho ofuscante dos picos gelados do Himalaia. Poderia vir também nesse cortejo, e lá atrás, alguém com um alto-falante, a falar para os transeuntes preocupados com suas compras e seu cartão de crédito, se sabiam que no Afeganistão, na Síria, no Iraque, e em outras guerras esquecidas, as feridas se infectam porque os oficiais precisam beber todo o álcool para não dispararem uma bala na cabeça. Ou a indagar se já viram ou imaginam como é um soldado queimado, que Não tem cara, não tem olhos, não tem corpo. Algo enrugado, coberto de uma crosta amarela… O que vem de dentro desta crosta amarela não é um grito, é um rugido*)

O desfile prossegue na avenida, e segue com flores, tambores e clarim. Uma pequena multidão, solene e comovida, o acompanha. Caminha enfileirada, e aos pares como lhe ensinaram as escolas dos países de guerra, para que um não pense por si. Sinto desejo de acompanhá-los para vê-los de perto, quase centenários marchando com fardas de modelo antigo, como se visse um museu a céu aberto. Fardas hoje inimagináveis, algumas até engraçadas, como se roupa de boneco ou manequim. Mas começam a cair alguns pingos de chuva e os deixo para me abrigar sob uma marquise de uma loja. Dali ainda escuto um toque de clarim e a batida de tambores quando chegam ao monumento. As mulheres logo depositarão as coroas e as corbelhas de flores e haverá silêncio total. Uma comoção coletiva ante a pompa que teima em esteticamente esconder o horror cotidiano da guerra.

* Svetlana Alexievich, Rapazes de Zinco, ed. 2017, ed. ELSINORE

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Demétrio Diniz

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