CrônicaMais

Lembranças de minha mãe…

Vivi com minha mãe até os dez anos de idade. Morávamos em uma pequena cidade do interior de Pernambuco, onde nasci, quando ela foi embora sem maiores explicações e me entregou para uma senhora gorda e enigmática que havia sido sua patroa. Minha mãe era empregada doméstica e também lavava “roupa de ganho”, como se dizia naquele tempo. Uma mulher humilde e trabalhadora cujo único vício era o álcool. Vício que muitas noites a fez abandonar seus filhos numa casa semiescura, à luz de um lampião ou mesmo de velas, quando acabava o querosene… Éramos oito filhos. Seis foram adotados por pessoas da família de meu pai, a pedido de minha avó paterna, pelo que me contaram. Eu e minha irmã mais nova, no entanto, permanecemos com nossa mãe.

Muitas vezes, ela chegou a me levar para algumas das casas onde trabalhava. E desse período eu guardo as melhores lembranças da minha infância… Foi numa dessas casas que aprendi a andar de bicicleta. Enquanto minha mãe trabalhava, eu aproveitava que a dona da bicicleta estava na escola e ficava treinando em sua bicicleta de rodinhas. Havia outra senhora para quem ela trabalhava que era dona de uma chácara e, vez por outra, eu tinha a oportunidade de passar o dia em meio à natureza, colhendo frutas maduras do pé, brincando livremente (e sozinha) naquela imensidão de sítio que me deixava inebriada de tanta felicidade. Afinal, morávamos em uma casinha de dois cômodos e eu ficava imensamente feliz quando estava em lugares espaçosos como aquele. O que eu mais gostava nesses passeios é que a dona da casa sempre me presenteava com algumas roupas ou brinquedos usados de suas filhas, as quais, infelizmente, nunca cheguei a conhecer, mas que de certa forma contribuíram para tornar minha infância muito mais feliz. Lembro de uma boneca imensa que ganhei num certo Natal… A imagem daquela senhora elegante descendo do carro com o brinquedo nas mãos ainda é tão viva que todas as vezes que vejo uma boneca grande, imediatamente lembro daquela cena…

Essa senhora, cujo nome era Zuleide, também era dona de uma pizzaria e, vez por outra, minha mãe trabalhava na cozinha do restaurante, lavando os pratos. Dessas noites de trabalho, sempre resultavam generosas fatias de pizza que ela ganhava depois do expediente e levava para o nosso café da manhã. Além dos pedaços de pizza, ela também levava algumas sobras de batata frita, o que eu mais gostava.

No entanto, esses momentos felizes ao lado de minha mãe duraram pouco. Quando eu estava com dez anos, ela foi embora sem dizer o motivo de sua partida e deixou uma lacuna impreenchível em meu coração. Um vazio que nada nem ninguém poderá suprir. Sua viagem repentina ainda é motivo de questionamentos e, mesmo passados vinte e dois anos de sua partida, ainda sinto a sua presença como se houvéssemos nos separado há poucas horas. Não saberia explicar como isso é possível, tendo em vista que durante todo esse tempo eu jamais tive qualquer contato com ela. Lembro do som da sua voz, um pouco estridente como a minha, dos gestos ligeiros de mulher forte e trabalhadora, das suas gargalhadas e da sua alegria espontânea, características que eu também devo ter herdado, pois sempre me dizem que sou uma pessoa muito alegre, espontânea.

De sua partida, não me lembro de quase nada. De repente, eu estava morando com uma família desconhecida e longe das pessoas que mais amava – minha mãe e minha irmã mais nova, que na época estava com cinco anos. Foram dias de angústia e solidão… Não sei quantos meses passei com essa família, pois, no final daquele ano, a família do meu pai me levou para morar com eles. Depois disso, tudo mudou, e voltei a ter uma infância normal, por assim dizer. Fui matriculada na escola novamente, passei a fazer alguns tratamentos de saúde, ganhei roupas… A adaptação não foi tão rápida, mas eu parecia ter consciência de que aquilo era o melhor para mim naquele momento.

No ano seguinte, vivenciei a alegria de reencontrar minha irmã, que passou a morar conosco. Aquele foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes da minha infância. As noites de tristeza haviam chegado ao fim. Uma irmã mais velha disse que eu chorava quase todas as noites com saudade da pequena Laura, que fora entregue a um casal da família de nossa mãe quando esta decidiu ir para São Paulo.

Quando ela voltou, eu já estava decidida. Continuaria morando com a família de meu pai, que certamente poderia me oferecer uma vida mais digna e segura em todos os aspectos. Foi uma decisão difícil, mas certamente a mais sensata diante daquele contexto de sofrimento e de incertezas.

Não tenho mágoas de tudo que aconteceu, pois suponho que ela não tenha feito isso por maldade. Quem sabe não foi embora pensando em trabalhar e nos oferecer uma vida melhor? O vício é que talvez tenha estragado tudo. Dela, eu guardo as melhores lembranças: seu sorriso, sua alegria, as comidas que preparava com tanto carinho…

Tenho pensado bastante em nosso reencontro e talvez eu já esteja preparada para uma conversa, um abraço e, quem sabe, uma explicação para o abandono de duas crianças nas mãos de pessoas estranhas… Outro dia, sonhei com esse reencontro, e foi um momento de alegria e paz, o que sinceramente espero sentir no dia em que puder rever minha querida mãe.

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Andreia Braz

Comentários

15 comments

  1. RITA VIEIRA - jornalista 2 fevereiro, 2018 at 11:09

    Querida Andreia, sou jornalista aqui no Rio, mas minha origem é potyguar.
    Li seu artigo lindo, ungido, sincero, sem perder a poética. Li-o ouvindo Urbano Medeiros o maior músico da atualidade no mundo.
    Chorei.
    Entre aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ZL6bcrf7b9o
    Divulgue.
    Beijão, minha filha.
    Sou uma velha e minhas portas estão escancaradas pra vc aqui na cidade maravilhosa.

  2. Taperoá 2 fevereiro, 2018 at 14:40

    parabéns, minha menina com seu testemunho que me fez ir às lágrimas –
    beijão fraternal –
    Taperoá

  3. Maria tereza 2 fevereiro, 2018 at 22:22

    Síntese de uma saudade extremada, de uma vontade inacabada, mas tudo cheio de amor filial. Me emocionou muito. Desejo que um dia haha esse reencontro. Você tem um coração puríssimo, continue assim e a vida te abrirá portas. MT

  4. Rogério Alves 2 fevereiro, 2018 at 22:54

    Texto divino, conseguiu me tocar profundamente. Cada palavra, elegantemente empregada, emana vida e amor que teu coração conservou. Um belo convite a todos para vivenciarem uma explosão de sentimentos.

  5. Cláudio Everton 3 fevereiro, 2018 at 09:30

    …Se não houvesse saudade, solidão nem despedida… (CM). Feliz reencontro físico!!! O narrativo foi um prazer.

  6. Eliana Araújo 3 fevereiro, 2018 at 23:50

    Parabéns querida! Quanta beleza, pureza e saudade você descreveu. Lindo, pugente, triste sem pieguices. Que Deus te dê a felicidade de encontrá-la para aconchegar-se em um abraço e finalmente fechar seus braços que estão abertos há tanto tempo. Passei a te admirar muito mais. Bj

  7. Ka 4 fevereiro, 2018 at 00:30

    Muito me toca esse texto. Partilhou um pouca dessa sua história de forma tão precisa e repleta de sentimento. Espero que esse reencontro aconteça… que a felicidade seja sempre a tônica da sua vida, querida amiga.

  8. Maria de Fátima Soares 4 fevereiro, 2018 at 09:02

    Sem palavras, só emoção, lágrimas, da “manteiga derretida’, como minha mãe me chamava.

  9. Denise Araujo Correia 4 fevereiro, 2018 at 13:06

    Andreia, quantos afeto e delicadeza em tão poucas linhas… Esse amor conduzirá você pelo resto da vida, certamente, e que bom que sua natureza nobre só angariou o que de mais puro e motivador esse sentimento pode nos trazer. Sou sua fã, e não só como escritora.

  10. João Neto 5 fevereiro, 2018 at 14:16

    Minha estimada Andreia,
    Sua mãe vive, sorrindo para você, ai dentro desse coração que, ainda menina, ainda brinca nos vastos espaços daquela infância de verdes e sabores, hoje sublimados em belas palavras .
    Você emocionou este seu velho professor de literatura, ao ler um texto que exala coisas bonitas do coração .
    Como e por que não chorar ?
    Com meu maior carinho!

  11. moreira junior 11 fevereiro, 2018 at 13:28

    historia emocionante…olha, sou testemunha destas verdades!!!..Acho que Deus quando coloca este destino na vida das pessoas, as escolhe!Sim porque a maioria não teria um êxito profissional e uma alegria de dizer que sente falta deste encontro..conclusão: Andreia acho que Deus escolheu você mesmo para este cenário, e tenho certeza de que, fora a melhor das protagonistas ….A minha admiração por você, a cada dia se expande, no universo de Einstein ou na pureza de Madre Tereza..Porque te conheço muito bem, e sei que, ainda precisa mostrar a todos nós a imensurável e notável experiência de ter vivido uma existência tão linda!!!

  12. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 17 fevereiro, 2018 at 20:47

    Querida amiga,
    Minha admiração por você, só cresce à medida em que a conheço mais. O mundo seria bem melhor se todos fossem iguais à você: misericordiosa, otimista e forte. Parabéns pelo belo exemplo.

  13. Lina Bel Sena 23 fevereiro, 2018 at 07:27

    Somente alguém muito sensível para alcançar com inteligencia textual esta força inspiradora. Sempre serei sua fã.

  14. Socorro 10 março, 2018 at 00:23

    Querida Andréia, fiquei comovida com seu texto tão sincero sobre sua história de vida tão simples, tão cheia de encantos e tristezas. Mas, diante de tantas dificuldades , nasceu uma verdadeira heroína, uma pessoa sensível e dedicada a literatura.Que bom que você perdoa sua mãe, como diz o Dalai Lama ” Existe sempre algo por trás de um comportamento” por isso temos que ter compaixão .Beijo

  15. Verônica Campos 11 março, 2018 at 21:13

    Amiga, que crônica banhada de poesia. Uma das coisas que mais me fascina na literatura é como podemos narrar nossas vidas de modo diferente; essas experiências que talvez poderiam ter sido narradas com muito tom de lamentação ou tristeza, foram ressignificadas no fazer literário e ganharam uma forma mais leve, bela, amparada em compreensão e sabedoria. Texto muito fluente e gostoso de se ler, do início ao fim!

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