Lendo o livro do mundo com Zygmunt Bauman

11 de julho de 2010 às 11:20 - Comentar
Por Nelson Patriota

“Os homens lutam e perdem a batalha, e as coisas que eles lutaram para acontecer, apesar da derrota, transformam-se para não ter o mesmo significado que antes, e outros homens têm de lutar por aquilo que agora se entende por outro nome”. É com essa citação de William Morris (apud A dream of John Ball), que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve o oásis da esperança em que o homem contemporâneo se refugia, sempre que possível, a fim de contemplar (suponhamos), os escombros dos sonhos que deixaram para trás, como herança para os seus sucessores. Bauman, vale lembrar, é mundialmente conhecido por livros como “Mundo líquido”, “O amor líquido”, “A modernidade líquida”, que introduzem novas ideias na sociologia.

A citação de Morris, que integra a entrevista com Bauman publicada na revista Cult 138, escancara, por assim dizer, o estado da arte da utopia dos dias que correm, quando deparamos com questões que nunca são respondidas, porque um sortilégio oculto da linguagem as transforma em outras perguntas, que pouco ou nada guardam do conteúdo das anteriores, e estas não tardam a absorver a nossa atenção, esquecidos das suas antecessoras.

É particularmente preocupante que os sonhos cumpram o mesmo destino comum reservado às perguntas banais, cuja formulação dispensa uma resposta porque em geral se extinguem no próprio instante em que são formuladas. Ante a paisagem de terra arrasada que produzem, resta ao homem da pós-modernidade um último artifício: reformular o sonho, dando-lhe um novo nome, na impossibilidade de lhe dar um novo conteúdo. Quando esses sonhos se mostram capazes de contagiar outros seres humanos, são rebatizados de utopias.

Embora pessimista com o cenário da pós-modernidade, Bauman, como diligente discípulo de Morris, entrevê brechas na paisagem cerrada do mundo da vida. Entre a metáfora do caçador – para quem o mundo repousa sob um sistema divino, portanto, legítimo –, e a metáfora do jardineiro (“o jardineiro sabe que a ordem no mundo depende da constante atenção e esforço de cada um”), Bauman opta pelo segundo.

Mas de que meios dispõe o jardineiro do sociólogo polonês para remodelar o mármore partido da utopia, se essa própria palavra se fragmentou em milhões de fragmentos irrecuperáveis e dispersos no sítio de busca Google, ou, num processo inverso, se funde, num verbete do Thesaurus (do dicionário Roget) em um misto de “fantasia” e “irracional”, testemunhando, assim, conforme o próprio pensador, “talvez o fim da utopia”?

É que, no fundo, Bauman desconfia, na sua leitura panorâmica do livro do mundo, que há jardineiros de menos, enquanto os caçadores não cessam de se multiplicar em todas as latitudes. E os caçadores, já sabemos, não cuidam senão do jogo lúdico de perseguir a presa e, por extensão, outros caçadores, lobos que são uns dos outros…

Declara Bauman: “a maioria dos caçadores não considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta na floresta para outros, que haja reposição do que foi tirado [...]. Pode ocorrer aos caçadores que um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas reservas, mas isso não é sua preocupação imediata. Isso não é uma perspectiva sobre a qual um único caçador ou uma ‘associação de caçadores’ se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer qualquer coisa”.

A tarefa dos jardineiros é, assim, inversamente proporcional à sua demografia: quantos menos são, maiores são os fardos que pesam sobre seus ombros. Por exemplo, cuidar do futuro do planeta.

No fundo, a mensagem do epígono de William Morris é de que chegou a hora de inverter a equação demográfica que subtrai jardineiros e faz proliferar caçadores. Um mundo mais equilibrado entre essas duas categorias humanas poderia, quiçá, assegurar a oferta de florestas para outras gerações de caçadores e jardineiros, garantindo, assim – por um artifício de metáfora –, que a escritura do livro do mundo não cesse, por falta de matéria-prima, na virada da próxima geração. Tudo isso, independentemente do aceno das utopias.

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    NAN GOLDIN
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”