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Leveza da pena

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No lugar onde cresci, no deserto da Chapada, havia um momento, logo depois do almoço, onde eu me encontrava sozinho dentro de um imenso vazio. Este período do dia que se intensificava com o crepúsculo, é para onde eu vou quase sempre quando tudo ao meu redor volta a ser como antes.

As ausências me fazem retornar àquela velha solidão granítica e quase sempre eu sofro de ausências. Algo que provavelmente trago desse tempo em que eu não era mais que outro animal esquálido e vazio daquele bioma.

Há uma solidão natural no homem, uma necessidade de distâncias, de introspecção, mas nos animais isto se torna necessário e por isso, frequente. É como não saber o que esperar quando se está esperando.

A cor da terra ainda sangra meus pés. O silêncio onírico que explodia com as varejeiras ou se aquebrantava com os pequenos rastejantes segue físico em meus dias; sigo a mesma sonolência. Os edifícios até assombram meus olhos de hoje, mas não têm alturas suficientes para encobrir o velho deserto da alma.

A vastidão preenche-me os horizontes e a terra torna-se restrita pelo próprio infinito. Tão longe é tudo que a melhor escolha é ficar para ver-se permanecendo. Nada se move, não há nuvens, não há esperança. Tudo é apenas leveza da pena no espaço.

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