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Lições de ano-novo

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs…
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá!
Gonzaguinha

Na crônica da semana passada falei do réveillon na praia de Búzios e de como foi a rotina dos três dias em que fiquei por lá, desfrutando de momentos agradáveis ao lado da minha amiga Ceiça Fraga e dos novos amigos que conheci no flat. E por falar em novos amigos, esta crônica será dedicada a uma delas: Giovana, uma moça simpática de 14 anos que ganhou minha afeição nos primeiros instantes de conversa. Aliás, nos conhecemos de uma forma bastante inusitada (talvez porque eu tenha resolvido puxar assunto com ela). Explico.

Após a passagem do ano-novo, com direito a um jantar delicioso preparado com muito carinho por Leônia, uma das amigas de Ceiça, estávamos na área comum do prédio, quando de repente chegou Giovana e abraçou cada de um nós com votos de feliz ano-novo. Mas aquele não foi um gesto mecânico; tampouco suas palavras soaram artificiais, como é bastante comum nessas ocasiões, o que por vezes me incomoda. No meu caso, especialmente, ela parece ter me desejado exatamente aquilo que eu estava precisando escutar, como se soubesse os anseios do meu coração. Entre outras coisas, ela disse que meus desejos seriam realizados no tempo certo, que eu deveria confiar no tempo de Deus. Ao receber aquele abraço tão caloroso e escutar palavras tão reconfortadoras de alguém que eu não conhecia, senti meu coração cheio de afeto e esperança; foi como se algo novo realmente estivesse por acontecer. Senti, de fato, que um novo ano estava nascendo e com ele muitas descobertas e oportunidades…

Após os cumprimentos, Giovana acabou juntando-se ao nosso grupo e ficou conosco até o momento de nos recolhermos. Quando começamos a conversar descobri que ela é sobrinha de Catarina, uma moça bastante simpática com quem eu havia conversado mais cedo, durante o banho de piscina, onde ela estava com o esposo e os dois filhos. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que Giovana é vaqueira, e ficamos todos muito admirados com o fato de ela ter apenas 14 anos e correr em vaquejada.

Como a maioria dos adolescentes, ela não larga o celular, e durante a conversa nos mostrou diversas fotos da fazenda onde mora, em Santa Cruz do Capibaribe (PE). Aliás, fotografia é uma de suas paixões; mostrou-nos imagens belíssimas de paisagens diversas (especialmente pores do sol, sua fixação), da rotina de treinos na fazenda, entre outras. Até sugeri que ela deveria se inscrever nesses concursos de fotografia da internet, em virtude da qualidade de suas imagens. Mostrou-nos ainda alguns vídeos das vaquejadas de que participou, algumas delas ficando em primeiro lugar. Tudo isso sob o olhar atento da mãe, que sempre falava com muito orgulho da filha vaqueira e, vez por outra, nos contava algumas coisas interessantes sobre o universo da vaquejada/vida no campo, do qual eu não conhecia quase nada até aquele momento.

Fiquei encantada com a forma como Giovana falou de seu cavalo, Black Bingo, um quarto-de-milha que ganhou do pai, que também é vaqueiro. Ela está com esse cavalo há um ano; antes, tinha uma égua, mas o animal não estava mais conseguindo acompanhar suas habilidades, por isso teve de trocá-lo por Bingo. Sua mãe contou que naquele dia Giovana havia chorado com saudade do animal e por isso queria antecipar a volta para casa. Detalhe: um passeio a Natal ainda estava incluído no roteiro da família. Convencida de que estava tudo bem com Bingo, Giovana desistiu da ideia. Mas o que ela queria mesmo era voltar para a fazenda para ficar pertinho dele, que completou oito anos recentemente. Aliás, o animal ganhou até festa de aniversário, com direito a bolo e refrigerante. Toda orgulhosa, Giovana nos mostrou a foto da comemoração e declarou: “esse cavalo é minha vida”.

Mas as coisas não aconteceram do dia para a noite na vida de Giovana, simplesmente por ela ter um pai vaqueiro. Primeiro, teve de convencer o pai, aos onze anos, de que seria vaqueira. Após assistir a uma corrida, chegou em casa decidida e disse-lhe: “Painho, quero aprender a correr boi. O senhor corre, e eu quero também”. Depois, foi a vez de provar para os amigos e familiares que conseguiria tornar-se uma vaqueira respeitada. Ela disse que uma das razões que a fizeram seguir em frente foi justamente o fato de algumas pessoas não acreditarem que seria possível tornar-se uma vaqueira de renome. “Essa menina nunca vai derrubar um boi”. Essa foi uma das frases que ela disse ter escutado diversas vezes depois que decidiu se tornar vaqueira.

Ela diz que recebe muitas mensagens (Instagram, Facebook) de pessoas que passaram a confiar mais em si mesmas depois de conhecerem sua história. Apesar da pouca idade, é incrível a confiança e a força que transmite, especialmente através do seu olhar firme e do seu sorriso cativante. “Eu fico muito feliz por saber que sirvo de inspiração para muitas pessoas”, declara Giovana, que sonha tornar-se médica veterinária. Talvez ela saiba que “o futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos” (Eleanor Roosevelt).

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Andreia Braz

Comentários

1 comment

  1. Verônica Campos 11 março, 2018 at 21:20

    Uma daquelas histórias raras que encontramos em nosso cotidiano e nos faz ver que a vida é mais rara do que supomos. Maravilhoso texto, amiga!

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