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Lições de domingo

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Ferreira Gullar

Estava na casa de um amigo, tomando uma cerveja e saboreando um delicioso caldo de peixe, quando de repente ele diz que precisa dar uma saída para entregar uma encomenda e me convida a acompanhá-lo. Somente no caminho é que fiquei sabendo o motivo daquela saída repentina: ele precisava entregar um dinheiro a um amigo com certa urgência. O que seria uma visita rápida, na verdade, acabou se transformando num agradável bate-papo sobre literatura e música. E quase duas horas se passaram sem que nos déssemos conta. Enquanto isso, nossa cerveja congelava e o caldo esfriava.

Meu amigo já havia me falado da situação de José algumas semanas antes, ele está enfrentando um câncer de pulmão e passou por uma cirurgia. Fomos recebidos com muito entusiasmo e, apesar da fragilidade ocasionada pela doença, José aparentava estar bem, tranquilo. Uma serenidade que me trouxe paz e, sobretudo, a certeza de que devemos encarar nossos problemas com determinação e fé. Vestido com um moletom preto e uma blusa de mangas compridas amarela, ele parecia bastante confortável com sua indumentária e feliz por estar recebendo amigos em casa.

De início, fiquei observando o ambiente e algo me chamou a atenção: uma sequência de três quadros protegidos por uma imagem que não consegui identificar a distância. “São meus orixás”, disse José. Ao lado dessas pinturas, havia um outro quadro em cerâmica do artista pernambucano Francisco Brenannd. Não sei dizer exatamente por quê, mas tive a sensação de que sempre estivera ali, tamanha a familiaridade que senti com o lugar; talvez os livros possam explicar tal afinidade.

A família de José vive em Salvador, e ele está enfrentando a doença com o apoio dos amigos de Natal, onde vive há mais de duas décadas. “Você acredita que eu vim parar aqui em busca de um amor de carnaval?”, disse em tom nostálgico e com um leve sorriso nos lábios. O relacionamento durou quatro anos.

José disse que havia dado uma pausa na quimioterapia em virtude dos seus efeitos colaterais, mas que deve retomar o tratamento em breve. No dia seguinte, faria alguns exames de sangue que seriam apresentados na próxima consulta com o seu oncologista. Estava otimista porque o tumor havia regredido consideravelmente.

O que me mais me deixou impressionada foi o fato de não tê-lo visto reclamar de sua condição em nenhum momento de nossa conversa. Pelo contrário, mostrava-se agradecido por ter condições de realizar atividades simples como fazer a própria comida, por exemplo, ou ir ao mercado comprar frutas. Falou da alegria de poder caminhar, sentir o sol da manhã e, principalmente, de poder conversar com os amigos do bairro quando precisa sair para comprar alguns alimentos no mercado, que fica a poucos metros de sua casa. Naquele dia havia saído para comprar frutas, verduras e seu suco de uva predileto, o qual partilhou conosco. Antes, dera uma pausa na conversa para saborear uma sopa, feita por ele mesmo.

Entre um assunto e outro, a literatura foi a pauta central da nossa conversa. Recitamos Augusto dos Anjos, Ferreira Gullar, Vinicius de Moraes. Ainda falamos da poesia de Camões, Gregório de Matos, Mario Quintana, Manuel Bandeira, Thiago de Mello. “Drummond foi meu professor de poesia”, disse José quando falávamos dos nossos autores prediletos. Depois disso, recitou um poema de sua autoria, de influência barroca, com um entusiasmo que me trouxe alento e esperança.

Aquela conversa com José me fez lembrar as palavras de Drauzio Varela, que dedicou boa parte de sua carreira a cuidar de pacientes com Aids e câncer, experiência que resultou no livro Por um fio (Companhia das Letras, 2004), uma obra que poderia ser classificada como um verdadeiro tratado sobre a morte, à altura do que escreveu Sêneca nas cartas para Lucílio, dispostas no livro Edificar-se para a morte (Vozes, 2016). Em uma comovente e lúcida declaração sobre sua experiência com pacientes terminais, ele diz: “Custei a aceitar a constatação de que muitos de meus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes”. Nesse livro, Drauzio conta a história de pessoas que encaram a “indesejada das gentes” com revolta, mas também de “existências que se encerram com tranquilidade”.

Jamais esquecerei aquela noite de domingo. Das muitas lições que aprendi, quero levar comigo a gratidão, ensinada de forma tão singela por alguém que enfrenta um momento de incertezas, mas que sabe valorizar o que tem ao seu dispor, seja “uma manhã de sol entrando em casa”, uma conversa com os amigos, uma boa leitura… Afinal, “Tudo é alheio a nós, […], apenas o tempo é nosso”, como diz Sêneca.

Depois daquela noite fiquei com a impressão de que talvez a melhor forma de lidar com certos acontecimentos, seja mesmo enveredar pelo caminho do entendimento. Foi exatamente isso que fez um dos pacientes cuja história também faz parte do livro citado. Um ex-combatente da Guerra Civil Espanhola, octogenário, após ser curado de um câncer de laringe, e falando sobre a perda dos pais e de sua companheira, diz, serenamente, ao Dr. Drauzio: “A gente não encontra explicação para essas tragédias, mas com o tempo se conforma, na esperança de que ainda haverá de entender o verdadeiro significado delas”. “A ordem é seguir sempre em frente, mesmo sem saber aonde o caminho nos levará”, diz ele quando questionado sobre a dificuldade de enfrentar sozinho sua jornada, uma vez que não tinha filhos.

Voltando à conversa com José, ficamos de nos encontrar em breve para outro bate-papo literário. Torço ansiosamente para que sua próxima consulta seja alvissareira e que saia fortalecido para continuar lutando e enfrentando as dificuldades com equilíbrio.

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Andreia Braz

Comentários

3 comments

  1. Rosário de Oliveira 14 outubro, 2017 at 18:01

    Relato emocionante e uma grande lição para todos nós!! Saúde e força para o José!

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