Lições de otimismo

Andreia Braz
CrônicaMais

Júnior partiu cercado de afeto e cuidados; deixou alegria, otimismo e solidariedade como grandes lições.

 

Não se desespere não, nem pare de sonhar Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs.

Gonzaguinha

Um dia antes de morrer, ele assistiu ao jogo do Palmeiras (pelo celular) e vibrou com o único gol do verdão numa partida contra o Santos pelo Campeonato Paulista. A vitória do Palmeiras por 1 x 0 parece ter sido uma justa homenagem a um torcedor inveterado que deixaria o mundo no dia seguinte.

Aquele sábado foi relativamente tranquilo no Hospital São Luiz Gonzaga, um centro de cuidados paliativos, no Jaçanã, zona norte de São Paulo. Moreira Júnior, meu cunhado, passou seu último dia de vida sem maiores intercorrências, apesar da máscara de oxigênio e das inúmeras medicações administradas ao longo do dia, o que ele tirava de letra, diga-se de passagem. A doença foi diagnosticada três meses antes de sua morte.

Júnior estava sempre confiante em relação ao dia seguinte. Raramente reclamava da máscara de oxigênio ou do tratamento para fibrose pulmonar à base de corticoide e outras medicações que enfrentou com bravura durante as três internações por que passou desde que descobriu a doença.

Esse otimismo também era demonstrado nas mensagens enviadas diariamente pelas redes sociais. Vídeos e músicas faziam parte dessas doses diárias de motivação que ele fazia questão de enviar aos amigos e familiares, apesar de enfrentar uma situação adversa.

Nos falávamos todos os dias, e não era raro ser tomada pela emoção ao receber mensagens de otimismo e resiliência, sempre ensinando que, apesar de tudo, vale a pena continuar lutando.

Lembro, especialmente, de um vídeo em que uma mulher aparece respirando sem a ajuda de aparelhos depois de ser submetida a um transplante de pulmão. “Ele assistia a esse vídeo diversas vezes”, lembra a esposa.

Moreira Junior

Moreira Júnior (1957-2018) e a companheira Antônia Cristina; “Feliz Ano-novo, meu amor! Obrigado por ter sido a pessoa mais importante da minha vida. Fica com Deus”.

“Vou lutar até o fim”

Quantas vezes não chorei ao terminar de ler uma mensagem dele. E o que dizer dos áudios, sempre mostrando que era preciso enfrentar aquela situação? Ele dizia que há um propósito para tudo.

Em uma dessas mensagens, enviada na noite de Natal, ele disse: “Vou lutar até o fim”. Mesmo com dificuldade para falar, gravou dois áudios e até brincou no final do segundo: “Não consigo falar mais do que cinco minutos, mas como você é especial, consegui falar seis minutos e quatro segundos”. E ainda lembrou: “06 de abril é a data do meu aniversário”.

No último dia 31 de dezembro, teve uma crise de falta de ar e precisou passar algumas horas no hospital. Ao voltar para casa, decidiu que iria trabalhar como motorista da Uber no Réveillon da Avenida Paulista. E assim o fez, apesar da excessiva preocupação da esposa e de suas inúmeras recomendações. Enquanto ela estava na casa de uma amiga, Júnior transportava passageiros. No momento da queima de fogos, gravou um vídeo para a amada. Eis a mensagem dedicada a sua companheira: “Feliz Ano-novo, meu amor! Obrigado por ter sido a pessoa mais importante da minha vida. Fica com Deus”.

A única solução para o caso seria um transplante de pulmão, o que foi descartado pelos médicos, por diversas razões, entre elas sua idade (60 anos). Acreditando na cura, ele só desistiu da ideia do transplante quando os médicos disseram que não haveria chances de realizar tal procedimento.

Em uma de suas conversas com a equipe médica, disse: “Doutor, eu só preciso ganhar uns dez quilos para fazer esse transplante”. Não satisfeito com a resposta dos médicos, insistiu: “Sou um homem saudável. O único problema que eu tenho é nos pulmões”. E foi assim que enxergou a vida, até o fim, com otimismo e esperança.

Andreia_Lição de otimismo 6Comemoração por pequenos feitos 

Voltando ao sábado no hospital de Jaçanã. Júnior teve uma crise de falta de ar durante o dia, algo recorrente nos últimos tempos, a qual foi logo controlada com uma dose de morfina de resgate, dose extra da medicação utilizada nesse tipo de emergência. Passado o susto, um de seus irmãos (Jadyr) decidiu barbeá-lo, momento que foi registrado em vídeo. A filmagem tinha outro propósito: observar o tempo que ele conseguia ficar sem oxigênio, que era pouquíssimo. Como seus pulmões estavam muito comprometidos, ele precisava de uma quantidade cada vez mais alta de oxigênio. Caso conseguisse diminuir a quantidade de oxigênio, poderia voltar para casa.

Cada vez que ficava alguns minutos sem a máscara de oxigênio era motivo de comemoração. E foi isso que aconteceu no dia em que conseguiu usar o fio dental (momento também registrado em vídeo). Tal qual uma criança que consegue dar os primeiros passos sozinha, Júnior comemorava cada pequeno feito sem o uso da máscara, por menor que fosse o tempo utilizado para isso.

Naquele dia, o hospital de cuidados paliativos parecia pequeno para tantas visitas. Talvez seu apartamento fosse um dos mais movimentados da ala onde ficou apenas quatro dias, depois de ser transferido do INCOR, onde esteve internado por quase um mês. Além da esposa, presença constante no quarto, recebeu a visita de seus quatro irmãos, da filha e de alguns amigos.

Há três meses, Júnior foi diagnosticado com fibrose pulmonar e, desde então, entre cilindros e máscaras de oxigênio, exames e internações, passou a enfrentar uma rotina diferente à que estava habituado. Antes da doença, o dia começava cedo, à base de torrada e café com leite e, geralmente, terminava bem tarde.

Andreia_Lição de otimismo.5Doença rara e difícil de ser diagnosticada

Lembro de aconselhá-lo algumas vezes a almoçar mais cedo, o que costumava fazer às 15h, 16h. Ele adorava carnes e, vez por outra, tomava uma cerveja no almoço. Depois, descansava alguns minutos e saía para trabalhar.

Antes de adoecer, ele trabalhava como motorista da Uber, serviço com o qual se identificava muito porque sempre gostou de trabalhar com pessoas. Há mais de duas décadas, foi sócio de uma farmácia de medicamentos naturais e por muitos anos sua rotina foi lidar com clientes.

Depois disso, trabalhou como representante de vendas de diversos produtos. Com sorriso contagiante e jeito único de persuadir, não era difícil vender qualquer produto. E assim o fez com rastreadores de veículos, vinhos etc.

Voltando ao problema de saúde. De acordo com o site da Fundação Portuguesa do Pulmão, “A fibrose pulmonar é uma doença rara, em que ocorre cicatrização do tecido pulmonar, com espessamento e rigidez”. Difícil de ser diagnosticada, os sintomas podem não aparecer na fase inicial.

No entanto, à medida que a fibrose evolui, fica evidente uma falta de ar (dispneia), desencadeada pela atividade física, como andar, por exemplo. Quando progride, essa falta de ar se manifesta em tarefas simples, como falar, tomar banho, vestir-se. A perda significativa de peso é outro sintoma da doença.

Andreia_Lição de otimismo 7O Sol há de brilhar mais uma vez

Há exatamente um ano, estive em São Paulo. Uma das primeiras mudanças que notei em Júnior foi a perda de peso, o que me preocupou. Lembro de ter conversado com minha irmã e reforçado a importância de procurar um médico.

Suspeitei que pudesse ser algum problema relacionado ao estômago; ele tinha refluxo e dizia ter tratado uma úlcera no estômago há alguns anos. Jamais imaginei que pudesse ser algo relacionado aos pulmões, embora ele relatasse as diversas pneumonias por que passara ao longo dos anos.

Apesar da gravidade da doença, jamais se queixava do estado de saúde ou culpava alguém pelo que enfrentava. “O amor é mais importante que a saúde”, disse, emocionado, em uma mensagem de voz enviada na noite de Natal, agradecendo pela dedicação da esposa e dos familiares. A propósito, após alguns anos afastado, reconciliou-se com três irmãos, poucos meses antes de morrer.

Dias antes da morte, Júnior enviou esta mensagem aos amigos e familiares, via WhatsApp: “É no meu coração que vai residir o amor incondicional que sempre recebi e vou levar para toda a eternidade”. O texto veio acompanhado de uma foto em que aparece ao lado dos quatro irmãos no hospital.

Apesar da constante sensação de impotência e desamparo desde a notícia de sua morte, o que me conforta, de algum modo, é saber que Júnior partiu cercado de afeto e cuidados e pôde se despedir dos que estavam próximos; amigos e familiares que lhe dedicaram amor e atenção em seus últimos meses de vida.

Sua alegria, otimismo e solidariedade são as grandes lições que você deixou, meu amigo, e é justamente isso que deve permanecer em nossos corações. Afinal, “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações”, como diz a música de Nelson Cavaquinho.

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Andreia Braz

Comentários

1 comment

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 9 abril, 2018 at 15:55

    Como sempre, muito emocionada após mais este relato tão amoroso! Andreia Braz, cronista da vida como ela é: linda e cheia de percalços. Obrigada por mais esta lição sobre o bem viver. Otimista, você leva o leitor a ter esperança no futuro, força nas adversidades e amor no coração. Parabéns!

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