Lições de um vencedor

Andreia Braz
CrônicaMais

O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos.

Eleanor Rooselvet 

Lições de um vencedor_Andreia_Walter Pilão

Walter Pilão foi de balconista a diretor-geral de uma multinacional; Paralelo à carreira como executivo, foi professor universitário; ele é formado em Administração de Empresas, tem Especialização em Administração da Produção e Mestrado em Logística.

Quando a família de Walter Pilão mudou-se para São Paulo, na década de 1960, seus dois irmãos viajaram escondidos embaixo do banco do trem de segunda classe.

Os pais não tinham dinheiro para comprar o bilhete de todos os filhos e essa foi a única solução encontrada para tentar construir uma nova vida na capital.

Grávida do quarto filho, a mãe de Pilão acreditava que poderia oferecer uma vida melhor aos filhos longe de Ubirajara, interior de São Paulo, com novas oportunidades na cidade grande.

Aos oito anos de idade, ele tomou uma decisão que mudaria sua vida para sempre. Começou a catar papelão e a vender ferro velho com o intuito de comprar uma caixa de engraxate.

“Eu precisava fazer alguma coisa para ajudar minha família”, diz, emocionado, enquanto tomamos um café na cozinha de seu apartamento em Sorocaba.

Nos conhecemos há dois dias, por ocasião do falecimento de um parente comum, mas o fascínio por sua narrativa me deu a impressão de que era um velho amigo, tamanha a empatia com sua trajetória e modo corajoso de encarar a vida.

Esse depoimento sobre sua primeira experiência de trabalho me fez lembrar Zezé, protagonista do livro “O Meu Pé de Laranja Lima”, romance autobiográfico de José Mauro de Vasconcelos escrito na década de 1960, traduzido para vários idiomas, que continua emocionando leitores de todas as idades.

Aliás, estive em uma livraria de Sorocaba e descobri que todos as obras de Zé Mauro estavam esgotadas. Gostaria de presentear meu amigo Walter Pilão com “a história de um meninozinho que um dia descobriu a dor”. Uma história que parece um pouco com a sua. Prometi comprar o livro em Natal e enviá-lo.

Meu-Pe-de-Laranja-Lima-Capa-com-marcador

Livro de José Mauro de Vasconcelos continua emocionando leitores.

O meu pé de laranja lima

Quando Pilão começou a narrar a experiência do primeiro trabalho e as dificuldades enfrentadas pela família naquele momento, lembrei da história do menino solitário e incompreendido que conversava com o pé de laranja lima, seu melhor amigo, a quem ele chamava carinhosamente de Minguinho.

É verdade que ele tinha um outro grande amigo também, o portuga Manuel Valadares, que o levava para passear de carro de vez em quando e com quem partilhava deliciosos banhos de rio.

Em um certo Natal, cansado de não ganhar presentes, Zezé se queixa ao irmão Totoca: “É uma desgraça ter pai pobre”. A reclamação tinha uma razão de ser: disseram-lhe que Papai Noel deixaria um presente embaixo de sua rede.

No entanto, ao acordar, o menino depara somente com uma poça de mijo embaixo da rede. O pai escuta a conversa entre os dois filhos e não consegue esconder a tristeza com a declaração do menino endiabrado, como Zezé era conhecido na vizinhança.

Com o coração dilacerado, Zezé sai às ruas com uma caixinha de engraxate, a fim de conseguir dinheiro e comprar um presente de Natal para o pai. Ao final do dia, chega em casa com uma carteira de cigarros.

parafusoDe balconista a diretor-geral

Voltemos à história de Walter Pilão e seu ingresso precoce no mercado de trabalho.

Depois de algum tempo, foi procurar emprego em uma farmácia porque o dinheiro que ganhava como engraxate não era suficiente para ajudar sua família.

Apresentou-se no balcão de uma farmácia e perguntou se estavam precisando de um empregado. Ao admiti-lo, o senhor Rodrigues tratou de providenciar um banquinho para o mais novo funcionário, que limparia vidros, arrumaria prateleiras e, vez por outra, atenderia clientes.

Dos oito aos doze anos, Pilão trabalhou na farmácia, onde aprendeu, entre outras coisas, a aplicar injeção e manipular pomadas. Após a experiência, teve a carteira de trabalho assinada como menor trabalhador (o documento era conhecido na época como Carteira do Menor).

Dos 12 aos 14 anos, trabalhou em outra farmácia. Depois, empregou-se num comércio de parafusos e ferragens, onde trabalhou até os 18 anos. A firma decretou falência após a morte acidental de um dos proprietários (caiu do telhado da loja ao tentar consertar uma goteira).

Algo que me impressionou bastante em nossa conversa foi sua trajetória como executivo da empresa Air Liquid Brasil Ltda, onde trabalhou por 41 anos, até se aposentar, em 2013, como diretor comercial.

De balconista, chegou a diretor-geral da empresa, função que lhe proporcionou inúmeras viagens pelo Brasil e pelo exterior. Depois de se aposentar, ainda continuou trabalhando como professor até 2016. “Contribuí com o INSS durante 50 anos”, diz, orgulhoso.

Paralelo à carreira como executivo, Pilão foi professor universitário na área de gestão. Ele é formado em Administração de Empresas, tem Especialização em Administração da Produção e Mestrado em Logística.

Sorocaba

Localizada a menos de 100km da capital paulista, Sorocaba é o polo de uma região metropolitana com mais de 2 milhões de habitantes (a quarta maior do Estado) espalhados por 27 municípios.

Patrono e paraninfo

Além dos conhecimentos teóricos que transmitia, o mestre incentivava os alunos a continuar lutando pelos seus sonhos. “É possível desde que você queira. Seja obstinado e lute pelo que você quer”, era uma das frases que costumava dizer aos seus pupilos.

Lição que conhecia muito bem e transmitia com a segurança de quem sabe o que diz. Vez por outra, contava sua história em sala de aula e lembrava o menino destemido que fora e o desejo precoce de mudar a condição de vida da família (um catador de lixo que se transformou em um executivo bem-sucedido).

Foi patrono e paraninfo de diversas turmas, recebendo homenagens pela dedicação como professor.

O conhecimento de Pilão, no entanto, foi além dos bancos universitários. Ele fala três idiomas (inglês, espanhol e francês). “Conheço praticamente toda a Europa e todos os países da América do Sul”, diz orgulhoso e agradecido por tudo que o cargo como executivo da empresa citada lhe proporcionou ao longo de quatro décadas.

Além do próprio esforço para alcançar objetivos profissionais, Pilão reconhece o apoio incondicional da esposa Jussara, com que está casado há 45 anos. Ela também é professora universitária aposentada. Formada em Pedagogia, tem mestrado e doutorado em Psicologia da Educação.

Aposentado há cinco anos, Pilão tem um padrão de vida almejado por muitos. Mas o conforto que hoje desfruta junto à esposa é fruto de muito trabalho e planejamento.

“Nunca vivemos o presente”, diz, enquanto saboreia uma xícara de café e um pão francês com bastante manteiga. Lembra a época em que trabalhava 18 horas por dia (durante o dia na empresa, como executivo; e à noite na faculdade, como professor).

SaudeNovo desafio

Essa foi sua rotina durante vinte anos. “E houve um tempo em que ele trabalhava em duas cidades”, lembra Jussara. A preocupação com a velhice sempre foi uma das questões discutidas com a esposa, com quem planejou a vida quando parassem de trabalhar.

Mas nem tudo foram flores, quando ambos se aposentaram e decidiram sair da agitação de São Paulo para viver no interior.

Um ano antes de se aposentar, Pilão enfrentou um grande desafio: uma delicada cirurgia para a retirada do intestino grosso. Atualmente, se prepara para outro procedimento cirúrgico.

Desejo que a nova cirurgia seja bem-sucedida e que ele possa desfrutar de muitos momentos felizes junto à família no tempo que lhe resta.

Muita saúde e paz é o que desejo ao meu novo amigo, com quem aprendi lições importantes no pouco tempo em que estivemos juntos.

Que o amor dos netos seja um alento para momentos difíceis e que o apoio da companheira e o amor dos filhos lhe proporcionem a confiança de que precisa para seguir em frente.

Sei que você é forte e vai superar mais esse desafio. Desejo que continue orgulhando filhos e netos, pois tudo o que construiu é fruto de trabalho e dedicação.

Sou grata por tê-lo conhecido, mesmo num contexto adverso, por ter me acolhido em sua casa como se eu fosse da família. Jamais esquecerei os momentos que passei com vocês e a forma carinhosa com que fui tratada.

Espero voltar em breve a Sorocaba para desfrutar de outros momentos agradáveis junto a sua família.

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Andreia Braz

Comentários

6 comments

  1. Maria José Cristino 24 maio, 2018 at 11:04

    Andreia, amei essa crônica! É uma ” injeção de ânimo” para muitos jovens que pensam não vão conseguir vencer, diante das dificuldades. É uma história de desafios e vitórias. Parabéns!

  2. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 24 maio, 2018 at 11:47

    Essa crônica precisa ir para a coletânea. Belíssima e inspiradora história. A sua comparação do menino Walter com Zezé de “O meu pé de laranja lima, é perfeita! Parabéns amiga! Gol de placa como sempre!

  3. Jania Souza 24 maio, 2018 at 23:51

    Parabéns, Andreia! Muito agradável seu estilo de apresentar o cenário central do contexto. Encanta a forma simples da comparação analógica e amplia o sentido da mensagem, além de embelezar esteticamente. Realmente, muito envolvente o texto.

  4. Andreia Braz
    Andreia Braz 25 maio, 2018 at 17:49

    Maria José, acho que vc tem toda razão quando diz que a história de Walter Pilão é uma “injeção de ânimo” para muitos jovens. A história dele é realmente inspiradora e nos faz acreditar que vale a pena continuar lutando, apesar das adversidades que surgem ao longo do caminho. Um abraço.

  5. Andreia Braz
    Andreia Braz 25 maio, 2018 at 17:53

    Jania querida, fico feliz por saber que gostou do texto e agradeço pela leitura generosa desta crônica, em especial, como também de publicações anteriores. Agradeço sua atenção e incentivo para seguir escrevendo. Foi muito gratificante escrever sobre a história de Walter Pilão, com quem aprendi tantas lições importantes em tão pouco tempo. Um abraço.

  6. Andreia Braz
    Andreia Braz 25 maio, 2018 at 18:05

    Ana Cláudia, fico imensamente feliz por saber que gostou da crônica. A história de Walter Pilão é realmente inspiradora e sou grata pelo privilégio de tê-lo conhecido. Certamente, ela estará no meu livro, que deve ser lançado ainda no segundo semestre. Quanto à comparação do menino Walter com o personagem de Zé Mauro, foi algo que surgiu espontaneamente, nos primeiros minutos de conversa. Obrigada por acompanhar minhas crônicas e por me fazer acreditar que vale a pena seguir escrevendo. Beijos.

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