Literatura contemporânea brasileira

7 de maio de 2010 às 8:11 - 3 Comentários

No Papo Furado, do poeta Jairo Lima:
www.kriterion.zlg.br/

De Felipe Pena:
Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura. Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação de sua vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado e pretensamente erudito, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.

*********

• O autor deste “conceito” não é chato, hermético ou besta. É simplesmente estúpido. Se os escritores o ouvissem teríamos uma porrada de paulos coelhos e nenhum Joyce, Niestzche, Montale ou Monteiro e, rigorosamente, NENHUM filósofo. Na alta literatura não há livro chato, mas leitor prequiçoso; não há livro hermético, mas leitor burro; não há livro metido a besta, mas leitor medíocre. Felipe Pena prefere acreditar que as uvas estão verdes a constatar que as raposas são fuleiras. Para um artista, ô Felipão, ganhar dinheiro é consequência, não escopo da obra. Êpa, falei “escopo”. Será que o hômi vai me achar hermético? Que pena, Felipe, falou, falou e só disse merda! Jairo Lima

3 Comentários

  1. Bárbara
    7 de maio de 2010

    Que intolerância, Sr. Jairo… Todos têm que ter o mesmo prazer, encantamento, compreensão ao ler um texto, seja de “alta” ou “baixa” literatura? Será que Felipe não é um leitor tão inteligente que não dá a mínima para as masturbações intelectuais desses escritores e filósofos, nos quais tantos buscam a verdade e a estética do mundo, esquecendo-se de si mesmos como grandes criadores e decifradores de enigmas? O prórpio Nietszche exortava o homem nesse sentido. E sua escrita é a linguagem da própria alma do homem simples e em grande sintonia com a sua própria existência. Acho que Felipe criticou a escrita racional e hermética; exterior e fria de uns bestões que se acham acima do comum, mas são incapazes de transcender a própria ignorância de ser.

  2. 7 de maio de 2010

    Jairo,

    sinto um parzer menso quando leio um poema, uma prosa, e dentro das figuras poéticas significâncias “herméticas”, quer dizer, quando no texto se encontram mileuma referências que só podiam ser notadas por quem mantém o espírito aberto e a sensibilidade formada em poesia.

    no seu texto, lembrei de uma vez, era diz das mães, e eu escrevi algo pra minha. ela disse algo como “que horror, menina, vc não sabe escrever! quem entende isso?”, é que ela gosta de versinhos sacais, do tipo “se amar é viver, vivo porque te amo”. pode ser o caso desse sujeito…

    um dos meus poetas preferidos é Manuel Bandeira. e um dia um poeta me disse que estava certo em tê-lo como guru poético: “ele é simples, pra iniciantes”. quanta asneira. são versos simples, no tocante aos sentimentos ali jorrados, comuns a todos nós. mas vá pegar um seu poema e escarafunchar, as palavras, as figuras e significâncias… é uma torrente de mitologia, medicina, arte poética e política, além da vida, é claro…

    por outro lado, o texto de Felipe me lembrou que também há os sujeitos que meus alunos chamam “fake”, quer dizer, falso. aqueles que fazem do dicionário o seu tabernáculo, apenas pra ostentar uma pseudo-erudição. não dizem nada com nada.

    ah, sim, gostei da sua página, mas não encontrei o campo dos comentários…

    um beijo.

  3. Donato Assis
    7 de maio de 2010

    “Dona” Bárbara:
    Não há intolerância alguma no comentário de Jairo Lima à merda (realmente) escrita por Felipe Pena.
    É Pena que Lima não tenha sido mais incisivo, ainda, na sua rejeição da bandeira (?) da simplificação rasteira proposta por Felipão “pão-pão-queijo-queijo”, com o intuito de nos oferecer só o cocô dos pauloscoelhos (para quem gosta, é um prato cheio). A senhora gosta, Dona Bárbara?
    Então, fique com a barbárie literária…

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OUTROS EVENTOS

POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar