Literatura infantil serve para quê?

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Livro Crítica, Teoria e Literatura Infantil, do inglês Peter Hunt, é uma rara oportunidade para entendermos melhor um território vasto, mas de escassa bibliografia; livros infantis são vistos como de segunda categoria, bobos e didáticos, feito para seres incompletos.

Literatura infantil.4Ontem (18) foi o Dia Nacional do Livro Infantil. Penso que é mais uma dessas datas para discutirmos a questão, escrevermos um artiguinho aqui, ali, do que para comemorarmos alguma coisa.

Primeiro por termos índices alarmantes sobre o hábito da leitura, desde a infância – a começar pelas raras livrarias de Natal; faça um teste: entre em algumas delas, vá à seção infantil, pergunte duas, três dicas para quem lhe atender e perceba o desconhecimento geral sobre o tema.

Se a moda otimista, do pensar positivo, vende a ideia de que tudo “Vai dar certo”, o que se projeta para a simbiose leitura-infância, no Brasil, no Rio Grande do Norte (?!), está tudo errado. E, pelo visto, continuará do mesmo jeito por muito tempo.

Nesta semana, após ler um comentário de Sheyla Azevedo, aqui mesmo no Substantivo Plural, sobre a cultura da violência vigente (esta, sim, promovida com eficácia escandinava), pensei na matança industrial observada todos os dias.

Como interromper a tragédia? Como estancar uma hemorragia social tão incomoda e apavorante?

Soa utópico e bonitinho demais de minha parte, mas acho que nos livros encontramos boa parte das respostas.

Infância prolongada auxilia intelecto

cute baby reading book on colorful background

Em Problemas de Psicologia Genética, Jean Piaget defende que uma infância duradoura é proporcional a superioridade da espécie.

Quanto mais prolongada, maior é o aprendizado – o inverso gera estagnação intelectual e, consequentemente, adultos menos inteligentes, segundo o suíço.

Ele destaca duas fases do desenvolvimento da criança: a primeira, seria psicológica, em que tudo é aprendido por conta própria, de acordo com a lei natural do desenvolvimento orgânico.

A segunda é psicossocial, absorvida do exterior, através da família, da escola, etc.

Estímulos parentais são responsáveis por grande parte do que somos. E uma situação recorrente é sobre o incentivo à leitura – cuja importância é negligenciada pela maioria.

Tempo e experiências determinarão o limite de cada um. Noções de substância, peso, texturas e volume obedecem a uma cronologia em comum.

É em meio a toda essa complexidade que se delineia um futuro adulto – ao mesmo tempo em que surge a mercantilização da infância. Com isso, o processo cognitivo sofre turbulência e, cada vez mais, o instantâneo, o efêmero, o superficial ganha corpo.

Para brigar contra a publicidade e a ingerência externa, nada melhor do que a literatura, com livros infantis na introdução da vida real iminente.

É desse ponto que parte Peter Hunt, professor de literatura infantil da Cardiff University, em seu livro Crítica, Teoria e Literatura Infantil.

Horas para bombar o shape com o coach, mas e a leitura com o filho?

Literatura infantil.3É uma rara oportunidade para entendermos o território vasto e desconhecido e com escassa bibliografia. Livros infantis são vistos como de segunda categoria, bobos e didáticos – sempre com uma ‘lição de moral’ no final.

Hunt critica o sacerdócio literário, aprisionado na academia e senhor do direito de indicar o que deve ser lido, e sugere que devemos entender a engrenagem cerebral no ato da leitura, em consonância com a evolução física e psicológica da criança.

Tratados como inexperientes e imaturos, pequenos leitores leem o que os pais escolhem.

Estes, apelam para o óbvio e enxergam na primeira dificuldade de interpretação textual uma destruição do prazer da leitura – conheço vários que gastam 10, 12 horas semanais para ‘bombar’ o shape sob ordem de um coach, de olho na área vip all inclusive de uma balada qualquer, mas não tem coragem de ficar 60 minutos com o filho atracado com alguma historinha.

O cuidado em transitar pela diversão com poder de abstração, ao passo em que garante a expansão espiritual, conhecimento e socialização, deve fazer parte do alicerce educacional familiar.

O que é bom para a criança e o que é bom, de verdade, para os adultos?

De forma suave e lúdica, livro infantil pode, sim, trazer a dureza do mundo, jogar limpo com as crianças sobre o que as espera, sob pena de encher uma cabecinha fértil com clichês limitadores.

Em defesa do valor cultural da literatura infantil, Peter Hunt empresta a seriedade que o tema merece e nos oferece um estudo importante para iniciantes e iniciados.

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