Literatura potiguar: Sobre “Rastejo”, de Humberto Hermenegildo

Conrado Carlos
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Um dos principais intelectuais norte-rio-grandenses estreia na ficção com romance “Rastejo”, um mergulho na memória de um sertanejo morador da capital, que não vê o pai desde a infância nos anos 1970.

Fotografia de capa: Paula Geórgia Fernandes

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Natural de Acari (RN), Humberto Hermenegildo de Araújo (1959) foi nomeado membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras em 2017; é professor de literatura, poeta , pesquisador e autor de livros sobre Câmara Cascudo, o Modernismo no RN e a poesia de Jorge Fernandes.

Eu não conheço Humberto Hermenegildo pessoalmente, apesar da cordialidade virtual instalada entre nós. Mas, assim que comecei Rastejo (Caravela Selo Cultural), tomei um susto.

Vivi cena muito parecida com a do narrador, na hora de sua fuga com a família do Seridó para a capital, “quase retirantes”. Ele mofino e ansioso em um caminhão, nos idos dos 70s, em busca de entender o sentido libertador do recomeço de vida em outro lugar; eu, de volta das férias em Almino Afonso, numa camionete, meados dos anos 1980. Ambos com sete, oito anos de idade.

Em comum, uma menina com olhos de despedida na moldura da estrada poeirenta, retrato poético da fase em que cores, sons e cheiros abarcam por inteiro – para escassearem na etapa adulta, dominada pelo cinza, a síncope e o azedume.

O adeus do menino foi escrito com um toco de carvão na parede de casa. Meu coração besta, vazado por uma flecha, ficou desenhado nalguma árvore frondosa e querida da poesia popular.

Estava tudo ali na primeira página do romance de estreia do professor, pesquisador, poeta e autor de livros importantes sobre o modernismo no Rio Grande do Norte dos anos 1920, a poesia de Jorge Fernandes e, sua especialidade, Luís da Câmara Cascudo.

Se toda ficção tem um quê de preguiçosa e pede ajuda ao leitor para preencher lacunas, a de Humberto oferece mapas, placas informativas e aponta o rumo a ser tomado. História de exílio, drama familiar, a conversão de uma criança em adulto? Creio que Rastejo vai além disso.

Breve sinopse

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Praça Gentil Ferreiro, bairro do Alecrim, anos 1980.

Nascido em Acari (RN), mas morador de Natal desde 1972, Humberto Hermenegildo de Araújo conta a história de muitos interioranos, neste Rastejo – o rastejador, na mítica nordestina, era um especialista na geografia do Sertão, convocado para resgatar boi arredio, escravo fugidio e criminoso intocado na Caatinga; os primeiros eram índios, o que emprestou aura sobrenatural àqueles homens coloniais.

A família de Edmundo da Costa, filho do criador de gado Possidônio da Costa (o rastejador da história e nome do avô de Humberto), chega ao bairro do Alecrim, numa época em que todo interiorano entrava na capital potiguar via Macaíba.

Veio com a mulher e quatro filhos, um deles, Pedro, o narrador, garoto que se refugiava no fundo do quintal da nova casa, único espaço possível para lampejos campestres – e com privacidade.

Foi ali onde a irmã Glicéria armou uma espécie de teatro cigano, para entreter “ilustres negociantes que chegariam de viagens longínquas e pediria arrancho nas novas terras”.

Sem o mesmo vigor no trato com animais, Edmundo vendeu as propriedades deixadas pelo pai e saldou dividas, antes de buscar outro habitat – onde tentou ser comerciante, também sem sucesso.

Em Natal, a bandidagem urbana e o turismo se apresentavam como novidades. Edmundo estava impregnado de referências sertanejas. A vida na ‘cidade grande’ revelou hostilidade e efervescência demais para um sujeito simples.

Edmundo, então, abandona a família na capital e volta para o ambiente rural entre Acari e Carnaúba dos Dantas, no Seridó Potiguar. O menino Pedro é quem mais sente falta do pai. Cresce traumatizado e, já crescido, faz o caminho de volta, em busca do ente perdido e de si mesmo.

A imensurável solidão de um estrangeiro

Ao transformar a evocação nostálgica do passado em uma promessa irrealizável, em uma tristeza dilacerante, a narrativa de Humberto Hermenegildo nos leva a questão do exílio, da inadequação do forasteiro – ou, ainda hoje, em qualquer capital brasileira, a pessoa de fala arrastada, da papada nervosa, recém-chegada de um rincão, não seria ela um outsider?

Cena emblemática da ideia corre na página 103, com algo de Antonioni e seu Depois daquele beijo. Sim, pois a escrita do curto romance tem muito de cinematográfica, o que nos faz observar de perto a deterioração das fotografias familiares, “sem álbuns, algumas já com os cantos roídos”.

Eles estavam lá, unidos cada um em sua pose. Já o leitor fica ciente do quanto nossa memória é indômita e de como Humberto estabeleceu a narrativa entre o vivido e a compreensão do que se viveu.

E mais: sem descambar para o regionalismo vulgar, ainda que a linguagem sertaneja possa incomodar um jovem leitor urbano – sobretudo, capitalino.

O livro perpassa a história do Seridó, a cultura livresca influente sobre o sertanejo, as transformações de um dos bairros mais simbólicos de Natal; cita plantas, bichos e alimentos específicos da região, sem recorrer ao caricato.

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Ilustração: James Boils

Um jovem romancista à espera

Em 1980, Umberto Eco lançou O nome da rosa. O italiano tinha 48 anos. Consagrado como semiólogo, filósofo e linguista, desengavetou rabiscos sobre a Idade Média (ele era doutor na estética em Santo Tomás de Aquino) para contar a história de um monge envenenado em um mosteiro (episódio que o impressionou em um livro medieval).

Eco falou sobre o processo de criação do romance em vários de seus livros seguintes, um deles chamado Confissões de um jovem romancista (2008). São dicas ficcionais preciosas, reflexões filosóficas em torno do pacto de ‘suspensão da incredulidade’ estabelecido entre autor e leitor e bastidores dos romances que publicou.

Um acadêmico de sólida formação estreia na literatura com 50 anos. A identificação com o novo trabalho de Humberto Hermenegildo é inevitável.

O fato de o potiguar ser professor de literatura da Universidade Federal, com décadas de imersão no universo das letras, faz com que Rastejo, após 15 anos de reescritas, reluza no atual panorama literário norte-rio-grandense.

Bastam duas, três páginas para o leitor perceber o encaixe do locus e do pensar sertanejo, tão melódico, com certa poesia, no andar da memória de Pedro.

Você lê: “Reza de garrancho, cardeiro, fulô de pau de vazante, pau leve do mulungu boiador nas águas mansas”, e nota que o dia de reza na igreja de Acari, relembrado pelo garoto, suplantava a formalidade, para a população pioneira no Seridó.

Penso que, nesta terra literária com certeza, mas carente de longas narrativas, comentar um livro de um autor ‘local’ é um aceno, um cumprimento, algo como “Li seu escrito e gostei, caro jovem romancista”.  É mais ou menos isso o que eu tinha para dizer de Rastejo.

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Conrado Carlos

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