“Livro de Linhagens”, de Paulo de Tarso
24 de fevereiro de 2012 às 20:38 - 2 ComentáriosPor Eduardo Aroso
Em breves palavras introdutórias do seu Livro de Linhagens, o poeta Paulo de Tarso começa assim: «já se disse que uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia, tentativa de resumo da marca helénica no mundo neolatino». Desconheço se a frase terá surgido antes ou depois de Fernando Pessoa e se, sendo o primeiro caso, o autor de Mensagem a terá lido ou ouvido. A verdade é que Pessoa disse o seguinte «Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude». Assim, na metáfora, poderíamos dizer que as capitais da Grécia e de Portugal estariam (estão) mais irmanadas que a francesa “cidade das luzes”. Mas, seja como for, no consenso de que a Europa cultural é filha legítima da eterna Grécia, obra de “proletários do espírito”, o mundo latino tem saudades dos frutos da velha terra helena, sobretudo no que ela elevou e fixou – o conceito de Ideal, e que ainda não floresceu em plenitude. Todavia, não é um certo helenismo estático que apenas se banhou no Mediterrâneo, mas desse Ideal – leia-se futuro – que o poeta de Mensagem nos fala, no poema de abertura, onde lemos «olhos gregos, lembrando».
Como já escrevi noutro local, «todo o velho continente arde na purgação do que tem feito de errado e sabe que, muito embora sendo a Grécia actual o inverso da que foi de esplendor outrora, ela ainda pulsa como íman ancestral da nossa psique colectiva». Entrou mal no século XXI esta Europa com a casa desarrumada para, devida e correctamente dar e receber, tal assim lhe compete na esfera da civilização. Tudo isto para dizer que Paulo de Tarso tem nos seus cromossomas culturais o verso pessoano «olhos gregos, lembrando». O poeta brasileiro sabe (porque sente) que a sua linhagem é também fruto de uma convergência de outras tradições, pois no-lo diz no poema de abertura intitulado Portugal, quando se refere a anos gregos, à terra dos romanos, a segredos celtas e olhares mouros. Nele tudo converge, não só o tal «rio de Paris», como o Tejo que leva os aromas do Bairro de Alfama, ou do seu irmão chamado Alto, e os sons do fado abraçando a sua alma gémea que é a guitarra.
Coimbra, 21 de Fevereiro de 2012








2 Comentários
Paulo é bom poeta, dotado de escrita culta e pessoal. Certamente, é um estilista muito especial.
Sim, Marcos.E Paulo soube até fazer artes que o Fernando Pessoa jamais faria. Mesclar, por exemplo, os resíduos do vanguarda portuguesa com o minimalismo da nossa Poesia Concreta e o toque sincopado da Bossa Nova.O Livro de Linhagens foi um dos melhores lançamentos, na área da poesia, em 2011, no país.Com todo o respeito pelo que se produz no Sudeste Maravilha.