Livro discute revisão a partir da prática
26 de julho de 2010 às 8:19 - ComentarDe um tempo para cá, a produção saída dos prelos universitários vem se despojando do ranço acadêmico, que funcionava como um estigma, uma espécie de “defeito de origem” aos olhos do leitor não especializado. Ouvindo a linguagem da rua, atentando para os textos midiáticos, buscando entender o que a linguagem oral tem de permanente e de transitório, muitos autores situados entre os muros da academia começam a romper com o tabu vigente em torno do acadêmico e não acadêmico.
O livro “Revisão de textos: da prática à teoria” (Edufrn, 2010), da revisora e professora Risoleide Rosa Freire de Oliveira, além de preencher uma grande lacuna bibliográfica na sua área de especialização, consegue a proeza de traduzir em linguagem objetiva e, portanto, clara, os meandros e as filigranas que cercam o repertório de teorias produzidas em torno do assunto. O livro integra um conjunto de quinze obras da UFRN que serão lançadas pela editora da UFRN no dia 29 próximo, dentro da 62ª reunião anual da SBPC, cuja edição acontece no Campus da UFRN, em Natal, entre os dias 25 e 30 deste mês.
Revisora de centenas de títulos editados pela UFRN em mais de duas décadas de atividades, e professora em outras instituições de ensino superior, Risoleide Rosa é hoje uma referência em sua área, o que vem gerando uma grande expectativa em torno do seu livro, resultante de um minucioso trabalho de reescritura de sua dissertação de doutorado.
Apesar de ancorar-se num acervo teórico complexo que remonta às ideias do linguista russo Bakhtin, o livro se abre para uma vasta gama de questões práticas, onde não falta o revisor rebelde Raimundo Silva, criado por José Saramago na “História do cerco de Lisboa”, alternativa restante, quando tudo o mais esbarra em impossibilidades nesse campo. Outro destaque do livro é o diálogo que a autora trava com revisores e escritores, flexibilizando e refocando alguns conceitos pétreos que obstruem o processo revisório.
Partindo da prática em busca da teoria que a fundamente, Risoleide Rosa opta por um caminho pouco trilhado por revisores. É que ela crê firmemente que o discurso gerado na multiplicidade de vozes do dia a dia é um caminho imprescindível para se avançar na compreensão do ofício de revisar.
Tema de escassa exploração teórica, o livro de Risoleide Rosa vem atender a uma vasta demanda por obras sobre revisão. Agora, não mais de ponto de vista amadorístico, mas profissional, na medida em que o mercado editorial se profissionaliza cada vez mais. E se isso começa a acontecer, é porque existe, na retaguarda, bons profissionais de revisão.
De fato, um bom revisor pode fazer toda a diferença em determinados casos. Pensemos no problema ocasionado pela reedição do “Dicionário brasileiro de folclore”, pela Global editora. Leitores, escritores, jornalistas culturais, pesquisadores vêm denunciando omissões, interpolações, reescrituras de verbetes, num flagrante desrespeito à propriedade intelectual da obra. A denúncia mais recente (mas não certamente a última) veio por intermédio do livro escrito pelo poeta e professor Moacy Cirne “Dicionário do folclore brasileiro – uma edição desfigurada”, que traz o selo do Sebo Vermelho. Entre outras coisas, Moacy Cirne revela que a editora carioca conseguiu transformar Cascudo em plagiário de Édison Carneiro, além de desfigurar inúmeros verbetes do “Dicionário”, suprimindo linhas, retorcendo frases, acrescentando palavras.
Faltou, certamente, um trabalho consciencioso de revisão na edição do referido livro, porque revisar significa, entre outras coisas, respeitar o texto autoral, e se isso não se deu na edição do “Dicionário”, então é porque ele não foi propriamente revisado, o que parece difícil de entender, considerando se tratar de uma das grandes editoras em atividade no país. Nesse caso, porém, os fatos falam por si. Insistentemente.

