Lonjura

Carlos Gurgel
Mais

“É para você, meu pai, que dedico essas lenhas linhas. por sobre o universo do seu sorriso que se espalha feito fonte. de um ser que nunca deixou de dizer eu sou seu irmão”, do autor para o poeta e folclorista Deífilo Gurgel (1926-2012).

Fotografias: Giovanni Sérgio

Deífilo e Carlos Gurgel

Pai e filho na praça 07 de setembro, centro de Natal; Deífilo Gurgel foi um dos pesquisadores mais importantes para a compreensão cultural do Rio Grande do Norte.

nesse dia que a palavra se veste de ouro e estopim, como um anjo que guarda a cancela dos segredos e rotas. nesse dia onde o rumor do vento faz da face humana uma apologia do vazio e das buscas incessantes, como se nós, loucos mortais, pudéssemos transpor a clareira do óbvio, revestido de algemas e palafitas.

Deifilo Zoraide e Carlos

Anos 1950: Zoraide, Carlos e Deífilo.

nesse seu dia, poesia, onde o mundo dilaceradamente busca sua identidade como um órfão de paus e mãos, como um horto sem farol e jangada. nesse seu dia, poesia, por sobre o sol a pique, o sal sem dique, tal uma atmosfera que invade o coração das casas pequenas.

nesse seu dia, palavra, poesia, onde pelas réstias da língua do tempo, fomos o tempo todo tragados como uma aldeia sem herói, como um cadafalso perigo iminente. nesse dia, entre a noite e a agonia. nesse seu dia, poesia, entre a península da minúscula salvação, por tudo mais profano e imortal. por onde todos nós, entre a beira e o rastro, entre a feira e o pasto, entre a freira e o casto.

nesse dia, onde a poesia chora. nesse dia onde a poesia implora. nesse dia onde a poesia namora. nesse dia onde a poesia se escora. nesse dia onde a poesia aflora. nesse dia, nessa noite, nessa data, sem rumo e sem mapa. sem gloria e sem mata. sem a mínima vontade de saber o que se passa do outro lado da rua. sem a menor vontade de se levantar e acompanhar os raios de um sol que tinge de brasa, os abraços dos corações humanos.

pois que a poesia é porto.

pois que a poesia é horto.

pois que a poesia é encosto.

nesse dia por onde milhares de palavras pedem perdão pelo esquecimento sem nódoa. pedem pela exata e imediata medição de sorrisos e pólvoras. pela lonjura por onde os sonhos se foram. pelas mãos de um poeta sem a cor do sangue banhando seus versos e seus sorrisos. pela beleza da sua mais absoluta simplicidade.

Deifilio Gurgel.2

“[..] pela beleza da sua mais absoluta simplicidade […] me desfaleço de saudades e lágrimas”.

como uma flor sobrevivendo no deserto atávico. como um homem de paletó e gravata do seu corpo, espaço, chão. é por ele, que as gaivotas sorriem. é por ele, que os vagões dos trens, se revestem de cartas, sonetos, poemas, rimas, evocações, e prelúdios de uma beleza sem fim.

Então

como um filho

que eu sei pois sempre te amarei

dedico esses meus rascunhos

escritos para ti.

é para você, meu pai, que dedico essas lenhas linhas. por sobre o universo do seu sorriso que se espalha feito fonte. de um ser que nunca deixou de dizer eu sou seu irmão.

porque para meu pai, o tempo era como uma armadura, plena, vasta, simples e bendita. tal qual seus olhos, agora olhando para mim, e eu, feito um novelo contemporâneo, me desfaleço de saudades e lágrimas.

Share:
Carlos Gurgel

Comentários

Leave a reply