Louco por João Gilberto

DestaqueLiteratura

Perseguição à voz da bossa nova pelas ruas do Rio de Janeiro motiva livro Ho-Ba-La-Lá – À Procura de João Gilberto, escrito pelo alemão Marc Fischer; Caçada digna de Sherlock Holmes é mostruário do limite do abismo psíquico que assombra ícone brasileiro.

O fantasma sai de cena.

João Gilberto_Carnaval RIO

Livro inquieta e diverte desde o começo

Durante a leitura de Ho-Ba-La-Lá – À Procura de João Gilberto (Cia das Letras), dois espectros rondam o leitor: o do recluso e inacessível músico, voz oficial da bossa nova, e o do autor de um dos livros mais divertidos sobre um ícone brasileiro.

As manias de João são ‘clássicas’, mas o inquietante é a história do jornalista e escritor alemão Marc Fischer, pois ele se matou dias antes do lançamento, em 2011. Fischer virou fã do baiano após viajar ao Japão, para superar uma desilusão amorosa.

Na casa de um amigo nipônico, conheceu o disco Chega de Saudade (1959). Foi o despertar de uma nova paixão, que o fez passar cinco meses entre o Rio de Janeiro, Porto Alegre e Diamantina, com um objetivo: encontrar-se com o ídolo e fazê-lo tocar em um violão germânico centenário herdado da avó.

É uma caçada digna de Sherlock Holmes, tanto que Fischer apelidou de Watson sua ajudante Rachel, na empolgante narrativa detetivesca pelas ruas da Cidade Maravilhosa. A cada entrevista, uma surpresa.

Roberto Menescal o alerta para a maldição que recai sobre quem desenvolve obsessão pelo violonista; com João Donato, fuma haxixe e escuta críticas sinceras sobre a limitação musical de João.

O livro vai além de ser uma história sobre João Gilberto e ganha uma narrativa paralela com a obsessão de Marc Fischer em ver João tocar a famosa faixa Ho-Ba-La-Lá, do primeiro álbum.

João Gilberto.4

João Gilberto passava horas trancado no banheiro para aproveitar a acústica ambiente

No banheiro de João Gilberto

Várias suspeitas sobre a personalidade de João Gilberto são confirmadas. Ele adora e conversa com gatos e toca dez a doze horas de violão por dia.

Sabe-se também que nunca mais foi o mesmo, após ser preterido na gravação de Garota de Ipanema por Tom Jobim e Frank Sinatra.

E depois que a EMI lançou, em 1990, seus três primeiros álbuns em um só CD, com cortes em faixas e, por consequência, na sonoridade.

Das ruas do Rio de Janeiro, onde frequentou redutos simbólicos dos Anos Dourados, como a loja de discos Toca do Vinícius e o bar Garota de Ipanema, Marc partiu para a Diamantina.

Teria sido lá que João, em 1956, trabalhou o jeito único de tocar e cantar, em horas trancado no banheiro da casa da irmã. Há quem defenda que o retiro foi para fugir do incipiente vício em álcool, maconha e de um surto psicótico.

Na busca implacável pelo passado são acrescentadas observações engraçadas do hamburguês que morreu aos 41 anos, sempre com uma cervejinha e THC no juízo.

Ele revisitou o ‘mítico’ banheiro, cuja acústica seduzia João, e dedilhou a faixa título do livro, sob a desconfiança do atual morador da casa.

Assim como a depressão e a excentricidade de João são conhecidas publicamente, Marc Fischer emite, durante Ho-Ba-La-Lá, sinais de estar no limite do abismo psíquico.

Dor, solidão e comicidade do autor e do personagem se misturam. No encontro com Miúcha, um dos principais da saga, ele ouve: “Você parece exausto”.

João Gilberto_Marc Fischer

Jornalista e escritor alemão Marc Fischer (1970-2011) se matou dias antes do lançamento do livro; ele virou fã do baiano após sair de Berlim e ir conhecer o Japão, para superar uma desilusão amorosa.

A melodia infinita

Cem anos antes de a Bossa Nova estourar, Richard Wagner, em O Trabalho Artístico do Futuro, preconizou: “[…] músico é quem, então, faz ressoar alto o não dito, e a forma iniludível de seu silêncio tonitruante é a melodia infinita”.

Notívago e melancólico, João Gilberto fez da repetição e da polidez sua marca registrada. O perfil aqui esboçado tem a visão deslumbrada de um obcecado seguidor.

Ao chegar estafado na Alemanha, depois de andar pelo mormaço carioca de camiseta e violão no braço, Marc diz: “[…] nada é como havia sido antes”.

Share:

Comentários

Leave a reply