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A lucidez final de Ferreira Gullar

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Um nítido contraste serve de linha divisória para os dois textos em que o nome de Ferreira Gullar se despede dos seus leitores nas páginas da Folha de S. Paulo. Referimo-nos à edição de 11 de dezembro passado desse diário paulista, uma semana depois da morte do poeta. Um dos textos é a coluna “Arte do futuro”, que Gullar ditara, no leito de hospital, para a neta Celeste, e que é retinto de pessimismo e ironia sobre a arte que virá. É, porém, na entrevista que deu ao jornalista Pedro Maciel que o leitor pode reencontrar o combativo poeta maranhense em toda a sua melhor forma: lúcido, mordaz, poético e crítico.

A entrevista também se presta a considerações sobre o papel do entrevistador e sobre o risco que corre seu trabalho quando ele lança mão de suposições que considera de aceitação geral e se depara com uma reação contrária ao seu. A primeira pergunta formulada pelo repórter da Folha, é, nesse sentido, exemplar, denotando pouca familiaridade do entrevistador não só com a história da poesia, sua função e sua presença, mas sobretudo com as ideias do entrevistado: a pergunta é a seguinte: “Como o poeta se sente num tempo em que a poesia perdeu sua importância cultural?”.

De fato, a pergunta se revela de todo inadequada nesse contexto, porque se a poesia perdeu qualquer importância, então que importância teria o poeta para justificar que seu veículo o tomasse como interlocutor? O adjetivo “cultural”, que o entrevistador acrescenta ao final da pergunta, tem aí o propósito de atenuar a despolidez da afirmativa sobre a perda da importância da poesia, como se isso fosse um fato unânime, geral e inequívoco nas letras brasileiras, apesar da popularidade de que gozam tantos poetas, dentre eles, o próprio Gullar.

Falávamos, antes, na lucidez de Ferreira Gullar, e ele a demonstrou desde a primeira resposta que deu ao equivocado entrevistador. Vale a pena ler seu teor na íntegra: “Não sei se a poesia perdeu sua importância cultural. Acho que não perdeu. Uma coisa é a cultura de massa, a badalação em torno de bobagens que preponderam na nossa sociedade. Outra é a verdade, a verdadeira arte, a verdadeira poesia, os verdadeiros valores. A poesia, mais que nunca, é fundamental para as pessoas exatamente porque elas vivem uma vida alucinada em que todo valor é banalizado. Então, as pessoas recorrem à poesia. É claro que não é a maioria, mas nunca foi a maioria. Em época alguma do mundo a maioria procurou a poesia”.

A partir dessa tomada de posição pela poesia, a argumentação de Ferreira Gullar ganha ares de uma verdadeira poética minimalista, apoiada em três ideias-força: a primeira é que a poesia é indefinível; a segunda, é que fora do poema a poesia é só uma promessa, uma expectativa; a terceira é que o poema é um lugar onde a palavra vira poesia porque, fora do poema, fora da obra de arte, a poesia não está em parte alguma. Gullar não titubeia nem mesmo em desautorizar o Octavio Paz que vê no ritmo o núcleo do poema, defendendo, ao contrário, que esse núcleo jaz no que diz o poema. E enfatiza: o que o poema diz, só o poema diz!

Gullar não se deixa intimidar nem mesmo diante de uma pergunta provocativa do tipo “A arte poética é uma tentativa de salvação da existência?”, ante a qual muitos poetas costumam tergiversar, dada sua conotação excessivamente datada. Para Gullar, a pergunta é uma oportunidade de desvelar o ardil que existe por trás dela, e, ao mesmo tempo, uma reafirmação dos verdadeiros valores da arte. Na verdade, Gullar expressa, nessa afirmação, sua experiência com a poesia, e trata-se de uma experiência madura, fundamentada na vivência com e pela poesia. Seu primeiro argumento é de recusa: “Depende do que a gente está chamando de salvar. Se é salvar a alma, aí não, porque a poesia não serve para isso”. Sem dar tempo para contestação, prossegue Gullar, agora em defesa da real utilidade da poesia: “A poesia ajuda as pessoas a viverem, é para isso que ela serve. As pessoas necessitam ser felizes, ter uma vida com alguma alegria, com alguma maravilha, com alguma beleza. E a função do artista é propiciar isso”. No arremate, não resista a fazer uma blague: “A poesia não salva ninguém porque isso aí é função de bombeiro”.

A entrevista prossegue em torno de considerações sobre a arte, o Modernismo e sua superação, sobre o significado do tempo, para finalmente chegar a duas questões vitais para o poeta Ferreira Gullar: o amor como valor essencial à vida e a ideia de morte como fim. Sobre o amor, o poeta chega a se revelar de natural romântico, mas foge ao lugar-comum ao refletir que “o amor é uma coisa altamente significativa. Porque o amor também transfigura o relacionamento das pessoas. E tem outra coisa também, o entendimento e a compreensão que estão envolvidos no amor. Quer dizer, o amor não te julga. Pelo menos como eu entendo, o amor é um refrigério, é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável que normalmente as pessoas fazem umas das outras”.

Sobre a morte, este é um ponto que o poeta enfatiza reiteradamente: “a morte é só o fim. A morte é o fim, não é o todo. A morte é muito mais o nada do que o todo. É o fim. A morte é o nada. É o nada”. Mesmo o entrevistador não tendo interpelado o que havia por trás dessa convicção, o próprio poeta explica, à maneira hinduísta: “Você é uma coisa temporária, particular, mas a sua origem, é o todo” [o nirvana para o qual todos os seres migram, no Hinduísmo]. “Você vem do todo e, momentaneamente, existe como uma individualidade. Depois, você se dissolve nesse todo e desaparece”.

Ante essa resposta “niilista”, o repórter é levado a supor que o poeta é um grande pessimista, um homem sem esperança. Mas Gullar o surpreende, outra vez, ao afirmar: “A realidade do mundo para mim não é sombria. Essa visão é que é um pouco sombria demais para o meu gosto. Eu estou vendo luz aqui, o verão, a praia azul, o mar. Eu não tenho essa visão pessimista da vida”.

É nesse tom de reviravolta que a entrevista chega ao seu termo. É evidente que ela foi realizada no apartamento do poeta, em Copacabana, quando ele ainda gozava de boa saúde, num dia ensolarado e soprado pela brisa do mar.

É certo que muitos temas caros à poesia de Ferreira Gullar, como o aspecto social de sua poesia, as diversas fases que pontuaram sua evolução como poeta, crítico de arte e artista plástico, jornalista e militante político, seus exílios e seu retorno ao Brasil, ficaram de fora dessa que foi possivelmente a última entrevista que deu ao jornal no qual escreveu por décadas. O que falou, porém, revela que o artista, o poeta, o colunista crítico e atento às questões do seu tempo, revela que ele continuava lúcido como sempre, mas com uma lucidez temperada pela experiência, o tempo e a vida, de um lado, e a arte do outro. A junção desses elementos o tornaram um daqueles homens brechtianos – aqueles que se tornaram imprescindíveis porque lutaram a vida inteira. Essa foi, certamente, a imagem que Ferreira Gullar lutou para deixar de si como legado. E o conseguiu, supomos.

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