Lucinha Madana Mohana: Em nome de Krishna e Olorum

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Lucinha nasceu em Fernando Pedroza (RN) e chegou à Natal aos 12 anos de idade; Madana Mohana significa “aquela que controla o cupido”, segundo a própria, que já gravou dois CDs e escreveu três livros, um deles, Tarô Sagrado dos Deuses Hindus, com prefácio de Jorge Mautner, publicado pela editora Pensamento e vendido em todo o Brasil. Fotografia: Acervo pessoal

Tomo um susto com o barulho de alguns pombos que pousam ao meu lado.

São 16h30 e eu estou concentrado no bloco de anotações, caneta veloz em garranchos que mais tarde servirão de matéria-prima para uma reportagem.

Em conluio com as aves, o silêncio da praça Padre João Maria é interrompido apenas pela voz de uma mulher que tem tanta história para contar quanto o entorno.

A sujeira e a fedentina são onipresentes.

Assim como a monotonia do Centro de Natal, abandonado, sem tarol, trombone, muito menos, um coreto.

A cada carro que passa, percebo que chamamos atenção.

Motoristas nos olham com curiosidade e um sorriso fixo.

“Deve ser pela roupa de Lucinha”, imagino.

Aquela mulher frágil, vestida com trajes que misturam as culturas hindu, cigana e ioruba, tem uma missão urgente ali na praça: protestar contra a deterioração do lugar que é sagrado e ponto de encontro para minorias étnico-religiosas.

Ela carrega a tarefa de urdir contra o preconceito em uma região onde catolicismo e protestantismo neopentecostal criam barreiras ideológicas difíceis de superar.

Lucinha Madana Mohana fala em nome dos títulos que acumula: os de Sacerdotisa da Linha do Oriente e Mãe de Santo.

É uma devota de Krishna apadrinhada por Olurum, coordenadora de uma ONG chamada Associação Cultural e Ecológica das Comunidades Tradicionais.

Como um pouco de história não faz mal a ninguém, digo que a Umbanda foi criada, segundo praticantes, em 1908, por Zélio Fernandino de Morais.

Então com 17 anos, ele foi inundado por uma onda de surtos que, dentre estranhos sintomas, o deixava com a voz de um velho.

Um padre e um psiquiatra tentaram descobrir a causa, mas a Revelação veio em um centro espírita.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas baixou em Zélio, para espanto dos médiuns presentes, e anunciou a nova religião, uma mescla de catolicismo e espiritismo com crenças africanas e indígenas.

Como tudo de origem negra e silvícola, a ojeriza dos brancos cristãos foi imediata.

Parte do rito musical, a macumba (um instrumento parecido com um reco-reco) tocada por escravos recém-libertos virou sinônimo pejorativo – e está aí até hoje.

Entre Olorum, o Deus ioruba, e fiéis existem os orixás, divindades específicas para cada segmento da natureza e dos homens.

Desde Xangô, orixá do fogo e do trovão, até Iemanjá, semideusa dos mares e da limpeza, e dona da fertilidade feminina e da psicologia, tem orixá para todos os gostos (como os santos católicos).

E os médiuns intermediam essa relação, ao receber espíritos de preto-velhos e santos católicos.

Em nome de Krishna e Olorum_3A nação ioruba está espalhada pela África Ocidental, com predominância na Nigéria.

Foi, juntamente com bantos e nagôs, um dos principais grupos étnicos escravizados e mandados para o Brasil (sobretudo para a Bahia e para o Rio de Janeiro), na maior migração forçada da história.

Como o vodu no Caribe, o sincretismo foi moldado ao multiculturalismo brasileiro.

Ignorada por uma elite racista e europeizada, a umbanda virou coisa do capeta.

Penso em tudo isso, enquanto Lucinha conta sua vida.

Ou melhor, Madana Mohana, que, em hindu, significa “aquela que controla o cupido”.

Como meu conhecimento sobre a Índia não ultrapassa o período em que foi colônia inglesa, tempos da militância de Mahatma Gandi e de elefantes abatidos por George Orwell, acredito cegamente na definição de Lucinha.

Ela é natural de Fernando Pedroza, um pedaço de chão quente e empobrecido que, em 1992, se emancipou de Angicos.

Em nome de Krishna e Olorum

Há décadas, ela batalha contra o descaso do poder público e o preconceito com minorias étnico-culturais. Fotografia: Conrado Carlos

Chegou a Natal aos 12 anos e diz ter recebido a pombagira ainda adolescente – a famosa entidade acusada de ser porta-voz da luxúria através de espíritos de amantes, prostitutas e mulheres com forte apetite sexual.

Viro a primeira folha do caderninho e vejo um grupo de mães de santo chegar – cada uma representa um terreiro.

Um baixinho de traços centro-asiáticos, vestido feito um ditador africano em dia de gala, articula sem parar.

É Pai Alex de Ogun.

Lucinha fica dispersa, preocupada com os afazeres do evento.

Aproveito para trocar breves palavras com Adna Lígia Dias, coordenadora de Direitos Humanos de Defesa das Minorias.

Pois além de cuidados com a praça, a reunião pública, intitulada Salve a Umbanda, quer o pleno cumprimento da Lei 11.645, que prevê a inclusão no currículo oficial da rede de ensino a disciplina História e Cultura Afrobrasileira e Indígena.

Lígia lamenta a falta de aprofundamento em sala de aula e a falta de capacitação dos professores.

Poucos estudam o assunto e muitos o ignoram.

Lucinha volta para concluir o papo sobre a pombagira.

A tarde cai e a luminosidade para uma fotografia razoável chega ao limite.

Ao contrário das divindades que incorpora, ela, também conhecida na cena natalense como Lucinha Morena ou Sri Madana Mohana, mantém celibato há treze anos.

Antes disso, passou outros cinco sem sexo.

Nos intervalos da recusa carnal, “para não gastar energia e transcender”, quatro casamentos deixaram experiências boas e traumáticas – e nenhum filho.

Com o segundo, o guitarrista Jorge Macedo (morto em 2009), veio o apuro artístico – ela é formada em Educação Artística, na UFRN, e apresentou um programa infantil na TV Universitária, nos anos 1980, em que interpretava a Sapinha Geré.

Mas foi para a música e a literatura religiosa que os deuses direcionaram o juízo de Lucinha.

A fala mansa e o olhar melancólico, quem sabe, fruto de um aneurisma cerebral sofrido em 1999, revelam dois CDs gravados e três livros escritos – um deles, Tarô Sagrado dos Deuses Hindus, com prefácio de Jorge Mautner, foi publicado pela editora Pensamento, e é vendido em todo o Brasil.

Em nome de Krishna e Olorum_4Acompanhado de um CD com 22 mantras, foi indicado por Astrid Fontenele, à época na MTV, como indispensável na compreensão da cultura hindu no Brasil.

Fala sobre parcerias com Rogério Duarte (o guru da Tropicália que lhe apresentou a umbanda, em Salvador, em 2000), com os Filhos de Gandi (afirma ter sido a primeira mulher aceita no grupo), Luiz Caldas, Arrigo Barnabé e Gilberto Gil, o que me desperta a pergunta:

Como essa mulher veio parar nessa praça imunda?

Dois mendigos nos observavam com desdém, sentados em um banco descascado.

O cheiro de tabaco sobe forte.

Umbanda sem fumo é como cerveja sem álcool, café sem cafeína.

Se algum oncologista, pneumologista ou modista do fitness way of life visse a cena, ficaria chocado com a senhora que tragava o cachimbo aromático.

Creio que ela beirava os 80 anos.

Cheias de fumaça e boa vontade, as mulheres se reúnem para a foto.

“Um pouco para a direita”.

“Juntem mais vocês duas, tá um buraco no meio”.

“Todas olhando para mim”.

Deu certo. Ninguém pediu para ver o resultado.

Mas uma coisa me intrigou: a Madana Mohana faz ar deprimido e desolado, vista no horizonte, na hora do clique. Não pergunto o motivo. Gastei meu crédito de indiscrição na hora do celibato.

Mesmo assim, sei de uma desavença familiar com irmãs, que culminou com o distanciamento da progenitora.

A solidão é sua companheira.

Com empolgação, fala que não gosta de gente, só de plateia.

Ele mora sozinha em uma casa de três andares na rua da Misericórdia, no Passo da Pátria.

Um projeto de transformar a moradia em um santuário cultural para minorias é o que conduz sua vida, no momento.

Sobretudo após o roubo sofrido três anos atrás.

Lucinha morava em São Paulo (para onde foi em 1994), e soube que craqueiros da comunidade invadiram sua casa e levaram tudo, até as pias.

Livros, discos, obras de arte, anos de experiências estéticas e profissionais em troca de pedras alucinógenas.

Veio o esgotamento psicológico.

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Sacerdotisa da Linha do Oriente e Mãe de Santo, Lucinha mora no Passo da Pátria, onde pensa em montar um santuário para minorias religiosas. Fotografia: Chris Ruas.

Ela mostra um ofício da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) com a cessão de material para a montagem inicial do museu – mas, por enquanto, só viu a cor azul da caneta de um secretario que ela pediu para omitir o nome.

Após o roubo, o relacionamento com vizinhos, que era ótimo, esfriou.

Rompeu com todos e vive desconfiada, com medo de violência.

Diz que a produtividade aumenta com a solidão.

O temperamento zen, sentido por qualquer interlocutor nos primeiros minutos de conversa, foi posto a prova, nesse período.

Isso é dito em uma retórica ininterrupta, contrastante com o ar meio desligado que exala.

Perto de escurecer, trocamos apertos de mãos apressados. Lucinha precisa armar a mesa utilizada na cerimônia que está prestes a começar.

As mães de santo aguardam com paciência.

Por algum motivo, todos estão anestesiados naquela praça.

Inclusive eu, que não canto 1.300 mantras por dia, como ela.

Vou embora com a certeza de ter conhecido uma figura ímpar na cultura potiguar, com falhas, histórias tristes e muita disposição para movimentar expressões de minorias tão maltratadas por estas bandas, desde que o luso João de Barros foi presenteado (e esnobou) pela Coroa com a Capitania do Rio Grande.

FOTOGRAFIA DE CAPA: Conrado Carlos

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Comentários

8 comments

  1. aldo lopes de araujo 22 agosto, 2016 at 11:34

    Essa matéria é fenomenal, tanto do ponto de vista da riqueza dos personagens envolvidos, quanto pelo aspecto de resistência cultural, antropológica e coisa & tal. A perspicácia do repórter é outro dado interessante, o argumento se movimenta com palpos de câmara cinematográfica, uma abordagem elegante, respeitosa e esteticamente perfeita. Parabéns ao portal, com exceção das revistas Piauí, Caros Amigos e Correio das Artes, este é um dos únicos espaços onde podemos encontrar pérolas desse nível.

  2. José de Castro 22 agosto, 2016 at 14:52

    Conheci Lucinha Morena na época em que era Diretor de Programação e Realização da TV-U e ela fazia parte do nosso elenco de teleatrizes, sob a direção de Carlos Furtado…Nesse grupo tinha também a Kinha Costa (hoje escritora e morando na África do Sul), Eliene Albuquerque, Fátima Arruda, Jorge Borges, Lenício Queiroga, Ivonete Albano, dentre tantos outros atores e atrizes que começavam suas carreiras artísticas. Naquela época ela já demonstrava algum pendor musical. Figura carismática, aos poucos foi se enveredando cada vez mais pelos caminhos místicos… Faz tempo que não a vejo. Até parece que não moramos na mesma cidade, pois nossos caminhos não se cruzam mais. Desejo pleno sucesso a ela em sua escolha de espiritualização, num mundo de tantas descrenças. Parabéns ao Conrado Carlos pela bela reportagem. Deixo aqui um alô para minha amiga Lucinha Madana Mohana… Luz, muita luz em sua vida sempre!!!

  3. Conrado Carlos 22 agosto, 2016 at 18:00

    Aldo, falo em nome do Substantivo sem consultar Tácito e Sérgio, mas que elogio massa esses eu de nos botar no bolo de veículos tão importantes. Ficamos muito felizes e eu, particularmente, empolgado com sua empolgação..rs. A história da Lucinha é genial! Abraço!

  4. Flávio Rezende 23 agosto, 2016 at 10:34

    Sou seu fã. Escreve tão maravilhosamente bem que as vezes a matéria é um petisco e sua escrita a iguaria.
    Luzzzz

  5. Carlos Gurgel
    Carlos Gurgel 21 dezembro, 2016 at 07:50

    Essa figura Lucinha personagem protagonista de tudo que vê e sente, como uma comovente e alucinante pessoa que se lança tal qual uma lança pontiaguda e libertária. pois que ela, jardim e bomba, refaz o seu místico caminho de uma integridade rara. que ela mais permanente ainda nos dispa. canonizando nossos ossos e sonhos. e que Conrado oferte sempre seu forte flerte deleite pelas suas palavras tão bem pinçadas, jardim de êxtases e glórias.

    Cgurgel

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