Luís da Câmara Cascudo e Gilberto F. Vasconcellos

1 de fevereiro de 2010 às 13:22 - Comentar
Por João da Mata

A paixão gilbertiana pelo mestre da cultura popular Câmara Cascudo é comovente porquê, com conhecimento de causa e leituras criteriosas do vasto e profundo universo cascudiano. Na revista “Caros Amigos” a primeira coisa que leio é o Pequeno Folhetim do Folclore do Gilberto Vasconcellos que acaba de lançar um belo livro “A questão do Folclore do Brasil do sincretismo à xifopagia” pela EDUFRN no selo da coleção Estudos Norte-Riograndenses.

“Tudo que é importante no Brasil vem de Machado de Assis e Euclides da Cunha”, concordo. Gilberto visitou Cascudo mouco e veio morar no nordeste para escrever sobre o seu xará de Apipucos. Escreveu um livro comovente sobre o autor de uma das bíblias da cultura brasileira Casa Grande & Senzala. O ensaio Xará de Apipucos foi editado pela Casa Amarela e é um hino de amor ao escritor e homem Gilberto Freyre.

Na Caros e Amigos a maioria dos artigos falam de cascudo com um certa devoção “ Nunca tive em minha vida respeito religioso por ninguém a não ser quando fui visitar Luis da Câmara Cascudo”.

Pra falar do seu xará de Apipucos, Gilberto não consegue deixar de falar de Euclides da Cunha e Câmara Cascudo com num tríbio amor intelectual por esses três grandes fazedores da cultura que se complementam numa xifopagia. Gilberto lê Cascudo e destaca o importante conceito da xifopagia encontrado principalmente no livro Sociologia do Açúcar, de 1971. O açúcar que é tudo pra o Brasileiro. Cachaça, açúcar para adoçar a vida e energia. A bagaceira de engenho é vista por Cascudo como um laboratório de aculturação. Foi aí que o negro africano tornou-se brasileiro. Nesse parlatório os bantos deixaram Zambi por Xangô e Quianda por Yemanjá (Sociologia do Açúcar 1971).

O negro brasileiro, o santo guerreiro na Bahia, São Jorge esse siegfried católico, converteu-se em Ogum. Citando o pesquisador Roger Bastide Cascudo constata que não há contradição entre a cruz e a figa, entre a missa e o terreiro, entre o Padre Eterno e Olorum. O homem do candomblé no Brasil vive nos dois mundo sem nenhum problema (G. Vasconcellos p. 35 obra citada).

Mas o que é xifopagia? Consulto o dicionário do folclore de Cascudo e não encontro esse verbete. A xifopagia seria algo assim: uma miscigenação mantendo as individualidades. As etnias Européias, Americana e Africana se misturaram mantendo sua identidade. Uma mistura sem mistura. Com a palavra meu querido Gilberto de Vasconcellos:

A trajetória do sincretismo à xifopagia detectada na disciplina do folclore com Luis da Câmara Cascudo, mostra a influencia ibérica predominante na cultura popular, e a inexistência de fusão propriamente dita de santos e orixás nos cultos afro-católicos. Assim, o procedimento sincrético, em termos de crença ritual, é substituído pela urdidura xipofágica em que a mistura não se diferencia do resultado, permanecendo uma estrutura mental com elementos distintos e paralelos. (A Questão do Folclore no Brasil p. 93).

Ler Cascudo é uma delícia. Vasconcellos sabe disso e se apaixonou por seu objeto de estudo. Cascudo é uma enciclopédia que dialoga com os grandes estudiosos da cultura brasileira: Gustavo Barroso, Roger Bastide, Henry Koster, Dante Laytano, Arthur Ramos e Silvio Romero. Todos referenciados pelo grande escritor Gilberto Felisberto Vasconcellos em mais um belo livro. Belo livro. Os cascudianos agradecem.

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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”