Lula, a mãe do juiz, Galeano e o poeta

14 de setembro de 2009 às 19:22 - Comentar
Por Carlos Magno Araújo

COLUNA DE CMAGNO - 1

Dizem que o futebol evolui. E era como evolução que até pouco tempo atrás andavam saudando o novo papel dos treinadores de futebol.

Antigamente, não passavam de anônimos. Ou quase isso. A maioria vivia escondido ali, no banco de reservas, mal eram vistos pelos torcedores.

Alguns eram tão discretos e tão absortos em seu voluntário anonimato que chegavam a cochilar na hora do serviço.

E ninguém reclamava. Achavam… folclórico, no máximo.

O que aconteceria, hoje, se Wanderley Luxemburgo ou Muricy Ramalho – salários de mais de R$ 300 mil cada um – resolvesse puxar uma palhinha no meio de um jogo?

Quem imagina Vicente Feola, técnico campeão do mundo em 1958, na beira do campo, gesticulando, xingando o juiz e berrando com seus jogadores, feito um Luxemburgo?

Com um time daquele, o gordo se dava ao luxo da sesta em pleno expediente. Se aquela seleção jogava por música, era talvez embalado por ela que Feola dava seus cochilos.

Ao final da partida, um longo bocejo e o bicho garantido no bolso. Nunca foi importunado por um repórter – nem levado para uma sala de entrevista, muito menos vestido com boné do patrocinador.

E quem por acaso lembra o nome do treinador daquele time mágico do Santos, dos anos 60 – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe num ataque avassalador?

Pois esse tipo de técnico bonachão e sonolento feito Feola desapareceu. Foi engolido pela “modernização” no futebol; pelo espetáculo globalizado da bola, com seus protagonistas e figurantes e suas cifras mirabolantes, inacreditáveis.

Os treinadores modernos vinham sendo saudados como supra-sumo do futebol moderno. Tudo muitíssimo profissional. Muitos são chamados também de “manager”, palavrinha no nível do pedantismo de alguns treineiros contemporâneos.

Mas para quem acha que nada pode ser tão ruim que não possa ser piorado, calma lá. Pode sim.

Agora é a vez dos juízes de futebol. Alguns já brilham mais do que os treinadores. Do que boa parte dos atletas, nem precisa dizer. São as novas estrelas.

Perceberam? Agora, toda vez antes do jogo faz-se o perfil detalhado do juiz, que nem mais juiz é. A maioria chama de árbitro, carregando na formalidade. Tem até comentarista especializado.

Os bandeirinhas sumiram. Agora são auxiliares. E nos torneios mais importantes usam fones de ouvido e microfone para a comunicação mais ágil. Tudo muito supimpa e moderno.

Lendo outro dia Eduardo Galeano, na versão atualizada do seu delicioso “Futebol ao Sol e à Sombra”, edição pocket da L&PM, dei de cara com “Pobre mãezinha querida”, a crônica aludindo ao coro maldoso do qual costumam ser vítimas, ainda, apesar dos tempos modernos, os juízes – ou árbitros – de futebol.

Não pude deixar de pensar nos juízes de antigamente, nos treinadores de antigamente, no futebol de antigamente. Divido, pois, com vocês o texto de Galeano, aliás um clássico:

Pobre mãezinha querida

“No final dos anos sessenta, o poeta Jorge Enrique Adoum voltou ao Equador, depois de longa ausência. Nem bem chegou, cumpriu o ritual obrigatório da cidade de Quito: foi ao estádio, ver jogar o time do Aucas. Era uma partida importante, e o estádio estava repleto.

Antes do início, fez-se um minuto de silêncio pela mãe do juiz, morta na véspera. Todos se levantaram, todos calaram. Em seguida, um dirigente pronunciou um discurso destacando a atitude do esportista exemplar que ia apitar a partida, cumprindo com seu dever nas mais tristes circunstâncias. No meio do campo, cabisbaixo, o homem de preto recebeu o denso aplauso do público. Adoum piscou, beliscou um braço: não podia acreditar. Em que país estava? As coisas tinham mudado muito. Antes, as pessoas só se ocupavam do árbitro para gritar “filho da puta”.

E começou a partida. Aos quinze minutos, explodiu o estádio: gol do Aucas. Mas o árbitro anulou o gol, por impedimento, e imediatamente a multidão recordou a finada autora de seus dias:

- Órfão da puta! – rugiram as arquibancadas.”

PS.1 – Ah! O treinador do Santos supercampeão da Era Pelé se chamava Lula. De batismo, Luiz Alonso Perez. Morreu aos 50 anos, em 15 de junho de 1972, vítima de uma infecção generalizada decorrente de um transplante de rim. Currículo resumido? 38 títulos na carreira, entre 1954 e 1966.

PS. 2 – Na foto que ilustra esta coluna aparecem o técnico Lula e seus dois filhos, Luiz e Marcos. Capturada no globoesporte.com

PS. 3 – O poeta Jorge Enrique Adoum, lembrado por Eduardo Galeano, morreu há cerca de dois meses, com 83 anos. É considerado o maior intelectual do Equador, país que descreveu como “irreal, limitado por si mesmo, cortado por uma linha imaginária”.

PS.3 – Tenho quase certeza que a maioria dos que prestaram atenção ao título da coluna pensou que eu ai espinafrar o presidente ou falar do STF. Não que eles não mereçam; mas me desculpem. Foi só um drible.

Comentários fechados.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”