Lusíadas

27 de janeiro de 2012 às 15:47 - Comentar

Por Hermano Vianna
O GLOBO

Falar que as novas tecnologias estão aí para serem usadas é fácil; difícil é colocá-las para nos ajudar na prática

Se os protestos — reais e virtuais — não derem resultado, quando terminar este mês de janeiro serei um dos órfãos da Livraria Camões, que recebeu ordens para fechar suas portas no dia 31.

Torço ainda para a situação ser revertida. Li que na semana passada o Partido Socialista português pediu esclarecimentos sobre a decisão ao governo do primeiroministro Pedro Passos Coelho. Tomara que não vire briga inútil, mais para eleitor ver, entre situação e oposição. O assunto se transformou em questão partidária pois a Camões carioca é mantida pela Imprensa Nacional — Casa da Moeda (INCM), órgão governamental lusitano. Seu “director de marketing estratégico” (não tenho paciência para esses títulos nobres do mundo de negócios pós-MBAs), Alcides Gama, declarou para a Agência Lusa que “a livraria desempenhou um papel muito importante na divulgação dos livros dos autores portugueses no Brasil, só que os tempos mudam”. Ele acredita que, hoje, esse serviço pode ser prestado de forma mais eficaz através das novas tecnologias.

Poderia até concordar com o Gama. Como os leitores desta coluna sabem, sou fã das tais novas tecnologias, a ponto de já ter sido acusado de apoio acrítico ou deslumbrado para qualquer cibercoisa. Só que nesse caso fico bem desconfiado: onde o serviço novo e tecnológico está sendo prestado? Entrei agora na loja do site (ou sítio, como os portugueses preferem chamar) da INCM e descobri um ambiente bem menos acolhedor ou de fácil consulta que a loja física do Edifício Central. Não há nada equivalente às ferramentas de descoberta de uma Amazon, como “pessoas que compraram este livro também compraram aqueles”. Se o visitante não tiver um objetivo claro de compra, vai sentir dificuldade para passear pelo acervo da loja virtual. Na Camões eu sempre entrava com espírito aventureiro, queria ser surpreendido pelas novidades de Lisboa que as editoras brasileiras não lançavam.

Sempre saía de lá — mesmo recentemente, quando era evidente a falta de renovação do acer vo nas p r a t e l e i r a s — com livros que reforçaram meu orgulho de ser parte do mundo da língua portuguesa.

Então repito minha pergunta: quais são os planos do INCM para o Brasil? O que vai substituir a Camões? Por que a notícia do fechamento da loja física não veio acompanhada pelo anúncio dos planos para melhor distribuição da produção editorial lusitana no Brasil? Falar que as novas tecnologias estão aí para serem usadas é fácil; difícil é colocá-las para nos ajudar na prática.

Mais uma pergunta: por que os planos virtuais (caso existam) precisam descartar a existência de uma sede física? A loja da vida real poderia passar a ser farol/chamariz para a navegação e consumo na internet. Quando novas grandes livrarias físicas são inauguradas com sucesso na cidade, é estranho ouvir que um ponto e um “brand” (para usar termos marqueteiros) tão tradicional quanto os da Camões não tenham mais nenhum valor e possam ser jogados no lixo, sem nenhuma reciclagem.

Tenho certeza: com o fechamento da Camões a distância entre o Rio e Lisboa, aumentará muito — e não seria prudente empossar o iTunes e a Amazon como nossos únicos embaixadores editoriais transatlânticos. Um exemplo bem real: ando querendo ler Teixeira de Pascoaes. Já vasculhei muitas livrarias da cidade e não encontrei nada de sua autoria. Não tive tempo de passar na Camões, mas não achava que isso seria urgente. Agora é.

Minha curiosidade sobre os escritos de Teixeira de Pascoaes foi instigada por um livro que talvez se torne minha última compra na Camões, feita em dezembro do ano passado. Atravessei a porta da loja sem nenhum desejo especial. Quase comprei uma monografia sobre o compositor Luigi Nono, obra que namoro há anos, mas que considero um pouco cara (os livros na Camões não são exatamente baratos — se a INCM fosse realmente esperta, um plano de barateamento das obras impor tadas seria mais que bem-vindo e eficaz). Acabei fascinado pelo índice de um livro (é preciso investigar a fundo todos eles, pois as capas que a INCM lança não são muito sedutoras — pelo contrário: elas até trabalham para nos afastar das páginas internas —, disso seu “marketing estratégico” deveria cuidar melhor), que tive que trazer para casa, sobretudo depois que fui surpreendido por um bom desconto: era o “Do finistérreo pensar”, de Paulo Alexandre Esteves Borges, um discípulo de Teixeira de Pascoaes.

Estou penetrando no livro aos poucos; é muito denso , lotado de boas ideias e referências para mim até então desconhecidas. Tenho vergonhosas lacunas na minha formação: assim como nunca li Teixeira de Pascoaes, também não tinha prestado atenção em Nikolai Berdiaev ou Stanislas Breton, autores que servem de base para momentos possantes de “Do finistérreo pensar”. Há também um capítulo — agora mais atual, com o sonho europeu acabado — intitulado “Do Brasil no imaginário escatológico ao imaginário escatológico brasileiro”.

Paulo Alexandre Esteves Borges (depois do livro passei a acompanhar seu blog) faz parte de uma linhagem de pensadores visionários portugueses que — como nosso eterno professor Agostinho da Silva, ou o padre Antônio Vieira — têm a ousadia (também mística) de pensar um futuro menos periférico para o mundo da língua portuguesa. Sem a Livraria Camões a conquista desse futuro se torna ainda mais quixotesca.

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    TC

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