Machadianas

11 de março de 2010 às 17:38 - Comentar
Por João da Mata

I – Ensaios

“ Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Machado de Assis

Em 2008 o Brasil comemorou o centenário do seu maior escritor, Machado de Assis. Com reedição de sua obra, biografias, debates e novos estudos. A fortuna crítica do nosso maior escritor não pára de crescer. Machado é quase uma unanimidade nacional. Digo quase, pois nem sempre a crítica lhe foi favorável. Nesse ensaio lembramos de algumas dessas críticas. Comentamos também da influencia de Cervantes na obra machadiana e a gralha tipográfica nas edições das poesias completas de Machado pela editora francesa Garnier, em 1902.

Apesar de algumas críticas, ninguém ousa questionar o escritor de gênio que o tempo só faz consagrar. As efemérides literárias, felizmente, nos proporcionam essa revisão e releitura. Bom que conheçamos as críticas favoráveis e desfavoráveis, para saber que a literatura é feita por gente e para gente. E que a crítica é necessária, mesmo que muitas vezes falha. Os apologistas algumas vezes fazem uso de uma pena banhada no fel das vicissitudes de uma época, de um capricho, de uma estética ou da incompreensão própria do humano.

Sílvio Romero (1851-1914) – Um crítico hidrófobo

O escritor e crítico literário sergipano Sílvio Romero foi um dos maiores escritores brasileiros da belle époque brasileira. A vida literária era, para Romero, uma eterna arena. Em sua época era muito comum as polemicas acirradas. Em 1909, encerrou uma polemica de três anos com o também crítico José Veríssimo. Atacou Castro Alves e Valentim Magalhães, quando da posse de Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras.

Silvio foi um grande pesquisador do folclore e da literatura popular. Diga aí, Cascudo! Pioneiro em reconhecer a mestiçagem como elemento importante na formação da identidade nacional. Foi mais um crítico cultural, que literário. Como crítico literário se equivocou muitas vezes. Penso, e o Antonio Candido concorda, que a maior importância de Romero está na Historiografia Literária. Grandes contribuições ele deu nesse campo. Grande foi o resgate e sistematização que ele deu para a História da Literatura. Como crítico e polemista contumaz, se equivocou. Seus pressupostos raciais para a formação da literatura não se sustentam.

Em sua monografia “ Machado de Assis (1897)”, o crítico ataca o escritor Machado de Assis e comete, na nossa opinião, um erro grasso e uma grande injustiça. No centenário de Machado de Assis – o nosso maior escritor, lembramos esse fato, para mostrar como o grande crítico literário Romero pode se equivocar de forma tão hidrofóbica com relação a um escritor que as gerações futuras só têm consagrado:

Para Sílvio Romero, Machado, com seu “pessimismo de pacotilha” e seu “humorismo de almanaque”, não traria nada de novo para a literatura brasileira e nem contribuiria para a sua linha evolutiva. Seu conterrâneo Tobias Barreto é superior a Machado. Continua vociferando o crítico sergipano: “A terra da poesia é a nossa Alemanha”, escreveu Machado, embora sem chegar nunca aos extremos tudescos de um Tobias, para não lembrar os menos exaltados Capistrano e João Ribeiro ( Grieco A. 1959 Machado de ASSIS). Parece que foi para Romero que Machado escreveu: “ Ninguém sabe o que sou quando rumino”

” Machado de Assis repisa, repete, torce, retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão de um eterno tartamudear. Esse vezo é o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra.”

” Em prosa falada ou escrita, no estilo fluente, imaginoso, poético, e no gracioso e humorístico, Machado de Assis não é superior a Tobias Barreto; é-lhe sempre inferior.”

Agrippino Grieco

Agrippino Grieco foi um dos maiores crítico literário brasileiro da primeira metade do século passado. Escreveu dois livros de duras críticas a Machado. Machado de Assis (1959) e Viagem em torno de Machado de Assis (1969). Nesses livros, Grieco crítica violentamente a poesia de Machado. Diz que seus contos não chegam à preeminência do romancista. Analisa minuciosamente as possíveis influências machadianas e – até mesmo, plágios. Não bastasse todo esse ataque o mordaz crítico de “ Carcaças Gloriosas” ainda faz uma compilação de todas as críticas desabonadoras ao grande escritor. O que mostra como até mesmo um grande crítico pode se equivocar. Muitos desses erros foram apontados pelo Augusto Meyer (Textos críticos, Editora Perspectiva, 1982).
Algumas críticas citadas por Grieco:

Mário de Andrade

“ Uma natureza sem generosidade”

Augusto Meyer

“Obra monótona e desfigurada pelo vício da acrobacia humorística superficial”

José Veríssimo

O pudor do poeta às vezes era quase “ pusilanimidade espiritual”

Medeiros e Albuquerque

“ Romances para romancistas, literatura para literatos”

Corrêa Pinto,

Em uma plaquete de 1958 – “Machado de Assis”, diz que nenhum de seus biógrafos e críticos o entendeu.

Analisando as críticas a Machado acima referidas, só podemos dizer – nós machadólatras – que eles se enganaram. Machado é eterno. O tempo só confirma a sua genialidade de criador de tipos inesquecíveis. De uma prosa e verve primorosa. Um estilista da língua portuguesa.

Machado de Assis – Um Leitor de Cervantes

A recepção da obra de Cervantes no Brasil não pára de crescer. Muitos poetas, músicos e escritores foram seduzidos pelo humor e aventuras do cavaleiro da triste figura. A influencia de Cervantes se dá tanto na cultura popular quanto na cultura dita erudita. A primeira referencia explicita ao Dom Quixote de Cervantes no Brasil encontra-se na obra do poeta satírico Gregório de Matos, do século XVII.

Os livros de cavalaria povoaram a imaginação e os sonhos de muitos escritores brasileiros: José Lins do Rego, José de Alencar, Machado de Assis e outros. Já na juventude do nosso maior escritor – que esse ano está completando 100 anos com muitas festas literárias, reedições de sua obra, novos estudos e exercícios de re-escrituras de alguns de seus magníficos contos por vários escritores; Machado exaltava o D. Quixote como um passatempo agradável. Em um poema de 1856, ele escreve;

Cognac inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor do amor ardente,
Uma tua garrafa e o Dom Quixote
É passatempo amável.

São muitos os paralelos e alusões a Cervantes na obra Machadiana. Dom Quixote tem no Sancho Pança o seu fiel escudeiro. Sancho adere pouco a pouco ao mundo de aventuras da cavalaria andante. Em Quincas Borba, do Machados de Assis, o protagonista cria uma filosofia “ O Humanitismo” e tem na personagem de Rubião um discípulo e continuador de sua obra filosófica. Os ideais da cavalaria são nobres e o D. Quixote luta contra as injustiças do mundo, lutando contras os gigantes personificados nos moinhos de ventos, salvando as frágeis donzelas raptadas, etc.

Nobre, também, é o Humanismo de Brás Cubas que igualam fracos e fortes. Em todos os seres humanos prevalecerá uma forma superior de vida que é o “Humanitas”.
- E que Humanitas é esse?
- Humanitas é o princípio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto, meu caro Rubião; falemos de outra cousa (cap. VI).

Aos poucos Rubião vai entendendo a filosofia do Humanitas, assim como Sancho vai entrando no mundo de fantasia e verdade de seu amo Quixote. É através do dialogo que o Quixote transmite a Sancho os valores da cavalaria andante. Assim como Brás Cubas transmite a Rubião os preceitos da Humanitas.

Vês este livro? É D. Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.

No século XIX só uma pequena parte da população brasileira cultivava a literatura. Impressiona a cultura de Machado de Assis. Impressiona a grande literatura que ele conseguiu produzir num ambiente inculto e pobre. Na biblioteca do Bruxo de Cosme Velho existia um exemplar em francês do Dom Quixote de la Mancha, e um outro exemplar das Novelas Exemplares de Cervantes. Machado é, com certeza, um grande leitor dos escritores Ingleses e Franceses. Sterne, Fielding, Montaigne e Voltaire estão entre seus escritores preferidos. O grande escritor mexicano Carlos Fuentes é um assíduo e recorrente leitor de Cervantes. Fuentes observa que Machado de Assis foi o único escritor da América Latina – no séc. XIX, a seguir os passos do escritor Miguel de Cervantes. Isso se explica pela hispanofobia dos movimentos de independência dessa região.
O escritor é um sujeito crítico do seu tempo. Dom Quixote e Brás Cubas são personagens que espelham verdades históricas. A literatura e arte refletem a sociedade e costumes de uma determinada época. Cervantes é um escritor típico do renascimento e do grande século de ouro espanhol. Sua literatura continua exercendo uma grande influencia na literatura e arte brasileira. A compreensão e estudo dessa literatura ajudam nos estudos da gênese e intertextualidade da nossa literatura, que tem em Machado de Assis um dos seus principais artífices.

UMA GRALHA NA VIDA DO MACHADO

O livro é uma das maiores invenções da humanidade. Com uma história de mais de meio milênio. No Brasil, ele completa 200 anos. O livro é fonte de sabedoria e prazer. Muitos o colecionam e fazem do livro um verdadeiro objeto do desejo e da cobiça. São várias as razões que fazem um livro se tornar raro. Uma edição limitada, ilustrada, esgotada, antiga ou com alguma particularidade na sua edição, encadernação e conteúdo. Alguns erros de português, de digitação ou gralha tipográfica podem arruinar um livro e fazer a ruína emocional e profissional de algum escritor. Muitos livros foram renegados e destruídos depois de descoberta algumas dessa falhas.

Na vida literária do nosso maior escritor aconteceu uma dessas fatalidades que muito o magoou. A edição das poesias completas do Machado de Assis, pela editora Garnier em 1902, saiu com uma gralha tipográfica que obrigou Machado a recolher todos os livros e corrigir o pequeno erro com a mão. Alguns livros não conseguiram ser recolhidos e ficaram com o erro fatal para o grande artífice da língua portuguesa.

No belo prefácio à edição de suas poesias completas, Machado escreve:

Advertência

Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior é que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos três publicados Crisálidas, Phalenas, Americanas. Chamo ao último Occidentaes.

Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli. Supprimo da primeira série algumas páginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Suprimo também o prefácio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diárias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes, menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flor da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.

Não deixo esse prefácio, porque a affeição de meu defunto amigo a tal extremo lhe cegara o juízo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro causal das datas, a daquelle, 22 de julho de 1864, e a deste.

Rio, 22 de Julho de 1900.

Em 1864, Machado estava com 25 anos, e recebeu 150 réis por exemplar de Crisálidas. No exemplar de 1902 de suas poesias completas foram deixadas de fora várias poesias de sua edição de 1864 das Crisálidas. Reproduzimos o famoso prefácio com a grafia da época para que o leitor aprecie o sabor e grafia do português escorreito machadiano.

Tudo estaria bem nesse prefácio não tivesse sido trocado o “e” por um “a”. Em vez de cegara o juízo, foi impresso “cagara o juízo”. Na nossa biblioteca tem um desses exemplares corrigidos à mão pelo próprio Machado de Assis. Não precisa dizer que esse é um livro precioso e raro. Um livro que orgulha a nossa biblioteca. Tudo isso faz do livro um objeto único e insubstituível. Um objeto do desejo de qualquer bibliófilo e amante de uma edição príncipes, uma tipografia, um tipo particular ou uma gralha.

Saudações machadianas em seu centenário,

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    COMENTÁRIOS

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    • Daniel Menezes: O direito autoral é a apropriação individual de conhecimento coletivo. Tipo assim, a sociedade trabalha para promover a cultura objetiva e depois, alguém, por um impulso social, produz algo. Afinal, uma sociedade sempre gera as questões que pode responder, já dizia o barbudo. Este "inventor" (expressão burguesa) não produz a "novidade" sozinho e nunca partindo do zero. Depois de feito, diz que aquilo é dele. Só muito aparato estatal para empurrar isso pela goela. - Pirataria
    • Ednar Andrade: Boa noite, Marcos, amigo, querido. Também acho maravilhoso reencontrá-lo. Já sentia a tua falta aqui neste espaço. Saudades. Eu sou, tu és, Rio corrente. Não demores. Beijos, querido. - Fio de luz
    • Regiane de Paiva: Não sei dizer o quanto este texto me emocionou. Aqui sinto a literatura e a vida. Cada metáfora ou descrição de um recorte da memória provoca uma sensação de nostalgia e de melancolia. Llosa afirma que nada ensina melhor que a literatura a ver a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-la como uma manifestação da sua múltipla criatividade. Desta forma, entendo que este texto é literatura pura! Literariedade, primor e encanto! Beijos in..... marido! - Da solidão
    • Regiane de Paiva: O título é a extensão do texto. A fala pueril dentro de um contexto como a política remeteu a uma bela reflexão. À medida que eu ia lendo o texto, ouvia uma voz de menino atrás dos meus olhos, parece que o menino conversa fitando o leitor... Texto maravilhoso! - Política de menino
    • Jarbas Martins: UM HAI-CAI PARA FERNANDO MONTEIRO A noite, com gesto brusco,/ roubou um naco da tarde/ e se esgueira pelo subúrbio. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Fernando Monteiro, sim. E o pouco que li de António Lobo Antunes. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Juan Ramón Jiménez, sim. E a boa tradução de Antonio Cícero. - Juan Ramón Jiménez: "Soledad" / "Solidão"
    • Marcos Silva: Não assisti à montagem de Roda Viva, eu morava em Natal na época. Li o texto, vi fotografias, ouvi depoimentos (inclusive de Anna Maria Martinez Correa, historiadora e irmã de José Celso, que acompanhou os debates sobre a agressão aos atores da peça). A peça foi recuperada na auto-vitimização de Marília Pera como justificativa para seu apoio à candidatura de Fernando Collor... Na época da encenação, atribuía-se a agressividade da peça ao diretor José Celso. Chico Buarque, com muita dignidade, declarou que o texto era integralmente dele. É difícil dizer para um autor o que ele deve ou não autorizar fazer em relação a sua obra. Roda viva existe como memória. Talvez seja legal pensar, hoje, numa peça sobre Roda viva (que tal uma peça sobre a invasão do teatro pelos terroristas de direita, que contavam com apoio de estado?). En passant, discordo de Alonso sobre a peça criticar APENAS a Jovem Guarda. É claro que ela aborda toda a indústria cultural, que lançou inclusive... Chico Buarque de Hollanda! Nesse sentido, é preciso explorar em profundidade as ligações entre a peça e canções posteriores, como "Agora falando sério" e "Essa moça tá diferente". - Zé Celso questiona decisão de Chico de vetar encenação de 'Roda Viva'
    • carlos de souza: devia liberar a biografia, que não tem uma sequer revelação que já não tenha em sua discografia e reportagens jornalísticas. punir um escritor sério por pura babaquice diminui sua aura de "rei", isso sim. - Roberto Carlos autoriza relançamento de seu disco "proibido"