Audiovisual

Mãe só há uma

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Depois de exibido no Festival de Berlim deste ano e estrear nos cinemas brasileiros em julho, “Mãe Só Há Uma” (2016, de Anna Muylaert) finalmente chega ao circuito potiguar na programação da sessão de arte da Rede Cinepólis. Ao suceder na filmografia de Muylaert o aclamado e debatido Que Horas Ela Volta? (2015), o longa-metragem Mãe Só Há Uma chega de certo modo envolta de uma certa expectativa, o que no geral ocorre na carreira de todo diretor com grande sucesso no filme anterior. Confesso que esse novo trabalho de Anna Muylaert me surpreendeu positivamente. Não que esperássemos que viesse um filme menor que o anterior, àquem em seu alcance e maestria estética, mas, ao contrário do que se poderia pensar, a diretora continuou optando não por uma grande produção mesmo à nível de Brasil ou por um filme atrelado a famigerada – e irritante – grife dos ditos filmes de arte e seus cacoetes. Com Mãe Só Há Uma, Muylaert nos presenteia com um pequeno filme, uma espécie de capsula muito bem controlada do início ao fim do seu percurso.

Quinto longa-metragem de sua filmografia, em Mãe Só Há Uma, Anna Muylaert conta a história de Pierre, que, no início da sua juventude, namora meninos e meninas, toca em uma clássica banda de garagem, mora com a mãe e uma irmã mais nova, frequenta uma escola de ensino médio, festas e, constantemente, colocá-se de frente ao espelho a se olhar tentando talvez se reconhecer ou quem sabe na busca apenas de instantes de contemplação do seu corpo. São momentos mágicos – momentos de profunda beleza e poesia. Pierre, como todo jovem de sua geração, tem um estilo bem particular, facilmente identificado com uma moda mais alternativa, outsider. Mas, em casa, Pierre se maqueia e se veste com roupas femininas, travestindo-se com outro corpo, com outra sensibilidade e olhar. Nesses momentos, em que o jogo ótico da câmera para o espelho, do personagem para o público que o contempla, se estabelece, Anna Muylaert não cai na obviedade que se esperava com um tema tão contemporâneo que envolve a discussão dos transgêneros.

A questão no personagem Pierre não é de identidade, quem sou e no que quero me transformar, mas apenas de contemplação – de instantes carregados de oticidade e de um certo narcisismo sem soar pejorativo. Frente à esse mundo particular, corporal e ótico, em Mãe Só Há Uma, Anna Muylaert cola sua câmera nos personagens, situações, corpos e espaços. A câmera acompanha Pierre, mãe e irmã na altura do olhar, próxima o suficiente para fazermos parte daquela casa suburbana de São Paulo. Apesar de pertencentes a outra matriz, não tive como deixar de lembrar do cinema dos irmãos Dardennes; e, naquela cena pelos corredores da escola com a câmera seguindo Pierre encostada na sua nuca, do modo de filmar do americano Gus Van Sant. Assim, em Mãe Só Há Uma, os planos são em sua quase totalidade fechados, trabalhados, praticamente, com uma escala em que impera rostos, detalhes, close-up, primeiros planos. Diante da câmera de Muylaert, o insondável logo se desvelaria, pois, desde o início, era como se algo tivesse que vir à tona, emergir, uma vez que não era nos dado espaço para vermos mais do que era possível em quadros mais retrato.

Nesse diapasão, como aquele mundo só nos era apresentado de forma parcial, a revelação de que Pierre e, em seguida, sua irmã tinham sido roubados na maternidade, só veio justificar uma opção por um certo modelo de filmar. Em Mãe Só Há Uma, Muylaert faz uma adaptação livre do conhecido Caso Pedrinho e, na busca pelas tensões e dramas humanos, relaciona com a questão da homofobia e dos transgêneros. É quando entram os momentos mais óbvios, talvez mais clichês e reducionistas do filme, onde a diretora Anna Muylaert, ao contrário de quando aborda Pierre e seu corpo longe das questões identitárias, deixa-se levar pelo esperado, com o drama dos pais verdadeiros e a reação homofóbica dispensáveis. Nesses momentos, a realidade vence a imaginação, a poética da inversão perde seu espaço e magia, mas, ao mesmo tempo, é preciso lembrar também que, em Mãe Só Há Uma, a realidade tem seus instantes de rara beleza e dor, como nas tocantes cenas de Pierre abraçado com sua irmã postiça (sic.) e, ao final, com seu irmão verdadeiro – ombro a ombro em cumplicidade e afeto.

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