Mais do que uma canção de despedida

Milena Azevedo
ColunistasMúsica

Composta em um bordel marroquino e um enorme sucesso nos 70s, música Seasons in the sun ganhou diversas versões, de Nirvana a Westlife; mas minha emoção recaiu sobre a releitura feita por Terry Jacks, com participação dos Beach Boys.

Fotografia de capa: Michael Ochs

Ao ouvir pela primeira vez a música Seasons in the sun, na versão do canadense Terry Jacks, senti um misto de tristeza e consolo.

A letra fala de um homem jovem e convalescente, despedindo-se de um amigo, do pai e da filhinha Michelle. Mas o tom de conformação e aceitação superava a dor daquela partida eminente, como os versos que dizem: “assim como as estações, o vinho e a canção se vão”.

Agora, ao reescutá-la, resolvi pesquisar sobre a mesma, pois a sensação de placidez evocada é tamanha, que pensei se tratar de algo verídico. Fiquei surpresa ao saber da curiosa história por trás daquela música, a qual envolvia até mesmo os Beach Boys (especificamente Brian Wilson e Al Jardine).

Veja aqui um comentário sobre o álbum Smile, dos Beach Boys

Tanger Marrocos

Fundada por cartagineses no séc. V a.C e distante apenas 14km da Península Ibérica, Tânger é um dos principais destinos turísticos do Marrocos; letra original era sarcástica e meio macabra, sobre um homem idoso prestes a morrer de amargura pela traição da esposa.

Origem da música foi em um bordel marroquino

Tudo teve início quando Terry Jacks ouviu a primeira versão em inglês da música Le Moribond, batizada de Seasons in the sun, gravada em 1963, pelo Kingston Trio (a letra original foi escrita pelo poeta e compositor belga Jacques Brel, e gravada em 1961), e sentiu vontade de reescrever alguns versos da letra e também fazer novos arranjos.

Le Moribond foi escrita num bordel, em Tânger, conforme o próprio Brel confidenciou a Jacks, e a letra original era sarcástica e um tanto quanto macabra, sobre um homem idoso, que estava morrendo de amargura pela traição da esposa Françoise com seu amigo Antoine.

Ele se despede deles e enfatiza que “estava partindo de olhos fechados, aqueles mesmos olhos que já haviam se fechado antes”, e tinha certeza de que Antoine “iria cuidar de sua esposa”; aconselhando-os a continuar se divertindo, rindo e dançando à vontade, após ele ser sepultado.

Jacks tinha motivos para regravar a música com as alterações que fez. Um grande amigo estava com leucemia, à época, a quem os médicos deram apenas seis meses de vida (mas ele morreu quatro meses depois de descobrir a doença).

Jacks ficou arrasado com a passagem do amigo e resolveu oferecer Seasons in the sun como um presente póstumo.

Perfeccionismo de Brian Wilson paralisou projeto

Após ter reescrito a última estrofe, mexido em versos e feito novos arranjos, ele levou a fita para Brian Wilson (seu produtor) escutar, e ajudá-lo a melhorá-la, pensando que a voz de Carl Wilson cairia como uma luva para aquela versão mais sentimental.

Porém, o famoso perfeccionismo do líder dos Beach Boys tornou as sessões de gravação exaustivas, estressando Jacks.

Brian Wilson

Terry Jacks procurou Brian Wilson (foto), o gênio indomável dos Beach Boys, para produzir nova versão de Seasons in the sun

Jacks abortou o trabalho com Brian Wilson e passou a bola para Al Jardine (guitarrista dos Beach Boys), que fez backing vocals na versão final, gravada pelo próprio Jacks, em 1973, através de seu selo Goldfish Records (chegando aos Estados Unidos pela Bell Records, gravadora que tinha em seu catálogo artistas de sucesso, como Barry Manilow e Lobo).

Música fez sucesso no mundo todo

Ninguém tinha ideia do quanto a música iria estourar, não apenas no Canadá, como também nos Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, França, Bélgica, Suíça, Áustria, Noruega, Alemanha, Holanda, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul.

Foram três semanas consecutivas no 1º lugar na famosa lista da revista Billboard, tornando-se uma das mais rentáveis músicas feitas no Canadá (foram vendidas mais de 285 mil cópias do single em questão de semanas), e chegando a vender 14 milhões de cópias do single pelo mundo a fora.

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Single vendeu 14 milhões de cópias em todo o mundo.

Apesar da deficiência vocal (ele mesmo não se considerava bom cantor), Jacks ganhou o prêmio Juno, o Grammy canadense, de Vocalista Masculino do Ano, em 1974.

No mesmo ano de sucesso meteórico, Brel, o compositor da música original, se aposentou, pois já vinha lutando contra um câncer, e faleceu em 1978 (que coincidência!).

O interessante é que Jacks manteve os créditos de compositor para Jacques Brel e Rod McKuen (que fez a tradução para o inglês, gravada pelo Kingston Trio), pois quando alterou letra e melodia, não tinha ideia do sucesso e dos royalties que viriam.

Com o dinheiro que faturou com sua versão de Seasons in the sun, Jacks comprou um barco (nada mais justo do que batizá-lo de forma homônima à canção) e começou a navegar pra cima e pra baixo, entre o Canadá e o Alasca. Nesses passeios, ele alega ter tido algumas revelações, até se tocar que tudo aquilo tinha sido obra divina.

Até o Nirvana regravou Seasons in the sun

Jacks desistiu da música, tornou-se cristão e ambientalista (iniciou uma luta contra as fábricas de papel canadenses, as quais acusou de destruir e despejar toxinas nas florestas – chegando mesmo a produzir e estrelar alguns filmes sobre o assunto).

E como ficaram os Beach Boys nessa história? Eles inseriram uma versão de Seasons in the sun no álbum Merry Christmas from the Beach Boys (com a primeira tradução de McKuen, mas com arranjos de Brian Wilson), que seria lançado no final de 1978, mas a Warner o vetou (algumas canções que estariam no álbum só saíram em 1998, no CD Ultimate Christmas, e Seasons in the sun foi uma das limadas).

As versões mais recentes não podiam ter sido feitas por grupos mais contrastantes: Nirvana, em 1993, (mas nunca lançada na discografia oficial) e Westlife, em 1999.

Boa parte dessas informações colhi no Song Facts, um site excelente para quem deseja conhecer a história de letras de músicas, de ontem e de hoje.

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Milena Azevedo

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