Mamãe, Lombardi e eu
14 de dezembro de 2009 às 14:43 - Comentar
O tempo passou depressa domingo e não se teve notícia de como Sílvio Santos suportou o primeiro programa sem Lombardi.
Tem gente que, mesmo depois de velho, consegue recordar a voz da mãe, durante a infância, cantando as músicas de ninar.
Felizes, eles. Se fechar os olhos e buscar num canto qualquer a voz de minha mãe, vou encontrar é o Lombardi, vendendo carro e os números do sorteio do baú.
É sim, triste, essa minha sina. Mas é, apesar de sina, minha. E está aí.
Pois Lombardi morreu depois dos muitos anos que nos separamos. Digo melhor: depois de muitos anos que abandonei a audiência do programa, tangido para outras urgências.
O programa Sílvio Santos havia virado um traço na minha memória.
Voltou agora, como se minha mãe cantasse baixo as música da minha infância. Voltaram, com a morte de Lombardi, os domingos de outros tempos, tão mais fáceis que estes.
Eu mais velho, os dias têm sido tão diferentes que falta tempo para celebrar, ainda que no silêncio, os mortos. Mesmo os distantes, como Lombardi.
Dias e dias um papel amassado no bolso da minha calça lembrava o compromisso: escrever sobre Lombardi.
Calhou agora, passado o luto, lembrar da voz que na minha infância marcou mais do que a voz da minha mãe.
Não culpa dela – certamente culpa minha, que tinha ouvidos e olhos mais sensíveis àquelas gargalhadas do Sílvio Santos, à curiosidade pelo locutor misterioso e às suas colegas de trabalho.
Eram para mim, e isso é a confissão de um coração de pedra, mais íntimos do que a voz da minha mãe.
Vi a foto de Lombardi nos jornais e blogs. Após sua morte, ganhou a fama. Curta, porém. Era narigudo, foi o que guardei. A voz dele também vai cada vez mais distante.
Dois dias depois da notícia, a sentença tácita, Getúlio às avessas: deixou a vida e não entrou para a história, a não ser a dos registros sentimentais do SBT.
Pois a vida segue, mesmo sem Lombardi. A minha, a de Sílvio Santos principalmente.
E se recordo a voz de Lombardi na minha infância e não a de minha mãe, o que há de mais triste nisso tudo é o flagrante de lesa-infância.
É pecado que não espero mortal. Ela ainda está aí, ao contrário do Lombardi da minha infância, e isso é o melhor de tudo.
Posso agora, mesmo depois de velho e ainda que não lembre mais dos concertos da minha infância, se é que existiram, ouvir hoje a voz mansa dela. Ela há de me pedir, com a graça de Deus: meu filho, tenha cuidado e tome juízo. (Publicado na edição de domingo – 13.12 – do Novo Jornal)


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