Mamãe, Lombardi e eu

14 de dezembro de 2009 às 14:43 - Comentar
Por Carlos Magno Araújo

lombardiO tempo passou depressa domingo e não se teve notícia de como Sílvio Santos suportou o primeiro programa sem Lombardi.

Tem gente que, mesmo depois de velho, consegue recordar a voz da mãe, durante a infância, cantando as músicas de ninar.

Felizes, eles. Se fechar os olhos e buscar num canto qualquer a voz de minha mãe, vou encontrar é o Lombardi, vendendo carro e os números do sorteio do baú.

É sim, triste, essa minha sina. Mas é, apesar de sina, minha. E está aí.

Pois Lombardi morreu depois dos muitos anos que nos separamos. Digo melhor: depois de muitos anos que abandonei a audiência do programa, tangido para outras urgências.

O programa Sílvio Santos havia virado um traço na minha memória.

Voltou agora, como se minha mãe cantasse baixo as música da minha infância. Voltaram, com a morte de Lombardi, os domingos de outros tempos, tão mais fáceis que estes.

Eu mais velho, os dias têm sido tão diferentes que falta tempo para celebrar, ainda que no silêncio, os mortos. Mesmo os distantes, como Lombardi.

Dias e dias um papel amassado no bolso da minha calça lembrava o compromisso: escrever sobre Lombardi.

Calhou agora, passado o luto, lembrar da voz que na minha infância marcou mais do que a voz da minha mãe.

Não culpa dela – certamente culpa minha, que tinha ouvidos e olhos mais sensíveis àquelas gargalhadas do Sílvio Santos, à curiosidade pelo locutor misterioso e às suas colegas de trabalho.

Eram para mim, e isso é a confissão de um coração de pedra, mais íntimos do que a voz da minha mãe.

Vi a foto de Lombardi nos jornais e blogs. Após sua morte, ganhou a fama. Curta, porém. Era narigudo, foi o que guardei. A voz dele também vai cada vez mais distante.

Dois dias depois da notícia, a sentença tácita, Getúlio às avessas: deixou a vida e não entrou para a história, a não ser a dos registros sentimentais do SBT.

Pois a vida segue, mesmo sem Lombardi. A minha, a de Sílvio Santos principalmente.

E se recordo a voz de Lombardi na minha infância e não a de minha mãe, o que há de mais triste nisso tudo é o flagrante de lesa-infância.

É pecado que não espero mortal. Ela ainda está aí, ao contrário do Lombardi da minha infância, e isso é o melhor de tudo.

Posso agora, mesmo depois de velho e ainda que não lembre mais dos concertos da minha infância, se é que existiram, ouvir hoje a voz mansa dela. Ela há de me pedir, com a graça de Deus: meu filho, tenha cuidado e tome juízo. (Publicado na edição de domingo – 13.12 – do Novo Jornal)

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante