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Maria Mula Manca

A galeria sentimental do Grande Ponto não comporta aspectos discriminatórios. Sendo a universidade de convívio popular, agasalha todas as figuras humanas com seus atributos e peculiaridades, plasmando as constantes sociologias.

Maria Mula Manca é um detalhe folclórico, integrado à paisagem evocativa do Grande Ponto. Portadora de gibosidade da coluna, obrigando-a a uma postura irregular e andar claudicante, que procurava equilibrar com auxílio de enorme bastão. Sua presença era infalível e intermitente, aparecendo, de forma revezada, ora na Rua Dr. Barata, na Ribeira, ora no cenário do Grande Ponto. Quando menos se esperava, ela se aproximava do grupo, não raro soltando suas piadas irreverentes. Ninguém procurasse contrariá-la, pois arriscava ser executada com seu famoso cajado. Dizem que exercitava uma vivência sexual fora do comum. No bairro humilde, onde morava, a molecada fazia fila para usufruir sua vocação dadivosa. Resultado é que, quase todos os anos, ostentava nova gravidez, como fruto eugênico do amor campal. Nas eleições de 1958, Cláudio Siminéia, militante político das hostes pessedistas, saiu candidato a vereador de Natal. Iniciou a propaganda com uma enorme faixa esticada no espaço aéreo do Grande Ponto, ostentando dizeres promocionais de sua candidatura. Uma forte ventania derrubou uma das extremidades, dando ensejo a Maria Mula Manca arrancar a parte restante, conduzindo-a ao seu casebre. Informado da apropriação indébita, Flávio Siminéia não teve alternativa, senão se dirigir com urgência ao barraco de Mula Manca, onde encontrou a mesma, tesoura em punho, recortando o enxoval humilde, tarjado de propaganda política, com que pensava agasalhar o futuro rebento da fornicação coletiva – sem direito, sequer de lhe identificar o pai. Imagino a luta, na recuperação do trapo de fazenda. Siminéia buscando resguardar o livre direito de propaganda, obviamente antes da lei Falcão. Maria Mula Manca, lutando pelos direitos adquiridos, em proteção ao filho que iria nascer, em tempo de política, em clima de agitação, cenário conflitante, entre a euforia dos orçamentos promocionais e a submissão de sua expectativa, na geografia da miséria.

Falava-se que teria pleiteado determinado favor ao então governador Sílvio Pedroza. Como este não cumprira o prometido, Mula Manca comparece à sua residência, aproveitando uma brecha, na sequência de visitas, para largar a brasa. Escorada ao bastão, curvada, não por atitude de mesura, que ela desconhecia e sim pela contingência da distorcia lombar, ela deita a bronca em cima do “governador-galã”: – “Dr. Sílvio, o senhor não cumpriu o que prometeu… Não quer mesmo nada. Só tem safadeza com esta carinha de moça bonita!…”
Toda cidade que se preza tem seus tipos populares, enriquecendo o conteúdo humano da paisagem folclórica. Moçoró também é pródiga no surgimento destas figuras. Zé alinhado, Mané Cachimbim, Pé Ôco, Benício Gago, Regina do Caroço, Maria Pata Choca e tantos outros, já cadastrados no acervo folclórico do escritor Raimundo Nonato. Maria Pata Choca foi objeto de recente perfil traçado pelo escritor Raimundo Soares de Brito, transcrevendo, aliás tópicos de meu livro – Posta Restante – em que relembro episódios pitorescos, envolvendo a popular figura, em uma inusitada ceia de aleluia, em que participava na companhia de amigos, na Zona boêmia de Moçoró.

As figuras populares quase se eternizam nos corredores da tradição oral. E Maria Pata Choca era uma destas fontes inesgotáveis, na espontaneidade dos repentes, na agressividade das reações em sua personalidade, talvez psicopática, mas totalmente liberta de máscaras. Em certo momento, ela teve um filho no Hospital de Moçoró, antes de haver maternidade naquela cidade. Apareceram umas mocinhas de família conhecida e destacada, em visita à enfermaria. Quando viram no berço humilde, a criança, saudável, bonita e aloirada, entraram em transe de instinto materno, comum a toda mulher normal. Exclamaram a um só tempo – “que criança linda!” Uma delas se antecipou

– “Dona Maria me dê este menino para eu criar!” E Pata Choca, sem pestanejar: – “Não se faça de besta, sinhá égua. Se quiser filho, faça como eu. Vá ralar a bunda nas pedras quentes!…”

Maria Mula Manca era a versão natalense de Maria Pata Choca. Apaixonada nos impulsos da cupidez, mesmo que fosse conduzida a queimar a “poupança” nas pedras quentes dos barrancos. Mas nutria outra paixão, tão violenta e dominante, quando à sensual. Era a paixão de natureza política, que assumia com veemência e agressividade, logo que se definiam os campos de luta. Não conhecia a atitude neutral, tão comum à gravitação dos mornos. Atuante, destemida, atrevida até, promovia suas convicções políticas com todas as forças de convencimento, além das fronteiras de suas limitações – além mesmo das convenções promocionais permitidas. Nem sei se seria eleitora, o que representaria de menos. Sua capacidade de pregação, a seu modo, era bem mais útil ao setor político beneficiário, do que a computação do seu voto individual. Desde as arruaças do Grande Ponto, em que ninguém a excedia em pregação violenta, agressiva, até as ruas esburacadas e escuras de seu bairro operário, onde ninguém ousava discordar do jargão promocional, em defesa de seus candidatos.

A paixão política de Maria Mula Manca defrontou percalços, declinando até a derrota nas urnas de 1960, quando seu candidato a governador foi vencido pelo adversário. Acirrou as paixões até às últimas consequências, não logrando a vitória de Djalma Marinho – esgotando sua capacidade emocional de assimilar a derrota. Foi a frustração da guerreira, antes de ser a frustração de considerável parcela consciente da coletividade potiguar. Jurou no Grande Ponto que não ficaria mais em Natal, levando para outras terras as agruras dos desalentos. Sou informado de que Dinarte Mariz lhe teria fornecido as passagens, com que viajou para a cidade de Santos, onde terminaria sua jornada definitiva. Lá, morreu há cerca de 2 anos, cumprindo os dispositivos de sua determinação irrenunciável. Deve ter desaparecido, sem abrir mão das peculiaridades da aura popular. E por que não dizer, de sua condição liderante? Sim, porque liderança não é mera improvisação de bonecos privilegiados. Liderança é um despertar de qualidades intuitivas, vocacionadas no exercício de influências espontâneas. É ato de coordenação e envolvência pacífica sem o subterfúgio das imposições. Existe liderança nata, das mais sofisticadas às mais humildes formas da participação humana.

Como ainda persiste a figura plástica do líder biônico – descaracterizado na impostação artificial dos mandatos, vazio na dimensão de valores, na carência imutável de vocação.

(Texto retirado livro SOCIOLOGIA DO GRANDE PONTO, de Raimundo Nunes, edição A União Cia. Editora, João Pessoa/PB, 1985, páginas 141 a 144)

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