Geral

“Mattinata”, ou a tempestuosa melancolia de uma manhã que ir(rompe)

“Estou longe de tudo.” (Fernando Monteiro, in “Mattinata”)

“As noites esperam as manhãs com medo.” (idem)

“Mattinata, ó manhã noturna/de radiosa desesperança.” (idem, ibidem)

O novo livro de poemas do escritor, crítico de artes e cineasta pernambucano Fernando Monteiro, publicado em feliz parceria entre as Edições Nephelibata (SC) e a Sol Negro Edições (RN), é, em tudo, original. A começar dessa parceria entre editoras que não se encontram no rol das que priorizam os aspectos comerciais da circulação dos livros.

O livro vem, assim, assumir por si só e fisicamente, a condição de objeto de arte, confeccionado artesanalmente e numerado, numa edição reduzida, como sói para esse tipo de edição especial. E mais um luxo: conta com uma belíssima ilustração de capa feita por Francisco Brennand, um dos maiores artistas vivos do Brasil (mencione-se, en passant, que o quadro original estava exposto no lançamento em uma livraria de Natal, no último 17 de maio, data que coincidiu com o aniversário do autor).

Por outro lado, através da análise do texto, percebe-se uma potência em estranhamento, um grito que pontifica toda uma filosofia (também presente na escolha editorial) que Monteiro quer fazer valer através da sua peculiar estética literária. Não há laços, a não ser os da erudição e da beleza. E há muitas rupturas. A ruptura estética, a ruptura ética com um padrão eleito pela cultura de massas, a ruptura simbolizada pela própria separação que a manhã anuncia para o casal do primeiro e longo poema que dá nome ao livro (os outros dois poemas do livro são intitulados “Escritos no Túmulo” e “E para que ser poeta em tempos de penúria?”), a ruptura civilizatória, a ruptura revelada na morte e na tumba (destino de todos nós).

Por menos que se conheça a obra completa de Monteiro, forjada – dentre outras pérolas literárias e artísticas – por romances e outros longos poemas, percebe-se no livro atual um elemento que pode ser lido de forma autônoma, contundente e definitivamente radical: um definitivo protesto contra a cultura de massas. Em conversa com o autor de Mattinata, falava-nos acerca de uma palestra – a que esteve presente – do célebre cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini (morto tragicamente por desafiar o “status quo” italiano e denunciar a falência do sistema ético-estético europeu). Pelo conteúdo dilacerante e poderoso da fala de Pasolini (conforme o que relatado por Monteiro), talvez aquele tenha sido um dos principais momentos, o gérmen, um divisor de águas, ou mesmo tenha trazido mais elementos e a chama mais forte para o clareamento de uma visão, de um pensamento que Monteiro expressa agora, e com destaque e profundidade, no seu novo livro.

Não há como negar: o livro de Monteiro nos traz uma filosofia, uma maneira muito peculiar de expressar, através da arte, da literatura, da poesia, um mundo idealizado. Há, na voz poética de Monteiro, um inconformismo ácido, corrosivo, mas que não se deixa alijar da beleza. E o curioso é que, aparentemente tão diferentes os três poemas do livro, unificam-se numa só linha de pensamento ético e de criação artística. Não estão separados, mesmo que pareçam, por tratarem de temas tão díspares, a priori, como uma relação de amor desfeita, o retorno às ruínas imemoriais de uma in(civilização) e um poema-manifesto contra os lances comerciais que determinam a decadência e a vulgarização de conceitos artísticos e humanos, algo que “está escrito no diário/que será esquecido num navio/afundado na mais funda fossa/dos oceanos da infelicidade”.

Talvez, duas palavras sejam determinantes para unificar os três poemas: RUÍNA e RUPTURA. Uma espécie de ruína que não se anuncia na noite dos nossos pesadelos (“O que houve com a noite?/Por que ela foi embora? Enquanto a noite durasse…), mas numa manhã de algaravia de pássaros, ruidosa e luminosa (mesmo que com chuvas que se anunciam), mas não menos trágica, não menos melancólica, banhada na incomunicabilidade humana. E contra essa ruína Monteiro sugere a opção pela ruptura.

É contra o desconforto dessa manhã global (porém, não universal, posto que há uma visível contradição entre os conceitos fundantes) e esmagadora, que essa voz altaneira, de um escritor sensível (à flor da pele) e em nítida e arrojada revolta contra os grilhões da sociedade de massas, propõe uma ruptura radical e busca um novo e impetuoso caminho contra o falso Iluminismo que vivemos nestes dias. E não somente para ele. Não se trata de um caminho egoístico, solitário, mas uma luz, mesmo que temperadamente negra, que Monteiro busca aproximar dos objetos (quase todos tecnológicos, de massa, de consumo e consumação) de nossos dias, de nossas manhãs, de nosso tempo “de aves invisíveis/como o canário da infância”.

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Comentários

6 comments

  1. Jarbas Martins 20 maio, 2012 at 12:05

    Ainda não li este livro de poemas de Fernando Monteiro, Lívio. Como não gosto da vida literária, não costumo ir a lançamentos de livro.Expliquei-me por telefone ao poeta. Gosto da sua pesia e já externei isto por diversas vezes, aqui e no Facebook. Mas não com tanta clareza como você e Nelson Patriota. Falou e disse, companheiro. Espero que você esteja no Festival Literário do Semiárido de Angicos – que virá em seguida ao Festival Literário de Pipa – dizendo teus poemas.Renunciarei à minha clausura e estarei lá para ouvi-los.

  2. Lívio Oliveira 20 maio, 2012 at 12:50

    Jarbas, amigo e compadre, o livro de Monteiro merece urgente leitura. É um libelo, uma porrada, um tivuco de duas toneladas na boca do estômago de todos nós, que pensamos livremente acerca da cultura e da arte.

    Mas, permita-me, caro Jarbas, dizer que o seu comentário nos vem embebido das águas da cultura de massas contra as quais se levantam as palavras poéticas de Monteiro. Estamos todos mergulhados na massificação dos orcutes, tuíteres e feicebuques da vida? E nos festivais?

    Eu só posso lhe afirmar que renunciei, tempos atrás, a toda essa algaravia (apesar de, vez ou outra, eu ser chamado – rude e injustamente – de barulhento, aqui no blog). Mantenho minha participação num blog como este por considerá-lo algo artesanal e democrático (mas, sem o apelo totalitário de massas). E sobre festivais e encontros (que não são mais desencontros literários), ando renunciando a tudo isso. Já participei demais da conta. Quero mais não. Se eu for a Pipa é para comer um bom peixe, tomar uma e ficar numa rede à beira do Oceano Atlântico, com gente só da boa e do bem, assim como é você. E se tiver um bom açude em Angicos, idem, ibidem.

    Quanto ao lançamento de Monteiro, refletiu o conteúdo desse libelo sobre o qual estou falando no meu texto acima. Foi, mais ou menos, como nos nossos encontros na Cooperativa do Campus, Jarbas. Um tête-à-tête verdadeiro, autêntico, para poucos. Diferentemente dos barulhos performáticos que se ouvia naquela noite natalense e quixotesca.

    Sim, acabo de me lembrar da bela frase de Geraldo Vandré: “A vida não se resume em festivais.”

    Um abraço, velho compadre. E continuemos em nossos exílios voluntários. Ouvindo os pássaros da noite…

  3. Fernando Monteiro 20 maio, 2012 at 16:50

    Lívio,

    sua penetração no cerne do “Mattinata” é, até esta data, sem paralelo no que já apareceu escrito sobre o livro (cinco ou seis
    vozes, ao menos, entre a minha querida-luminosa Natal e o
    meu querido-difícil Recife)…

    Valeu lançar o livrinho primeiramente AÍ (e não sei, ainda,
    se lançarei AQUI, na minha cidade rendida às bienais e às “fliportos” e outros fliperamas da — coitada! — literatura), tendo escolhido lançá-lo às margens do Potengi e não do Capibaribe, POR ADMIRAÇÃO de amigos já falecidos (Franco Maria Jasiello e Luiz Carlos Guimarães, por exemplo) e amigos graças aos ceús vivos — vivíssimos — como Vosmicê, o Nelson Patriota, o Tácito Costa, o Woden Madruga, o Pedro Vicente Sobrinho, a Marize Castro,
    o Carlão e outros e outros…
    PS: Sobre a SUA especial vitalidade de visão, basta que se leia a resposta acima, ao poeta Jarbas Martins, sobre festivais, encontros (ou “desencontros”?) às vezes literariamente perfunctórios — desculpe pela empoeirada palavra — enquanto, violenta, corre lá
    fora a vida, nas praias de Óstias [do trucidamente de Pasolini],
    cá nas Boas Viagens cínicas e na Pontas Negras de Pipas voando
    num céu que NÃO, não nos protege nem nos interessa.

    OBRIGADO, enfim! E continue a degustar peixes de águas limpas, Poeta Lívio, e a ouvir “os pássaros da noite”, sim, antes das madrugadas e das manhãs frias do mundo.

  4. Lívio Oliveira 20 maio, 2012 at 17:16

    Monteiro, para mim aquela noite (e esta Mattinata) têm o mesmo significado que o seu encontro com Pasolini. A minha gratidão eterna por isso!

  5. Lívio Oliveira 22 maio, 2012 at 06:30

    Estou feliz com a repercussão que esse nosso texto sobre o belo livro de Monteiro está obtendo por aí.

    Monteiro tem – gentilmente – me mantido informado. A última notícia nos dá conta de que uma das mais prestigiosas revistas literárias de Pernambuco – a EUTOMIA, da Universidade Federal de Pernambuco – repercutiu a resenha, na segunda-feira passada. O endereço eletrônico: http://revistaeutomia.blogspot.com.br/

    Fico feliz, por Monteiro, por mim e pelo SPlural.

  6. Jarbas Martins 22 maio, 2012 at 08:39

    Vai aqui minha resposta tardia a Fernando Monteiro.Olha, Fernando:vou ler seus poemas no Festival Literário do Semiárido de Angicos.E vou falar pros meus conterrâneos sobre seu cinema, a pedagogia de Paulo Freire (tinha que ter outro pernambucano nesta história), ler um soneto sobre o Capitão Jota da Penha (que eu dediquei a Aluízio Alves e Woden Madruga), e ler um trecho de um miniromance meu (foi Mario Ivo que me descobriu como romancista) e…Bom, isso (ou isto ?) se o Rilder Medeiros me convidar.. Vou tentar conversar com ele.Mas acho que é mais fácil escalar o Cabuig de joelho ao meio dia em ponto.

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