Meio Fio

20 de maio de 2010 às 18:52 - 2 Comentários
Por Cláudia Magalhães

www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com

Há dias que possuem vida própria e são dotados de uma consciência má, hábil, que adora o perigo das coisas subterrâneas, de tudo o que nos causa espanto, nos fazendo em poucos segundos beber a beleza e vomitar os desejos de uma vida inteira. Em mais um desses dias, sentado no meio fio, ele mergulha a mente na idéia de felicidade, aproveita a distância da mulher amada, toma por vezes o seu lugar, moldando-a de tal forma que ela atenda a todos os seus desejos e, em menos de uma hora, mesmo ausente, ele jura ser capaz de apalpá-la.

O barulho de algumas pessoas se aproximando o faz voltar a realidade e ela escapa dos seus pensamentos. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras que experimentara pela primeira vez na noite anterior junto àqueles mendigos. Ela lhe permitiria ir até o outro lado do mundo. Lá, vestido com elegância, encontraria o seu amor em algum sonho, a cobriria de flores e depois ficaria em silêncio até acalmar o espírito. Pega a garrafa de cachaça e toma um gole. Aquela seria a última garrafa, depois voltaria pra casa. As pessoas que passam o olham com desprezo. Idiotas! Imbecis! O que eles sabem sobre o amor?, pensa vendo o Sol se aproximar da sua cama de papelão improvisada no canto da parede. Há quanto tempo estaria naquela rodoviária? Seriam dias, meses ou anos? Perdera a noção do tempo. Estava exausto, não pregara o olho a noite inteira e a dor de cabeça que sentia lhe queimava o juízo. Vê o primeiro ônibus da manhã chegando. Hoje eu volto pra casa. Essa é a última garrafa. Vou voltar e passar um ano sem beber!, pensa tomando mais um gole da bebida.

Levanta e vai em direção ao banheiro. Observa, por alguns segundos, a sua imagem no espelho quebrado. Uma imagem tão distante do homem bem-sucedido de algum tempo atrás. Vê o rosto oleoso, a barba cheia e o olhar triste. Sente uma enorme vontade de se esconder, uma forte angústia no peito. Lava o rosto, as mãos, joga água nos cabelos longos e sujos e se penteia com os dedos. Toma o último gole da garrafa e a joga no lixo. Pronto. Aquela foi a última, agora voltaria pra casa. Sai do banheiro catando no bolso algumas moedas que mendigara na noite anterior e compra um pastel de carne. Sente a massa entalada na garganta. Força-se a comer, precisa aliviar a dor no estômago. A cada minuto a sua angústia aumenta. Sente-se depressivo, torturado. Preciso beber algo, pensa catando algumas moedas no bolso. Compra mais uma garrafa de cachaça, prometendo a si mesmo que aquela seria a última, depois pegaria um ônibus e voltaria pra casa. Senta no meio fio e começa a beber. Sente-se eufórico, leve e, de certa forma, feliz. A angústia desaparece dando lugar a uma imaginação rara, sem alicerces no tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Uma imaginação de algum lugar sagrado dentro dele, que desconhece ou ignora o seu drama. O rosto da amada lhe aparece, evocando todas as palavras que lhe são caras: amor, perfume, prazer, paz, sonhos… Ele mergulha a cabeça num mar vermelho de desejos e ao sabor da bebida, ela faz amor com seus demônios e tem filhos. Centenas deles.

O Sol já se despede enquanto ele observa a garrafa vazia. Sente um medo terrível. Tudo o que não vem de dentro dele o assusta, é pequeno, sujo. Gosta da solidão da bebida, de viver o que não existe. Ele ama. Cata as últimas moedas do bolso. Tinha o valor exato da passagem do ônibus. Agora eu volto pra casa, pensou mais uma vez. É isso. Voltaria e começaria uma nova vida. Ela se foi e deve estar feliz com isso. Não iria sofrer por ela. Vadia e fútil, com certeza já estaria seduzida por uma beleza nova. O mundo é tão grande… Mas o seu coração recusa a desprezar o que ama e se põe inquieto. Prepara dentro dele um buraco cheio de abandono, amargura e desilusão e misturado a esses monstros só pensa em lhe ferir. Ele chora. Chora porque procura aquela que perdeu, mas aquela que perdeu não o procura. Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama. Precisa de uma bebida. Ela o ajudará a sentir melhor. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras…

Pega o dinheiro no bolso e compra mais uma garrafa. Senta no meio fio e toma um gole. Esta é a última, depois eu volto pra casa, pensa vendo os seis mendigos se aproximando ao longe. Seis, seu número da sorte. Ao menos passou a ser depois que a conheceu, constatou sorrindo, sentindo a angústia, novamente, ir embora.

2 Comentários

  1. 21 de maio de 2010

    hoje ouvi na rádio a noticia de um gaúcho que ganhou 26 milhões na mega em 1997, salvo engano. agora ele tá tentando recuperar o emprego de gari porque gastou tudo. enquanto milionário desprezava todo mundo. tratava as mulheres por vadias, mas era das putas que gostava. esse é o alto da sua história. o baixo foi o crack, que jura ter abandonado.

    nos três primeiros anos de faculdade eu pesquisava pessoas em situação de rua. fiquei na cola (até literalmente.. rs) de cinco caras e duas moças, percebendo sua evolução e deslocamento. puta aprendizado. o lúmpen. se quiser poso te mandar por emeio, mas só quando meu pc chegar, né :s

    beijos.

  2. 21 de maio de 2010

    Nossa, bom saber disso, Nina. Manda, sim. Fiquei curiosa…
    Bom te conhecer, moça!

    Beijos, querida.

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AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar