Memória e mentira

10 de março de 2010 às 17:42 - Comentar
Por sergiotrindade

A definição mais sutil sobre memória e história foi a de que a história é política do passado. Não é possível justificar uma argumentação apenas com base apenas no relato superficial dos fatos. Os fatos só são essenciais por escolha de quem pretende produzir o conhecimento. Além disso, escrever história obriga a ação de interpretá-la. Nem mesmo a visão mais positivista e imparcialmente objetiva da história pode evitar a interpretação, no mínimo para uma seleção dos fatos considerados dignos de serem apresentados. A simples seleção dos fatos – essenciais ou não – já indica os caminhos por onde seguirá a argumentação. Como diz Le Goff, a partir da segunda metade do século XX, “entre a angústia atômica e a euforia do progresso científico e técnico”, voltamo-nos “para o passado com nostalgia e, para o futuro, com temor ou esperança”.

Quem pretende compreender um pouco de como as coisas aconteceram, há várias opções. Uma, porém, em minha visão, é das mais agradáveis. Conversar com os mais velhos. É impressionante como algumas pessoas dão depoimentos procurando expor de maneira fiel os detalhes de que foram testemunhas e/ou atores. Contam os detalhes dos acontecimentos passados há muito tempo como se tivessem acabado de vivenciá-los. Poucas enfeitam suas falas. E como os velhos fizeram a história que está sendo pesquisada, sentem-se como se tivessem, de acordo com Ecléa Bosi, “uma espécie singular de obrigação social, que não pesa sobre os homens de outras idades: a obrigação de lembrar e de lembrar bem”. Um aspecto importante ressaltado por ela, a partir de Halbwachs, é a “‘desfiguração’ que o passado sofre ao ser remanejado pelas idéias e pelos ideais presentes do velho”. Dessa forma, o velho teria a propensão a ver o passado com nostalgia. Enfeitando ou não suas falas, as pessoas sentem-se com o poder da palavra. Quando lembram o passado, o adulto ativo e o velho têm posicionamentos diferentes, visto que “para o adulto ativo, vida prática é vida prática, e memória é fuga, arte, lazer, contemplação. É o momento em que as águas se separam com maior nitidez”. Bem outra seria a situação do velho, do homem que já viveu sua vida. Ao lembrar o passado ele não está descansando, por um instante, das lides cotidianas, não está se entregando fugitivamente às delícias do sonho: ele está se ocupando consciente e atentamente do próprio passado, da substância mesma de sua vida.

Uma das melhores maneiras de reconstituir o passado é ouvir. Ouvir mais e melhor, pois só assim poderemos definir os desvãos de um período particularmente conturbado, em que as paixões e os ressentimentos turvam a verdade, apresentado em fragmentadas versões. Apreender a versão – se possível um número significativo de versões – significa encontrar aproximações múltiplas da verdade buscada. A memória é matéria-prima para os que trabalham com a História, e é nessa condição e não como produto final que deve ser trabalhada. É como espécies de slides que preservam as imagens de uma realidade que já não existe. Ao projetarmos os slides temos sempre as mesmas imagens, as mesmas figuras, mas as interpretações sobre elas serão diferentes, visto que a ação do tempo esmaece o passado, diluindo-o, principalmente quando remete há muitos anos. Acrescente-se que existe ainda a possibilidade de acontecer distorções ocasionadas, conforme Thompson, “pelas sucessivas mudanças de valores e normas que podem, talvez, inconscientemente, alterar as percepções.” A memória é um experimento que transforma o lembrado em lembrança, algo intrínseco ao ser que lembra e não mais objeto a ser lembrado. É através da memória que o discurso do sujeito se torna possível.

Na memória política, então, diz Ecléa Bosi, os juízos de valor intervêm com mais insistência. O sujeito não se contenta em narrar como testemunha histórica “neutra”. Ele quer também julgar, marcando bem o lado em que estava naquela altura da história, e reafirmando sua posição ou matizando-a.

É importante que estejamos atentos à performance de algumas figurinhas carimbadas do nosso mundo político que, atreladas, no passado, ao que houve de mais danoso na história do Brasil, tentam apagar, sorrateiramente, a cooperação que deram aos esbirros de um regime que destruiu a liberdade do povo e construir a imagem de um paladino dos ideais democráticos.

Estar de um lado e justificar a posição assumida é uma coisa. Falsear ou negar as posições assumidas é outra completamente diferente.

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    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante