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Metamorfose por obrigação

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Metamorfose por obrigação E era ali, naquele beco escuro, comendo lixo e tendo os ratos por companhia que ele vivia. Era um cachorro. O mais estranho dos vira-latas, o que às vezes atraía a atenção de alguns dos pedestres que passavam por ali. O pobre, vivia encolhido em seu cantinho. Nas noites frias, como era o caso desta, embolava-se em um canto ao lado da lata de lixo, e com muita esperteza, para alguém da raça dele, entrava dentro do artefato de lixo e se cobria com os detritos, deixando apenas sua cabeça pra fora.

Quando o dia amanhecia ele tentava a sorte. Saía para a vista dos caminhantes. Daquelas pessoas estranhas, de uma outra raça, uma raça que poderia facilmente mudar sua condição. Mas era um tipo egoísta de ser. Ninguém dava atenção a um simples cachorro vira-lata e todo sujo. Um animal faminto, fedido e indigno até mesmo de pena. Nada servia seus olhos de pedinte. De nada servia seu aspecto deplorável. De nada servia suas balbucias para chamar atenção, para ser notado ao menos por um segundo por aquelas entidades poderosas e egoístas.

Ele vivia no esquecimento. Em uma outra dimensão. Um lugar onde não passava de um inseto… Pelo menos não o haviam esmagado, ainda.

Quando tentava ser ousado, e puxava a barra das vestes de alguém, o que recebia em troca era um chute e alguns xingamentos. E era nessa hora que chorando, volvia-se a seu beco e procurava algo novo pra comer nas latas de lixo. Às vezes espiava as ruas e via alguns de seus semelhantes andando com seus donos, a inveja e o desejo preenchiam o seu corpo. Nessas horas de inveja, sentia vontade de atacar, de morder aquelas criaturas que o tratavam como não mais que os detritos que ele achava nas latas.
Por vezes quando desistia daquela luta por sobrevivência, daquela vida de miséria, e ficava em um canto aguardando a tão esperançosa

orte, ele ouvia o que Os superiores falavam. Será que eles não sabiam que ele conseguia entender o que diziam? Ou eles eram malvados e já diziam aquilo no intuito de feri-lo? Ele não conseguia responder, por isso apenas chorava em seu canto.

Como uma espécie podia ser tão cruel?

Ele lembrava-se de sua mãe. Ela fazia tudo para mantê-lo vivo e bem. Ele quase riu lembrando das coisas que já fizera com ela. Mas então lembrou-se do dia em que sua mãe já cansada da vida que estavam levando, resolveu fazer uma coisa que o aconselhara a nunca praticar, ela decidiu roubar. Não que ela fosse sem caráter, longe disso. O problema estava em sua situação, nas condições em que vivia. E se ainda havia alguma dúvida do quanto Eles eram malvados, essa dúvida acabou ali. A mãe, nada mais que uma criatura magrela e faminta que roubara apenas para alimentar sua cria, foi alvejada cruelmente, perfurada como uma folha de papel. Um grupo de quatro integrantes fizeram seu corpo de peneira. E ele foi obrigado a assistir enquanto as facas desciam em golpes consecutivos sobre seu corpo. E quando terminaram atingiram-no na cabeça. Acordou muito tempo depois já nesse beco, nesse lugar diferente, onde não conhecia nada e não passava de mais um cão nas ruas. E assim eram seus dias… Certa vez ele ouviu falar de um lugar pra onde “coisas” como ele eram levadas. Mas ele nunca se importou, não parecia ser um lugar para onde poderia ser levado… Ocasionalmente se pegava imaginando como as coisas seriam se ele tivesse nascido de uma outra mãe. Mas como isso não havia acontecido e nem poderia acontecer mais, aceitava sua condição e chorava em seu canto, embrulhado sobre o próprio corpo… Amaldiçoando em pensamento essa maldita humanidade que conseguia transformar ele, um simples menino de rua em um animal asqueroso… amaldiçoava essa metamorfose que o obrigavam a ser…

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