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Meu Navarro

Newton Navarro, Bilro (2)

Conversavam dois poetas. O tema era a manhã da criação. Newton Navarro pede a Renato Caldas que invente Adão e Eva sertanejos. O Poeta dos Carnaubais atende: “Adão foi feito de barro, mas você, Newton Navarro, foi feito de inspiração, dos passarinhos, das flores, das coisas feitas de amores, do luar do meu sertão”.

Eu o chamava de Meu Navarro. A apropriação amiga nasceu porque muitos ele era. E perdulário dos seus talentos, um esbanjava no ser, no dizer e no fazer. O desenhista, pintor, poeta, orador, construtor de saborosas histórias, que guardo com carinho.

navarro2NMavarro foi o primeiro a quem tive a coragem de mostrar sonetos antigos e os originais do meu livro “Lua 4 Vezes Sol”. Elogiou a economia verbal e o poema sobre Jó. Sugeriu que eu pedisse prefácio a Cascudo. Assim, foi iniciado o bem-querer que durou a vida toda.

Tempos depois, fui dirigir o Departamento de Documentação e Cultura da Prefeitura de Natal. Lá, ele pontificava ao lado de Paulo de Tarso Correia de Melo, Iaponi Araújo e Glorinha Oliveira, a voz, amor da Cidade. Um dia, um amigo de Navarro foi preso pelo regime militar. Ele protestou. Um Coronel irritou-se e afirmou que ele seria preso também. Devolveu a ameaça, chamando o fardado militar de picolé de abacate. O prefeito, Almirante Tércio Ribeiro, contou-me o fato e eu disse que era apenas falta de humor militarista. Que ele, um Almirante da mais antiga Arma, não iria permitir que seu funcionário, o grande artista de Natal, fosse preso por uma brincadeira. Tércio, admirador do artista, advogou com êxito.

Recebi do meu Navarro todas as alegrias. Ele foi o primeiro a desenhar o “Baobá do Poeta” ladeado pelo Pequeno Príncipe. Disse-me serem a força e a ternura. Fez, também, as ilustrações do meu livro “Natal, Poemas e Canções”. A surpresa ficou na capa: Nossa Senhora saindo de uma flor.

Navarro tinha predileções pelos escritores e pintores surrealistas. Contou-me versos surreais de um contador: “A mulé do meu patrão / tá pra morrer de uma dor / porque não fez um vestido / da fumaça do vapor”.

Navarro e o seu amigo Albimar Marinho levaram, de presente, ao Mestre Câmara Cascudo, um pássaro na gaiola. E fez a intimação: “Como você costuma fazer com as pessoas, dê liberdade ao passarinho”.

Quem quiser Newton Navarro vivo, reconhecível e pulsante, leia o ensaio biográfico de Sheyla Azevedo “Um anjo feito sereno”.

Por excelência, ele é o escritor e pintor das belezas do Potengi, o beira-rio sul e a Redinha. Fixou os seres humanos, pescadores, jangadas, a magia dos peixes dos mangues. Estas são razões pelas quais a Academia Norte-rio-grandense de Letras sugeriu – vanguarda de Valério Mesquita – que o seu fosse o nome da ponte estaiada, que liga a Ribeira à Zona Norte. Ele é hoje, pois, uma ponte. União e beleza da nossa Cidade.

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Diógenes da Cunha Lima

Comentários

1 comment

  1. José de Castro 2 junho, 2017 at 22:04

    Tive a felicidade de quando vim morar em Natal, nos idos de 1976, Navarro ainda era vivo… Pude conhecer e admirar sua obra quando ele ainda fazia seus emocionados discursos em eventos… Sua arte pictórica e literária é de uma singularidade incrível…
    Parabéns, mestre Diógenes da Cunha Lima por essa singela homenagem a esse artista múltiplo que fez pontes entre várias artes, por todas elas transitando com magia, encantamento e beleza…

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