Meu reino por uma tapioca

Tácito Costa
CrônicaDestaque

Vina faz a melhor tapioca com coco do bairro de Lagoa Nova. Sem coco, quem faz a melhor é a minha mãe, que aos 83, não admite que ninguém dê pitaco em sua cozinha. É carão, na certa! Eu, com muita boa vontade, mas sem talento algum, faço uma que lembra uma… tapioca. Mãe usa um processo antigo, deixa a goma de molho, e retira apenas o necessário a cada fornada, depois de secá-la. Usa apenas as mãos, já tentei imitar e me queimei, uso uma espátula pra “organizar” a massa na frigideira.

Nas feiras do Alecrim e de Lagoa Seca também se comem boas tapiocas. Domingo, eu saí a pé da Cidade Alta até Lagoa Seca pra comprar uma. A ideia era unir a caminhada, que eu já faço normalmente, neste dia, na Praia do Meio, ao prazer de comer uma boa tapioca.

Nas Rocas, na esquina da Padaria Estrela Dalva, e na rua de quem vem da Praia do Meio, também se comem excelentes tapiocas. As do Mercado da Redinha são famosas, principalmente pelo acompanhamento das “gingas” (peixinho parecido com a piaba). Mas eu tenho preguiça de atravessar a ponte e ir até lá.

Não é essa invencionice de “tapioca gourmet” de certos estabelecimentos chiques, pra pegar os bestas e turistas, que custam R$ 8,00 e até, acreditem, R$ 12,00. Quando eu falo pra mãe esses preços ela não acredita. Lembra que um quilo de goma custa R$ 5,00 e dá pra fazer mais de dez tapiocas.

Aqui na vendinha de Vina, que fica bem atrás do meu trabalho, custa R$ 2,00, mesmo preço das Rocas. Na Feira de Lagoa Seca sai por R$ 2,50. Na Redinha não sei quanto custa, faz tempo que não vou lá.

A essa altura não é preciso dizer que sou doido por tapioca. E cuscuz. Meus dez irmãos também. Fomos criados comendo essas duas coisas. Então, não poderia ser diferente. Em casa de mãe podem faltar água e energia, mas goma e massa para cuscuz eu duvido que faltem.

No ano passado viajei com um colega para cobrir um evento em Brasília. Ficamos um hotel de não sei quantas estrelas. No café da manhã uma extensa mesa, com umas 50 qualidades de pães, tortas, isso e aquilo. Fui pra lá e pra cá e meu amigo vendo meu aperreio perguntou o que se passava e eu respondi: “não tem cuscuz!”. Tapioca eu tinha certeza que não tinha, por isso nem falei.

Vina vende as duas coisas. Quer dizer, às vezes tem as duas coisas, outras não tem nenhuma. Digo brincando aqui para os colegas da redação que Vina merece um estudo. Deve ser a única capitalista no mundo que não gosta de ganhar dinheiro. Dias falta goma, noutros falta coco, queijo, pão… Mas ela não se incomoda, está sempre bem humorada e responde graciosamente, às vezes antes de eu perguntar: “hoje não tem coco”, ou “hoje não tem goma”.

Faz mais de 15 dias que ela não abre a venda, na salinha da sua casa, onde cabem apertadas duas mesas. Encontrei com o irmão dela ontem aqui perto. Ele me falou que ela foi assaltada, quando voltava para casa com a feira e depois pegou uma virose.

Uma maré de azar dessas que podem acometer a qualquer um de nós. Quando acontece, é resignar-se e esperar que passe. Mas do jeito que Vina sabota o capitalismo tenho receio que ela não abra tão cedo. Tomara que os meninos do MBL não saibam dessa ação revolucionária dela contra o mercado.

Sentindo falta das tapiocas dela. Volta, Vina!

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Telga 13 julho, 2018 at 17:24

    O Velho e o Peixe: a história do Bar mais velho de Natal e seu dono pescador.
    A tapioca de seu Pernambuco é a melhor, que me perdoe Vina. (rsrsr)

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