Meu signo combina com o seu

Tácito Costa
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Ilustração: Le Baiser Mougins (Picasso)

 

– Mutézia!

Era uma aposta alta e imprevisível. Os amigos não viam futuro naquela amizade entre dois seres de planetas tão diferentes. Embora a coisa deva acontecer de modo parecido em toda a galáxia, um dá as cartas, o outro joga o jogo. Ganhar ou perder faz parte.

Entorpecido, não via nada disso. Acreditava na soma das diferenças e identificação cultural, que os amigos estivessem equivocados e na previsão dos astros.

“Meu signo combina com o seu”, disse-me num dos nossos primeiros encontros, depois de saber que sou de Peixes.

“Eu sou uma ariana típica. Intensa, visceral, que vive o momento e não pensa no depois”, disse sorrindo.

Uma amiga comum nos apresentou durante o vernissage de Assis Marinho, no Solar Bela Vista. Isso se deu numa fase de penúria material em minha vida, embora de intensa atividade intelectual.

Tinha me formado em Letras e dava aulas no Município. Indicado por amigos fazia bicos como revisor, que reforçavam o salário de professor.

Por essa época, estreara com ‘Homens dormem, gaivotas sonham,’ livro de poemas ignorado pela crítica e elogiado por amigos e familiares. O que, aliás, é o modelo literário padrão de Natal.

Lembrei-me dessa outrora dileta amiga porque me mudei recentemente de apartamento. Colocando umas coisas em ordem, abri o envelope onde estão cópias dos e-mails que trocamos. Não sei por que fiz essas cópias. Não tenho cópias de e-mails de mais ninguém. Como parecem excêntricas cartas amorosas revisitadas anos depois. Difícil nos reconhecermos nelas.

Mas, essa correspondência, guardada há mais de 20 anos e que tem resistido a tantas mudanças de endereços e amigas zelosas, é a única prova de que tudo não passou de um delírio de verão, estação na qual tudo começou e acabou.

Nessa época eu morava em uma quitinete no bairro do Jiqui. Um primeiro andar, sem janelas, que mesmo ao meio dia, a lâmpada ficava acesa, tamanho era o breu. O térreo era ocupado por uma igreja evangélica. Nas noites de cultos e ensaios da bandinha gospel, o barulho não me deixava descansar e eu ficava banzando pela rua até a hora de ir para casa.

O maior luxo na quitinete, depois dos livros e CDs, era um frigobar, comprado em bom estado no Vuco Vuco, no Alecrim. Quando conheci Mutézia ela tinha acabado de se separar e recomeçava a vida. Não hesitei em lhe dar o frigobar. Passei um bom tempo, primeiro feliz e depois infeliz, tomando água morna.

Ela não era nem feia e nem bonita. Sedutora, sim. Compensava a falta de atributos físicos com inteligência e carisma. Baixinha, elétrica e falante, tinha opinião sobre todas as coisas que existem e já existiram sob a Via Láctea.

Meu segundo encontro com Mutézia, que na época deveria ter trinta e poucos anos – eu andava pela casa dos 40 -, ocorreu na Livraria Poti, pouco mais de uma semana depois que nos conhecemos.

Era um sábado de pouco movimento porque chovia desde cedo e quando chove o povo de Natal não sai de casa. Exceção, claro, do poeta Voltécio Assumpção. Fizesse chuva ou sol, ele percorria diariamente os pontos da cidade onde os literatos se reuniam.

Acabara de pegar o livro ‘Ascese – os salvadores de Deus’, do escritor grego, Nikos Kazantzakis. Lia a orelha quando Mutézia me abordou.

“Uma das leituras que me marcou”, disse, e sorriu de leve. “Você leu dele ‘Os irmãos inimigos?’

“Não!”

“Não? É um livraço, você tem de ler. O autor usa de uma crueza muito humana, ao relatar os horrores da guerra. O final é surpreendente, mas não vou contar porque você poderá vir a lê-lo no futuro.”

Intimidado, disse que conhecia alguma coisa do escritor. Já tinha lido ‘Zorba, o grego’ e também assistira no Cine Nordeste, o filme homônimo, com Anthony Quinn, num dos seus principais papéis no cinema.

Ela, contudo, aparentou desconsiderar isso. Eu deveria ter lido ‘Os irmãos inimigos’ e pronto. Deu tchau e foi mais para o fundo da livraria. Continuei checando os lançamentos e não vi quando ela foi embora.

Cerca de três semanas depois ocorreu na Galeria de Arte do Centro de Convivência da UFRN a exposição do artista plástico Thomé Filgueira.

De longe eu a avistei. Aproximei-me e conversamos. Sobre a arte de Thomé e a feita em Natal, depois alguma coisa de literatura. Senti que havia certo interesse mútuo, um clima, e arrisquei um convite para um café no Natal Shopping no dia seguinte, um sábado, estendendo o convite ao casal que a acompanhava, que já conhecia do meio cultural.

O papo no café foi ótimo. Literatura latino-americana, principalmente Borges, García Márquez, Córtazar, mas também música e cinema. A certa altura comentou-se na mesa sobre porque Borges não se dedicara também ao romance.

Lembrei que tinha lido algo a respeito no livro ‘Formas Breves’, do escritor argentino Ricardo Piglia, e pedi o e-mail dela para enviar o trecho que tratava disso, no capítulo ‘Novas teses sobre o conto’.

“Borges considera que o romance não é narrativa, porque é demasiado alheio às formas orais, ou seja, perdeu os rastros de um interlocutor presente, a possibilitar o subentendido e a elipse, e portanto a rapidez e a concisão dos relatos breves e dos contos orais”.

A indiferença de Borges em relação a Proust ou Thomas Mann vai por aí, segundo Piglia. “Mas não em relação a Faulkner, em quem percebe a entonação oral da prosa, o caráter confuso e digressivo de um narrador oral que conta uma história sem entendê-la de todo”.

Nesse primeiro e-mail, junto com o texto de Piglia, convidei-a para uma festa na Ribeira dali a alguns dias. A essa altura, parecia-me claro que aconteceria algo entre nós.

E não estava enganado. Descemos à Ribeira. Bebemos, dançamos, fumamos um baseado, coisa que nunca gostei, mas como estava no embalo encarei. Detesto o cheiro e não sinto nada fumando aquilo. Bem que gostaria de fazer a famosa “viagem”, mas até hoje não fui escolhido.

A festa foi em um daqueles galpões calorentos da Ribeira transformados em points imediatos e breves. Saímos chumbados, diretos para o meu apartamento. Aquele tinha sido possivelmente, o nosso décimo encontro. Por aí, não tenho certeza. O cálculo leva em conta o tempo que nos conhecíamos, cerca de um mês e pouco.

Devido ao calor e por conta da alergia crônica a ventilador e ar-condicionado, dormia em uma rede simples, também usada para minhas leituras.

Foi a primeira vez que trepei dentro de uma rede. Nosso estado etílico nos obrigou a doses extras de contorcionismos, mas a rede acabou tomando “a forma do nosso corpo”.

A urgência do desejo represada durante semanas de sedução atropelaram as indispensáveis preliminares. Eram pernas, braços, dedos e línguas demais para caber dentro daquele pedaço de pano com punhos, que não parava de balançar, dando a sensação de um navio à deriva sob fortes tormenta e alarido. Até que exaustos e mareados adormecemos.

O que é bom costuma durar pouco. Embora medir o tempo em certas circunstâncias seja relativo. Cinco meses podem valor valer mais que cinco anos. Algumas vezes tudo acaba de repente e sem explicações razoáveis, deixando-nos semanas, meses buscando razões que podem nem existir. Até que doídos e muitas vezes ressentidos, mas sentindo que a vida segue em frente, jogamos o desenlace na conta dos desencontros e do destino inexoráveis e levantamos âncora novamente.

O enlevo com Mumu, como a chamava na intimidade, durou cinco meses, 30 e-mails, quatro cartões e três presentes. Uma das lembrancinhas acabou logo, uma bermuda com cores havaianas. O amuleto indiano está na caixinha de madeira, onde guardo fotos, cartas e mimos dos amigos. O outro presente é este brinquinho vermelho na orelha.

Hoje eu vejo que se tivesse mais discernimento teria percebido em um dos e-mails que aquilo não iria durar. Difícil é ser ponderado no meio do redemoinho. Em resposta a alguma cobrança ou algo nesse sentido, Mutézia respondeu-me: “não cultivemos expectativas, vivamos o presente”.

Sem motivo aparente, ela foi ausentando-se até o dia em que falou que continuaríamos como amigos. “Você merece o imperecível”.

Talvez a psicanálise ou os búzios saibam onde nossos pés nos leva. Há poucos meses, depois de um longo período sem notícias, avistei Mutézia duas vezes num curto espaço de dias.

Precisei comprar umas coisinhas no Nordestão da Prudente. Raramente vou a essa loja. Prefiro a da Deodoro, que é menor e tem tudo o que preciso. Entrei pela seção de material de higiene pessoal. Peguei sabonete e creme dental e segui em frente.

Vejo-a de longe, enquanto me dirijo à padaria. Está ao celular. Decidi mudar o caminho e me afastar apressadamente. Confesso que na hora fiquei em dúvida, se a abordava. Em seguida pensei na impossibilidade de sustentar cinco minutos de conversa, apenas o que manda a gentileza. Como vai? E a família? O que tem feito? Notícias de Rionaldo (amigo comum que sumiu)? Seu irmão ainda mora em Sergipe?

Mesmo esse trivial variado e batido me cansou antes de acontecer. Bati em retirada, sem olhar para trás e para os lados.

No segundo encontro foi a vez de ela desconhecer-me. Estávamos no lançamento do novo livro do poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, na Cooperativa Cultural da UFRN.

Mutézia chegou primeiro. Ficou a poucos metros de mim, que conversava com o escritor Demétrio Diniz. Fiquei na expectativa, de esguelha, que ela me visse para cumprimentá-la. Esperei em vão. Saiu à francesa e nem me dei conta. Pensei: “deve ter sentido o mesmo que eu no supermercado”.

Há poucos dias, no Café São Braz, no Midway, uma amiga comum introduziu Mutézia na conversa, para adiante comentar que ela abandonou as velhas amizades. “Você e eu estamos entre os descartados”.

“Exagero seu. Mas essa renovação é boa. Embora aconteça com frequência quando somos jovens. À medida que envelhecemos se complica”.

“Sabia que ela nega ter ocorrido qualquer coisa entre vocês?

“Quem?”

“Mutézia, claro. Alguém está mentindo nessa história, teacher”, disse minha amiga, usando o termo carinhoso com que me tratava às vezes.

Resisti ao olhar inquiridor e respondi: “Pode ter sido uma outra Mutézia, um outro professor, para leitores de Borges isso não é improvável”.

“É verdade!”, assentiu.

E sem dar-lhe chance de continuar com aquela história puxei outro assunto que interessava por demais à amiga.

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Tácito Costa

Comentários

10 comments

  1. nelson patriota 17 janeiro, 2017 at 11:06

    Caro Tácito,
    quero parabenizá-lo pelo excelente conto meio autobiográfico – dá para rastrear fatos e observações espalhados texto afora. mas não é da própria experiência de vida que extraímos nossos melhores textos? A personagem Mutézia – parabéns pela originalidade do nome – é um número, como se dizia antigamente. a vidinha provinciana, sempre provinciana em que vivemos, está toda no seu relato autoficcional. a propósito, já é tempo de você reunir uns seus escritos que guardem certa afinidade, como Woden fez recentemente, , publicá-los em livro. isso permitirá que seus inúmeros leitores possam avaliar melhor seu verdadeiro lugar nas nossas letras, destino de todo jornalista obstinado com livre trânsito na literatura.
    abraços,
    Nelson Patriota

  2. Lívio Oliveira 20 janeiro, 2017 at 11:53

    É uma satisfação verificar o entusiasmo e a dedicação de Tácito ao conto. Tentarei acompanhar os que virão. Percebo que a veia do humor, quase ao ponto do sarcasmo, não se perdeu. E gosto desse tratamento, aparentemente despretensioso, que mergulha em cenas do cotidiano e de lá nos traz a graça servida em bandeja de prata. Quero ler mais ainda. Quero ver o livro todo. Parabéns, Tácito!

  3. Horácio de Paiva Oliveira 21 janeiro, 2017 at 08:44

    Parabéns, Tácito! Gostei do estilo ágil de seu conto. Coloquial, poético e entremeado de frases lapidares. Vou aguardar o livro sugerido pelo Nelson Patriota.

    Horácio Paiva.

  4. José Saddock 21 janeiro, 2017 at 19:11

    Falei que era MASSA, falo agora que é literatura. Um texto autobiográfico, uma chuva que se transforma em enxurrada e vem arrastando a vida. Mutézia, como disse Nelson Patriota, é um achado, uma delícia, simples como doce de coco. Um conto com sabor de livro. Parabéns, caro Tácito.

  5. thiago gonzaga 24 janeiro, 2017 at 12:40

    Caro amigo Tácito. Li seu conto , parabéns.
    Em alguns aspectos, seu conto me lembra os contos do Nelson Patriota, isso é bom, pois Nelson é um mestre pra nós, não é mesmo ?
    Vou pedir permissão à vc para publicar.
    Valeu.

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