Middlesex: onde está nossa diferença?

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Clássico da literatura americana contemporânea, Middlesex, de Jeffrey Eugenides, conta a história do hermafrodita Calíope, paralela aos fatos políticos e culturais do século XX; misto de saga familiar e romance de formação, livro ganhou Pulitzer de melhor ficção em 2003.

Preconceito e erotismo em alta voltagem.

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Eugenides foi secretário executivo de uma associação de poetas. Perdeu o emprego por escrever durante o expediente; Em Middlesex, ele brincou com a dubiedade no título.

Se você pesquisar por Jeffrey Eugenides, David Foster Wallace e Jonathan Franzen verá que o primeiro é o escritor menos citado dos três. O trio frequenta vários gêneros textuais e tem sido tratado como a fina flor da literatura americana nos últimos 20 anos – mais alguém?

O problema é que Eugenides não é só o menos comentado, ele é quase ignorado. Marcelo Rubens Paiva foi um que reclamou do vacilo. “Escritor que a crítica brasileira não lê e não gosta, um dos meus favoritos”.

O que influencia na baixa vendagem do autor no país. Ou seriam os temas abordados, nesta ditadura cristã em que vivemos?

Os três romances de Eugenides foram lançados pela Companhia das Letras de 2012 para cá. Comecei pelo mais recente, A Trama de Casamento, deixando os clássicos para a sequência.

Li As Virgens Suicidas em um final de semana e entendi o barulho da narrativa sobre cinco irmãs suicidas, desejadas pelos garotos da vizinhança – você já viu a adaptação para o cinema dirigida por Sophia Coppola?

Mas o choque veio mesmo com Middlesex, catatau com a história do hermafrodita (termo adotado no romance, não o atual e mais abrangente intersexual) Calíope Stephanides, vencedor do Pulitzer de melhor romance em 2003.

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Jeffrey Eugenides é descendente de gregos e irlandeses; seus três romances (Middlesex, As Virgens Suicidas e A Trama de Casamento) foram lançados no Brasil.

O erotismo de Calíope

Misto de saga familiar e romance de formação, a vida de Calíope é acompanhada em paralelo aos fatos políticos e culturais do século XX, desde a fuga da família Stephanides de um vilarejo entre a Grécia e a Turquia para os Estados Unidos.

Várias passagens têm alta carga dramática, como a labuta de ‘Callie’ em um inferninho de São Francisco ou episódios vividos pelos avós Eleutherios e Desdêmona, com desdobramentos para o leitor que abrem um talho na discussão sobre o elemento genético causador do hermafroditismo.

O casal turco vai para Detroit no auge como urbe, na década de 1920. O endereço é a casa de uma prima casada com um ex-presidiário, traficante de drogas e contrabandista de bebidas durante a Lei Seca.

Na cidade do automóvel, Eleutherios e Desdêmona presenciam fatos importantes do período, como a chegada da Nação do Islã na comunidade negra. Dos dois sairá a família que justifica o livro.

O erotismo está sempre presente e, preconceitos fora!, nos identificamos com as angustias de um adolescente em mutação. Calíope é a musa da poesia épica na mitologia grega.

Eugenides aqui explora a descendência grega sem didatismo, ao citar a lenda do Minotauro e de Tirésias, o profeta grego transformado em mulher, após matar uma serpente.

É assim que os arranjos são montados. Assim aparece o Obscuro Objeto na época de escola, alusão óbvia a Luis Buñuel, momento-chave na sexualidade de Calíope. E nos faz ver como já vivemos algo parecido.

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Livro ganhou diversos prêmios, além do Pulitzer de melhor romance em 2003.

Dubiedade em Middlesex

Eugenides foi secretário executivo de uma associação de poetas. Perdeu o emprego por escrever durante o expediente.

Viu a queda de Detroit nos 70s e 80s, e o fechamento do caixão na crise de 2008 – a cidade já foi a terceira maior e mais importante do país.

De origem greco-americana, costuma dizer que suas influências são autores judeus, como Saul Below e Philip Roth. Em Middlesex, ele brincou com a dubiedade no título, pois também é nome do bairro grã-fino onde Callie vai morar após o incêndio no restaurante do pai.

Em meio aos protestos raciais na cidade mitificada até pelo Kiss, Eugenides reviveu memórias de um hermafrodita francês do século XIX, cujo prefácio de uma das edições foi escrito por Michel Foucault. Foi como forjou um clássico contemporâneo.

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