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Minha língua é minha pátria

linguas

Por Regina Teixeira da Costa
Estado de Minas

O título desta coluna vem de poema de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa. Ele diz que o apego, o laço, não está na nação ou na terra, mas na língua. Ela é a referência máxima do sentimento nacional, da noção de pertencer a um lugar, a uma cultura. Em 2013, Luiz Antonio Ribeiro publicou no site Litera Tortura um estudo esclarecedor sobre a música Língua, de Caetano Veloso. “A língua é minha pátria/eu não tenho pátria/tenho mátria/E quero frátria.” Ribeiro diz que “a língua é sempre viva e deve ser celebrada por aquilo que ela manifesta: a cultura, a música, a arte, o pensamento, enfim, as subjetividades”. E ainda: a língua, representante da pátria, seria uma espécie de pai. Entretanto, conhecemos o português como línguamãe e Caetano propõe a língua frátria – irmã –, que esteja ao lado, e não por cima, numa hierarquia.

A língua é o nosso arcabouço cultural maior. Diz quem e de onde somos. A língua determina nossa linhagem, nossos hábitos e modus vivendi – sem ela seríamos incapazes de estabelecer laços. Ela sustenta nossos elos.

Ao visitar um país estrangeiro, cuja língua não dominamos, ficamos perdidos, sem chão. Não concorda? Vá pro Japão! Podemos tentar a mímica, porém nem todos são acolhedores e têm paciência com analfabetos, se podemos dizer assim dos que estão fora de uma determinada língua. Mas sem pátria, mátria ou frátria está.

Ganhei um livro incrível de uma amiga: Nova gramática finlandesa, de Diego Marani (Companhia das Letras, 2014). Ele nos revela exatamente a situação que descrevo acima. Encontrado inconsciente em 1946, um soldado ferido, tendo próximo de si uma japona (que saudades desta palavra) com algumas identificações de origem finlandesa, foi tomado como tal. Sequelado pelo ferimento na cabeça, desperta absolutamente sem memória, mas é reeducado como finlandês, como o dono da japona, porém nunca mais conseguiu ter conforto nesta língua estranha, nem se sentir parte dessa pátria, na qual não se reconhecia. A língua não saía de sua boca com naturalidade. Não lhe despertava intimidade. “Permaneceu impermeável à Finlândia como se bem no fundo uma identidade sepulta se recusasse a ser aniquilada e lutasse furiosamente para vir à tona.” Vagava sem conseguir retomar compromissos por sentir-se incapaz de saber que laços assumira em seu passado. Não podia se comprometer com outra vida.

Mesmo sem o saber, ele se percebia estrangeiro naquela língua em que um simples sopro, um ar saído da boca, podia mudar todo o sentido do que se dizia. Vacilava na língua estrangeira, era um estranho – solitário e sem identidade. Cantava com os finlandeses, vivia entre eles, tentava ser um deles, inutilmente.

Buscou fazer contato com famílias com o mesmo sobrenome encontrado na japona, porém nenhuma o reconheceu. Não darei maiores detalhes, porque tirarei do leitor o prazer da surpresa que o romance apresenta a cada página, com uma linguagem poética e literária magnífica.

Apenas usei a história para dizer que a língua nos faz pertencer, forja nossa subjetividade e por ela passeia o inconsciente. O inconsciente é estruturado como uma linguagem e por isso é na palavra que nos ancoramos e podemos, nos escutando, conhecer um pouco mais do estranho familiar que habita nosso corpo.

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Tácito Costa

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