Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir

12 de fevereiro de 2012 às 10:22 - 2 Comentários

Por Mário Bortolotto

Ela me ligou perguntando onde é que eu tava. Ah, ela sabia que eu tava num bar, não sei por que perguntou. Mas ela queria saber qual bar que era. Eu sou um cara previsível. Ou eu tô num bar ou tô nos outros dois. E ela chegou e eu a vi atravessar a rua com aquela elegância que era só dela e entrar naquele bar mal afamado que não estava acostumado a esse tipo de frequência. Mas naquele tempo ela não se importava de entrar num bar não condizente com ela pra me encontrar. Mas naquele tempo eu nem tinha real noção de que aquele bar não era condizente com ela. Eu sempre imaginava que se era condizente comigo, podia ser condizente e agradável pra qualquer pessoa. Toda a minha inocência vagabunda me autorizava a pensar dessa forma arrogante. Eu já tava no meu quarto whisky e juro que fiquei feliz por ela estar ali, era um tipo de felicidade que eu não sabia explicar. Na verdade eu ainda não sei explicar. Eu não sei explicar momentos felizes. Quem sabe fazer isso é o Odair José. Sou um cara que se aproveita de qualquer nocaute, de qualquer chute na boca ou de qualquer música do Lupicínio Rodrigues. Mas não sou bom nesse negócio de me sentir feliz. Não sei direito o que fazer com isso. Minha calça não tem tantos bolsos assim. Talvez por isso eu me sentisse “feliz” (acho que posso chamar assim), mas me sentisse totalmente inadequado, tipo carta no endereço errado. Mas eu pedi o quinto whisky e fui ficando relaxado. E os amigos foram chegando e a mesa foi ficando cheia. E eu brinquei que ela era minha namorada e deitei minha cabeça em seus seios. Naquele tempo eu ainda me dava ao luxo de brincar. Eles não entendiam de onde eu havia tirado tanta intimidade. E na verdade nem eu entendia. Acho que já disse que entendo pouca coisa, né? Acho que o quinto whisky me deu essa permissão. Mas aí outra delas chegou. Naquele tempo sempre havia outra. E outra. Que chegou logo depois. E eu gostava de todas elas. E eu gostava muito de todas elas. E eu nunca quis magoar ninguém e eu não me sentia a vontade. Minha vaidade de moleque irresponsável até curtiu aquilo, minhas andanças noturnas, minha distancia do que eu chamava de lar e meu sarcasmo diante de minha própria vida. Enfim, tudo me dava a devida permissão para me sentir meio orgulhoso do momento. Isto é, se eu não percebesse o pino saltando da granada, um vietcongue riscando o fósforo depois de sorrir de maneira sinistra, um abutre levantando voo com aquele tipo de precisão malévola. “Deus salve a América”, foi o que eu pensei quando levantei sem me despedir direito e atravessei a rua em direção a um bar que me inspirasse mais segurança mesmo com todos aqueles torresmos na estufa e toda a música sertaneja nos mais altos decibéis. Encostei num balcão e pedi o que eles chamam de whisky por ali. Fiquei imaginando ela atravessando a rua de volta pro seu carro com toda aquela elegância particular e rezei timidamente pra que tudo corresse bem pra ela e pras outras que eu gostava tanto e que eu me senti o maior canalha por levantar daquele jeito e fugir e pra mim e pra aquele sujeito que pedia outra música sertaneja e pro cara que se entupia de torresmo e pro amigo que foi pego no flagra pela namorada com outra no banheiro e pra namorada do amigo que pegou o namorado com outra no banheiro e pros meninos da aldeia que estava sendo incendiada naquele momento que já era outro dia em outro lugar do mundo e pros casais de namorados passeando no parque ou saindo do cinema. Naquele tempo eu esperava o dia amanhecer, uma nuca como um convite e um Jesus Cristo em Preto e Branco pendurado sobre a cabeceira da cama dela. Naquele tempo eu tinha pra onde voltar. Eu só preciso me acostumar aos novos tempos. Ou fazer o tempo voltar. Ainda não tenho a menor idéia pra onde é que eu vou. Mas eu tenho uma certa noção de como andar no escuro.

2 Comentários

  1. Jarbas Martins
    12 de fevereiro de 2012

    Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada.

  2. Eliane Dantas
    12 de fevereiro de 2012

    Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins.

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POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar