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Minha mãe

solidão

A velha sentada na cadeira de balanço na varanda mal anda, mal fala e mal ama — se é que a necessidade de cuidados no fim da vida a tenha feito criar algo parecido com esse nobre sentimento. Mas isso já não importa tanto para Margarida, a filha da qual ela depende agora para sua existência. Teve um tempo em que Margarida precisou muito desse amor e chegou mesmo a implorar por ele. Na verdade, não se sabe dizer porque, depois de tudo que passou, cuida da mãe com uma dedicação e carinho que vão além de qualquer obrigação formal de filha. Imagina que talvez seja o amor que já teve por ela, resgatado de quando era muito nova, quando ainda não conhecia o que era maldade e não fazia ideia de que a forma com que era tratada pela mãe era muito diferente da de outras mães.

Não descarta, ainda, porque não, o prazer de vê-la, antes tão poderosa e ameaçadora, agora indefesa, enterrada naquela cadeira de balanço e totalmente dependente dela. Desconfia que a confusão de sentimentos, amor e ódio, poderia já estar presente no tempo que levou para contar ao pai o quanto ela e a irmã mais nova, Maria, eram maltratadas durante suas ausências. É certo que sempre tivera muito medo da mãe, que proibia as filhas, com ameaças de agressões físicas, de revelarem o que ocorria em casa ao marido — um marinheiro que, por conta da profissão, era obrigado a ficar constantemente longe da família.

Margarida tinha uns onze anos quando aguardou o pai ficar sozinho para contar as maldades da mãe. Chorando, com o coração quase saltando do peito, ela descarregou tudo, num impulso só, mal conseguindo respirar. O pobre homem começou a encolher-se no sofá da sala ao ouvir a filha contar todas aquelas barbaridades. Ela lhe revelou que a mãe utilizava o dinheiro que ele deixava para as despesas de casa em tudo que o pai pudesse imaginar, como roupa, sapatos, guloseimas exclusivas para ela e saídas com as amigas, menos em alimentos para as filhas. Na verdade, os únicos cuidados que a mãe tinha com elas eram apenas os necessários para que o pai não percebesse nada quando estivesse em casa. Mantinha, por exemplo, as crianças em dia com as obrigações da escola, o que não era difícil, pois muitas vezes a merenda do colégio público representava a única alimentação decente das duas pela manhã. Com medo da mãe, as irmãs faziam tudo para ninguém perceber na escola o quanto estavam e viviam com fome. Uma vez, Margarida chegou a passar mal, o que levou a professora a, numa ironia cruel, chamar sua atenção para se alimentar melhor em casa.

Na maioria dos dias, o menu era café e um pão pela manhã, já no almoço e à noite, algo como um pouco de arroz, mal esquentado por um ovo frito jogado por cima. O pão, a mãe comprava em grande quantidade e fazia as filhas comerem durante muitos dias, mesmo quando já estava duro de velho.

Era comum as duas serem deixadas sozinhas em casa, enquanto a mãe saía para beber com as amigas. Certa noite, uma vizinha, após ouvir o choro de Maria, ainda quase um bebê, levou as duas para sua casa. A vizinha ainda deu uma bronca na mãe quando ela chegou de madrugada. A mãe mentiu, disse que tinha pago uma moça para cuidar das filhas, que, pelo visto, as tinha abandonado. Naquela madrugada mesmo as meninas apanharam. Maria, por ter chorado alto para a vizinha ouvir, e Margarida por ter permitido. Dali para frente, Margarida ficava desesperada, entretendo de todas as formas a irmã, para que ela não chorasse nas noites em que a mãe se ausentava.

Depois que a filha terminou de contar tudo, o pai ficou abalado e revoltado com o que ouvira. O que mais o revoltava era nunca ter notado nada de diferente em casa, embora não percebesse que não tinha sido um pai muito atento às filhas, nem mesmo na forma com que as meninas devoravam a comida nos dias em que ficava em casa. Quando voltava das longas jornadas no mar, gastava a maior parte do tempo vendo televisão ou jogando sinuca com os amigos no bar da esquina, muitas vezes para fugir do barulho das meninas.

Quando a mãe chegou, encontrou as filhas chorando, abrigadas atrás do pai. Percebendo o que tinha ocorrido, saiu para cima delas.

— O que essas mentirosas andaram …

Antes que pudesse falar mais alguma coisa, caiu com um murro desferido pelo marido. Não foi mais agredida porque as filhas, chorando, se intrometeram na frente do pai.

A mulher se levantou e, cambaleando, tentou segurar o marido, que ia em direção ao quarto arrumar as coisas das meninas para levá-las embora.

— Não me toque, sua louca. Você não é normal, como pôde fazer isso com suas próprias filhas? Você é um demônio, não merece nem viver.

— Essas meninas são mentirosas… Você não pode acreditar nelas… Eu nunca seria capaz de fazer nada de mal…

Enquanto a mãe tentava, em vão, reverter a situação, as filhas ajudavam o pai a arrumar as malas. Em pouco tempo, estavam saindo porta afora, deixando a mãe esbravejando.

— Podem ir seus ingratos… Podem ir, eu é que não quero vocês mais aqui. Vão embora…

O pai levou as filhas para morar provisoriamente com um casal amigo, enquanto alugava uma casa para a família, desfalcada definitivamente da mãe. Na nova morada, contratou uma senhora para tomar conta delas quando estivesse embarcado. Essa senhora, comovida com o que aconteceu com as meninas, sempre procurou tratá-las com amor e carinho, sendo, no final das contas, o que de mais perto as duas chegaram de uma relação verdadeiramente materna.

Uns dois anos depois, Margarida reencontrou a mãe, a contragosto, em uma visita incentivada por uma tia materna, inconformada com a distância entre mãe e filhas e relutante em aceitar que a irmã era o monstro que o cunhado lhe falara. Margarida chegou tensa e com muito medo para o encontro em sua antiga casa, onde a mãe continuou vivendo. Não sabia se ela ainda estava com raiva pelo fato da filha ter contado tudo para o pai.

— Olha aqui quem veio fazer uma visita — disse a tia apontando para a sobrinha.

A mãe, que estava sentada na poltrona da sala assistindo televisão, se voltou para elas sem mostrar nenhum tipo de expressão.

— Não vai dizer nada? — insistiu a tia, decepcionada e já arrependida de ter levado a sobrinha.

A mãe soltou um sorriso sarcástico e, balançando a cabeça num sinal de aprovação, disse para a filha:

— Parece que estão cuidando muito bem de você.

Depois, voltou-se totalmente para a televisão, sem prestar atenção em quem estava à sua volta. Margarida aproveitou o desinteresse da mãe e saiu porta afora sem nem esperar a tia.

Voltou a saber da mãe apenas décadas depois, quando ela já estava muito doente e sozinha. A tia, a única pessoa próxima que não abandonou a irmã, tinha morrido, restando à mãe somente as duas filhas. Como Maria morava em uma cidade muito longe, só sobrou a filha mais velha.

No começo, Margarida pensou em trazer a mãe para morar com ela por compaixão. Já tinha passado muito tempo das maldades dela e acreditava a ter perdoado, embora as marcas não tenham se apagado por completo. O fato de sempre ter evitados filhos — ao contrário de Maria, que teve três —, mesmo tendo se casado duas vezes, poderia ser resultado de algum desses traumas, pois, no fundo, sempre teve medo de fazer com eles o que a mãe fizera com ela.

Esse desinteresse por filhos, nunca aceito pelos maridos, pode revelar um outro motivo, talvez o de maior sentido prático para a atenção de Margarida para com a mãe: a solidão. Com o convívio diário, começou a gostar de tê-la por perto, de ter alguém para cuidar.

De longe, a irmã mais nova, que nunca fizera questão de perdoar a mãe, dizia para Margarida, quando as duas falavam ao telefone, que ela era uma besta por demandar tantos cuidados para aquela mulher cruel, que quase as matou de fome. Margarida apenas ria, pois pensava que, se Maria estivesse perto, faria a mesma coisa, não seria tão insensível quanto dizia, afinal, quem consegue odiar sua própria mãe?

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Comentários

2 comments

  1. Tim Kawasaki 10 abril, 2017 at 16:39

    Massa.
    Acredito que perdoar, além de libertar a si mesmo, traz paz a mente e ao coração

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