Minha tarde com Tônia Carrero

Destaque

Haviam me avisado que era preciso ser pontual porque a atriz estava com a agenda lotada. “Os senhores terão direito a trinta minutos de conversa”. O local da entrevista fora confirmado: duas e meia no Teatro da Aliança Francesa na rua General Jardim, na região central de São Paulo. Fiquei certo de que ia encontrar uma grande diva, falante e um tanto afetada. Errei, redondamente. Trata-se de uma pessoa normal, que abre a bolsa para oferecer pastilha e que olha para os seus entrevistadores com o ar cúmplice de que vamos trabalhar juntos. A mim e a ela, haviam se juntado mais dois outros coleguinhas da imprensa. Portanto, numa das mesas do café, na entrada do teatro, estavam sentados eu, o outro jornalista, a moça bonita, repórter de um jornal de circulação diária e ela, Tônia Carrero. Pensei que ia encontrá-la excessivamente maquiada, uma senhora ‘‘produzida’’. Errei, outra vez. Uma maquiagem leve a revelar seu belo rosto, uma fina camada de base e a sombra nos olhos, a acentuar o azul da sua íris. Uma roupa casual: calça comprida branca, uma blusa discreta, meia-estação, mangas três quartos e pouca joia, ou melhor, quase nenhuma joia, apenas um discreto anel, na mão direita. O meu colega já havia lhe feito uma pergunta e a conversa começava a fluir. Lógico, o assunto era teatro e quando houve uma brecha, ataquei de “Tônia, como está o teatro em nosso país”? Num tom firme, mas com bastante naturalidade, disse que “ele está um pouco vulgarizado. Teatro é profissão, de terça a domingo. Tem que ser levado muito a sério, não pode ser um caça-níquel. Teatro dá trabalho. Dá muito trabalho”. Ouvi atentamente o resto das suas considerações. Fiquei pensando: quem está falando estas palavras conhece teatro de cor e salteado. Depois li no press-release da assessoria de imprensa, a informação correta: são cinquenta e quatro anos de carreira. “A gente enriquecia com teatro. Montei “Tiro e Queda”, uma comédia, que foi um sucesso louco. Com o dinheiro que ganhamos, fizemos “Constantino”.

Pensei que ia encontrar uma pessoa muito apegada ao passado. Errei, de novo. Ela não faz o gênero ‘’os tempos de outrora é que eram bons’’. Uma das poucas vezes em que se referiu ao passado foi para fazer uma brincadeira com a figura do produtor. “Naquela época não se chamava produtor. Tinha a figura do administrador, que fazia tudo”.

TC não escondia sua paixão pela televisão. O monstro de olhos azuis, como uma vez, se auto intitulou, sorria quando falava das novelas. “Gosto de novelas, gosto muito de Gilberto Braga. Fizemos “Água Viva”, “Louco Amor”. Ele é ótimo. Por causa dessa sua ligação, com a televisão, recebeu críticas. Os amigos de Rubem Braga quando souberam que o casal estava namorando questionaram o cronista. “Cê tá louco, aquela mulher fala pelos cotovelos”. Corre uma história dando conta que o autor de “A Borboleta Amarela” ouviu tudo calado para depois suspirar: “Ah, mas que cotovelos…”

Lá pelo meio da conversa, a entrevistada deixa escapar um desejo. O de que a sua amiga Maria Adelaide Amaral escrevesse a sua história, centrando o foco da ação na sua vida dedicada ao teatro. Seu filho e três netos foram contaminados pelo DNA do palco. Enquanto a mãe estreava em São Paulo, o filho Cecil Thiré prosseguia em cartaz no Shopping da Gávea, no Rio, com “Papai e Mamãe”, texto que assina junto com seu filho, Carlos Arthur Thiré. Sua neta, Luiza Thiré faz “Aurora da Minha Vida” de Naum Alves de Souza, enquanto seu outro neto, Miguel Thiré, trabalha em “Beijo na Boca”, uma peça infanto-juvenil. “Uma saga feita de amor pela arte de representar, isso renderia um belo trabalho na mão da talentosa Maria Adelaide”.

Alguém nos interrompe para oferecer um cafezinho. Voltamos ao assunto teatro, afinal era uma chance rara de ouvir quem conhece e quem tem muito o que contar. Eu a provoquei, dando uma de quem não acreditava no futuro da arte cênica. Foi a única vez em que ela subiu o tom de voz: “o teatro não acabará nunca. Enquanto houver duas pessoas conversando, haverá teatro”.

Suponho que subitamente a mulher Tônia sumiu como que num passe de mágica, agora falava a entidade atriz, ”a alma pertencente à arte”. Na sequência, indaguei se ela acha que o público está satisfeito com o que está vendo e se ele não está querendo algo mais? A premiada dama não hesitou em dizer que “muito pouca gente quer algo mais. Talvez só os eruditos tenham esta expectativa. Porém, no geral, é o que se tem, é o que se faz”.

A conversa seguia num clima bastante amigável. A entrevistada havia elogiado a beleza da jovem repórter, que lhe agradeceu com um sorriso emocionado. A moça quis saber quais as atrizes que Tônia gostava. “Admiro todas elas”, declarou. A jornalista insistiu pedindo alguns nomes. TC arriscou, fazendo força para não ser traída pela memória, alinhavando os nomes de Drica Moraes, Adriana Falcão, Cristiane Torloni.

O diálogo girava em círculo. Ela apertou a mão do meu coleguinha porque ele se lembrara de uma frase de Rubem Braga. (“Aqui, outrora, retumbaram hinos”). Eu errara novamente a respeito dela. Estávamos diante de uma pessoa que vê o outro, que se permite se relacionar e desenvolver um diálogo. Observei, por diversas vezes, a importância que ela dá à plateia. Foi uma hora em que ficou séria e filosofou: “A plateia paga não só para rir. É para aprender alguma coisa em relação a sua vida, para ter uma lição de humanidade, de cultura”.

Evidente que ia chegar a hora em que a conversa cairia para o lado pessoal. Tônia não se fez de estrela. Falou da sua infância, do seu pai oficial do Exército, da sua mãe que queria que ela fosse pianista, do seu amor pelo Rio, seus namoros e o seu casamento com um homem que tinha os pais desquitados. Brincou com a rigidez dos costumes daquela época, lembrou da origem do seu nome artístico, revelou seu apelido em família, Mariinha, e disse como foi importante para sua vida, o contato com os artistas e os intelectuais, na casa do Aníbal Machado, pai da escritora Maria Clara Machado. Foi uma convivência antes de ser tornar atriz, pois sua estreia ocorreu quando tinha vinte e seis anos.

Leu muito, estudou muito. Quando artista já consagrada viajou o Brasil inteiro. Esse comentário serviu de ponte para que eu lhe perguntasse o que ela está achando “deste Brasilzão de hoje”? Tônia respondeu me devolvendo a questão: “e você, o que está achando”? Em seguida, resignada, comentou “estamos esperando. Muita coisa foi prometida, não é”? Confesso que tinha armado esta indagação para logo na sequência interrogá-la se ela conhecia Cachoeiro de Itapemirim? Sua reação foi do jeito que eu havia imaginado – dessa vez, não errei. “Cachoeiro é a terra do Rubem Braga”. Rimos desta particularidade. Cachoeiro, para nós, não é a terra do Roberto Carlos, e sim, berço do Rubem Braga. Mentalmente fiquei me divertindo, dizendo para mim mesmo, que Cachoeiro tem dois gênios, primeiro o mestre Braga e, segundo, aquele cidadão que contratou Sérgio Buarque de Holanda para ser diretor de O Progresso, o jornal da cidade.

Tônia falou de música popular brasileira, falou de literatura. De Zeca Baleiro, Zeca Pagodinho, Ednardo. Disse que está lendo Marques Rebelo, que achou maravilhoso “A Estrela Sobe” e aproveitou para contar uma história do escritor carioca. Disse que o seu conterrâneo resolvera ser crítico de cinema e que um dia ao abrir o jornal se deparara com um comentário dele sobre o filme brasileiro “Uma Agulha no Palheiro”. Neste artigo, MR faz uma apologia à beleza da cantora e atriz Dóris Monteiro, terminando sua crônica assim: “Adeus, Cacilda, adeus Tônia”. Ela olha para nós, dá uma piscadela e gesticulando com as mãos confessa que ficou brava com Marques Rebelo.

Ainda perolando o bom humor, TC introduz o tema idade. E dando uma solene risada, repete a frase da sua amiga Bibi Ferreira: “Bibi diz que a velhice é uma prova de que o inferno existe”.

Ela é de agosto, vinte e três de agosto, de um ano importante, 1922. Sua espontaneidade e sinceridade iam nos envolvendo. Eu me vi obrigado a reavaliá-la outra vez. De uma pessoa tão elogiada por sua beleza esperava um excessivo louvor a este seu predicado e não o contrário. “Eu só passei a ser respeitada como atriz depois que fiz “A Navalha na Carne” de Plínio Marcos. (Prêmio Molière como melhor intérprete). Meu colega jornalista manifestou sua perplexidade. Tônia reforçou este comentário lembrando de um crítico da época que escreveu o seguinte: “Talvez se ela não fosse tão bonita, a gente podia ter notado antes seu talento”. Aliás, estabeleceu-se uma boa camaradagem entre o meu colega de imprensa e a entrevistada. Viva, rápida, sensível, uma hora, a entrevistada alertou “já sei o que você é, você é poeta”. O citado repórter ficou constrangido, quis negar, mas depois, terminou confessando que comete versos e que tem um livro que, um dia, pretende publicar.

Quanto ao aspecto da sua beleza Tônia só se traiu uma vez. Não resistiu e contou o jantar entre ela e Guilherme Figueiredo, em Paris. Ela, um tanto insegura, lhe pergunta: “Você me acha uma grande atriz”? E ele, em cima da bucha: “Acho. E nem precisa”.

Atuou em peças de Becket, Ibsen, Tchekov, Sartre, Pirandello, Dürrenmatt, mas também prestigiou a dramaturgia brasileira, especialmente Nelson Rodrigues e Plínio Marcos. Tônia gosta de dizer que aproveita a vida de todas as maneiras. Assim parece ser também no teatro. Pois sempre gosta de estar perto do talento, não importa a língua que ele fale.

Estou me lembrando do final da nossa entrevista. Como tínhamos entre os entrevistadores, um poeta, tomei a liberdade de ler um poema que dizia assim: “No berço não fui beijada/na mesa não me sentei/na cama não fui amada/fiquei por fora da casa/não tive espelho de mim/ teatro foi berço, a casa/a cama e a mesa e vi/a imagem do corpo inteiro/onde o sonhado esplendor? que importa?/me reconheço/recomeço/minha vida/minha morte/meu amor.”

À medida que eu ia declamando o texto, a entrevistada repetia algumas de suas estrofes. O poema era dela, identificado por seu nome de batismo, Maria Antonieta Portocarrero.

É dispensável dizer que saímos leves em busca do primeiro táxi. Mas ainda deu para encontrar um amigo que não via há muito tempo. E ele me perguntou “o que você anda fazendo, Marcius”? No entusiasmo do momento, respondi animado: “Eu acabo de entrevistar Tônia Carrero”. E ele, o consagrado pintor Tuneu, sorriu iluminado: “Entrevistar Tônia, que legal! Tônia, Tônia Carrero, ela é extraordinária”.

Share:

Comentários

Leave a reply